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2.1 DOUTRINA: A Crença Dos Povos Indígenas
Trataremos de falar sobre a religião indígena, propriamente dita. Importante verificarmos que não entraremos em destaque de todas as tribos verificadas no mundo, longe de nós fazer uma proeza desta. Limitamos, portanto, em verificarmos somente algumas crenças, ritos, etc, considerados mais importantes. A religião indígena é bastante ligada à natureza, a terra e tudo que é proveniente dela, e ainda, ao mundo animal e aos poderes sobrenaturais que estes e alguns homens possuem. Em síntese estamos pensando na religião do xamanismo, onde estudaremos os seus principais fundamentos e características. Sabe-se que muitas vezes no decorrer da história os povos indígenas foram destacados como personagens sem crença alguma, que não tinham deus ou deuses, ou até mesmo ídolos, ou seja, não havia religião alguma. Sem duvida, idéias errôneas e preconceituosas, pois, sabe-se que o homem branco estava ocupado de mais para analisar profundamente os povos indígenas. Osvaldo Orico, citado por Pereira, entende que os índios possuíam sim uma noção da existência de uma força, de um deus superior a todos. Diz Orico:
"A despeito da singela idéia religiosa que os caracterizava, tinha noção de Ente Supremo, cuja voz se fazia ouvir nas tempestades– Tupã-cinunga, ou o trovão, e cujo reflexo luminoso era Tupãberaba*, ou relâmpago." (ORICO, citado por PERERIA, p.22, 2001)
Mas devemos desde já adverti-los que as religiões indígenas, no caso acima que se refere às tribos do Brasil, segundo Pereira, pode haver interferências dos primeiros missionários que desejavam impor uma divindade nova aos índios, desconfigurando outra já existente e reconhecida por eles. Vejamos:
"o primeiro trabalho dos missionários é identificar os focos de adoração e depois combatê-los em nome da sua fé, não foi multo difícil reconhecer no Jurupari o alvo desse primeiro movimento. O Jurupari, uma divindade dotada de grande prestigio e investida de muitos privilégios, recebeu a primeira carga da brigada eclesiástica: Todo culto pagão é obra de Satanás! Por força desse argumento que tanto prejuízo trouxe à cultura de muitos povos, esse deus autóctone foi transformado em Diabo, na encarnação do Mal e para combatê-lo e defender o selvagem de sua nefanda influência "surgiu" Tupã, um ser tão distante da compreensão dos nossos nativos quanto o Jurupari da dos missionários. Câmara Cascudo diz que Tupá "é um trabalho de adaptação da catequese" (cf. 1972: 85). Na verdade Tupã já existia, não como divindade, mas apenas como conotativo para o som do trovão (Tu-pá, Tu-pã ou Tu-pana, golpe ou baque estrondante) portanto, não passava de um efeito, cuja causa o índio desconhecia e, por isso mesmo, temia. (PEREIRA, P.22, 2001) (grifo nosso)
Como verificado, os Índios já conheciam uma Entidade Superior, tal como o Jurupari dentre outros como os Maï, "raça de divindades celestes, (...) devoram almas dos mortos recém chegados ao céu; em seguida, imergem os despojos em um banho mágico que ressuscita (...) os mortos" (CASTRO, p.264, 2002). O Tupã também já era conhecido pelos índios, não como um Deus, mas como um Ente Supremo, mas que depois, devido às influências missionárias, que em nome do Catolicismo foi transformado em Deus (somente para os índios), seja pela viabilidade ou pela facilidade de manter os índios tenebrosos. Neste caso, portanto, Tupã poderia ser entendido como um demônio, temido pelos povos indígenas "por controlar o raio e o trovão e, assim, conseqüentemente, a morte e a destruição. Dessa maneira os sentimentos indígenas para com essa entidade são mais de medo do que veneração" (LARAIA, p.11, 2005) Mas o que queremos comprovar com estas idéias apresentadas é que de fato, os índios não eram "essa gente sem fé que os cronistas nos descreveram com tanta segurança: seus próprios testemunhos vêm ensinar-nos o contrário" (CLASTRES, 1978, p.51, citado por MENDONÇA, p.8, 2007). Trataremos, portanto de aprofundarmos mais em seus conceitos religiosos, no que tange as suas crenças. Quanto ao xamanismo, uma crença ou prática religiosa indígena, possui fundamentos muito complexos, por ser uma religião advinda da fusão do animismo com totemismo. O animismo designa uma manifestação religiosa que possui caráter de relação entre a categoria humana e não-humana, ou seja, o Sol, a Lua, as rochas, animais, arvores, os rios, oceanos, a chuva, etc. Portanto, é tudo o que concerne às relações da sociedade indígena com a natureza. Os Elementos, para aqueles que acreditam no animismo, se encontram "animados", ou seja. Possuem ânimos, vida. O Totemismo é uma manifestação religiosa ligada ao objeto Totem. O Totem é compreendido através da ligação do homem com o animal ou seu espírito. Não podemos negar também, que ultrapassa esta relação do homem como o animal, podendo também ser através de seres inanimados (vento, chuva etc). Não aprofundaremos nestes dois contextos. Apenas sintetizamos para verificarmos a aproximação do animismo, totemismo e xamanismo. Outro motivo que não aprofundamos nas manifestações e crenças do animismo e totemismo é porque a própria religião xamanística irá abordá-los em momentos oportunos. Em síntese, o xamanismo é uma religião que trás uma concepção de "animais e outras subjetividades que povoam o universo – deuses, espíritos, mortos, habitantes de outros níveis cósmicos, plantas" (CASTRO, p.350, 2002), muito diferente de algumas características verificadas em outras religiões. Para concluirmos o porquê da profunda ligação deste povo com sua terra e com os mortos enterrados nela, ou até mesmo o respeito que estes têm aos animais, vejamos a seguinte frase a titulo de exemplo. Os índios Através da doutrina xamanística acreditam que:
"os animais são gente, ou se vêm como pessoas. (...) normalmente visível apenas aos olhos da própria espécie ou de certos seres transespecíficos, como os xamãs (...) "espíritos, mortos e xamãs que assumem formas animais, bichos que viram outros bichos, humanos que são inadvertidamente mudados em animais" (CASTRO, p.351, 2002)
Este sistema de idéias é verificado com freqüência pelas culturas indígenas amazônicas, presentes também em outros lugares. Tal pensamento, portanto, frisa que quando um homem morre torna-se animal ou outro ser, como um vegetal, mas, que ainda sim, continua a ser humano, mesmo visível em outra forma, ou seja, "de modo não-evidente" (CASTRO, p.356, 2002). Em síntese, todo este pensamento deve se ao fato de que os seres humanos representam uma subcategoria "dos apapalutápa-mína, e/ou vice-versa. (...), ou seja, 'bicho' é 'gente'" (CASTRO, p.49, 2002). Em um momento oportuno, veremos que é daí que surgem vários mitos indígenas. Quanto à figura do xamã, um elemento importante para a religião em questão e que segundo Castro este desempenha "um papel religioso de destaque (CASTRO, 213, 2002). Vários são os povos indígenas que possuem a figura do xamã, estes podem ser considerados indispensáveis para a comunidade religiosa. Para compreendermos melhor o que seria um xamã, busquemos a sua originalidade.
"A palavra xamã, é originária de um povo siberiano, os tungus. Eliade restringiu o uso do termo aos especialistas do religioso que acreditam que através do estado de transe, entrar em contato com seres sobrenaturais, sejam eles as almas dos seus antepassados ou diferentes tipos de espíritos. Este é o caso da maioria dos líderes espirituais indígenas. A palavra tupi-guarani (...) xamã é pai 'é, português como pajé" (LARAIA, p.8, 2005)
Portanto, estes xamãs, são homens que possuem atribuições de encontrar-se com o sobrenatural dentre outras funções. É como um líder da tribo, importante lembrar que não um líder de guerra, mas sim, um líder religioso que guia o povo indígena e os protegem de qualquer perigo eminente. O pajé, pai, é também um xamã, nomenclatura encontrada no Brasil. Em síntese os xamãs são conhecidos de vários modos e possuem várias atribuições, tais como:
"mediadores entre o sobrenatural e os humanos, aptos no predizer o futuro, no domínio dos fenômenos da natureza, na nomeação dos recém-nascidos, os atributos específicos dos caraís, profetas indígenas, homens santos, aparentados dos heróis civilizadores (...) dotados do poder de comunicação com os espíritos, da capacidade de transformação, podendo se metamorfosear a si mesmo ou a outrem, em pássaros e animais, como também de fazer crescerem as plantas. Desfrutadores de um enorme prestígio entre os indígenas, poupados, por isso, em todas as guerras, suas presenças eram marcadas pelos cânticos e danças" (MENDONÇA, p.4, 2007)
Não é de questionar porque os xamãs são entidades respeitadas, não somente pela tribo em que pertencem, mas em todas as tribos que eles quiserem visitar. Nestas, os xamãs não correrão nenhum perigo. Eles, segundo os índios possuem grandes poderes sobrenaturais, conforme já citado. Por tal motivo não iam para as guerras. Um Xamã devia somente se preocupar com questões que envolvem a religião da tribo. Mais especificamente no Brasil, o termo xamã era/é empregado para designar um "homem-médico, feiticeiro ou mago, para designar determinados indivíduos dotados de prestígio mágico-religioso e reconhecidos em todas as 'sociedades primitivas" (LARAIA, p.8, 2005). Laraia, relatando as religiões indígenas no Brasil, menciona que um xamã ocupava-se na maior parte de seu tempo em curar "através do controle dos espíritos que provocam as doenças e, até mesmo, a morte" (LARAIA, p.8, 2005). Os praticantes da religião xamanística além de respeitarem os animais em muito aprendiam com estes. A idéia primordial é de que os animais, mais especificamente, os pássaros, quando cantam renovam as forças daqueles que escutam, além de trazerem as boas novas pelos espíritos dos ancestrais que podem ser ouvidos nos cantos dos pássaros. Vejamos o que o descrente Léry relata, quando citado por Mendonça.
"Certa noite em que dormi numa aldeia chamada Ypec pelos franceses, ouvi à tarde cantarem esses pássaros um canto melancólico e vi os selvagens quedarem silenciosos e atentos. Conhecendo a causa de tal atitude, quis convencê-los de seu erro. Mas apenas toquei no assunto e me pus a rir juntamente com outro francês que me acompanhava, um ancião ali presente exclamou com rudeza; 'cala-te e não nos impeças de ouvir as boas novas que nos enviam nossos avós; quando ouvimos essas aves ficamos contentes e nos sentimos com novas forças'. Pareceu-me inútil replicar. (LÉRY, 1980, p. 154 citado por MENDONÇA, p.12, 2007) (grifo nosso)
Os animais, sem sombra de duvida são importantes para a religião destes povos. Não só porque vivem em locais de abundantes vegetações e na presença de uma variedade de fauna, mesmo porque, estes poderiam viver, e alguns vivem em grandes cidades e sustentam, ainda sim, sua religião. Importante lembra que não é somente no momento acima apresentado que os animais estão presentes e têm importância para a religião, mas em tantos outros. O pensamento religioso indígena através do profetismo gravita "em torno da Terra sem mal (...) pretendeu, essa religião a uma resposta de gente oprimida a uma situação de opressão" (CLASTRES, citado por MENDONÇA, p.8, 2007). A busca de uma terra sem mal, surge, basicamente, em face da opressão e dificuldades que estes povos enfrentaram ao longo da história, e pode-se dizer que enfrentam ainda hoje. Importante visualizar que a Terra sem mal, não afasta a situação de guerra. Afirma também este posicionamento Eduardo Viveiros de Castro, ao dizer que
"A Terra sem mal não excluía, antes potencializava a guerra. Recordemos a tríade clássica de promessa dos profetas: longa vida, abundancia sem trabalho, vitória contra os inimigos. O xamanismo possuía conexões decisivas com a guerra" (CASTRO, p.226, 2006) grifo nosso)
Vendo que o Xamanismo tem forte ligação com a guerra. Podemos então, destacar outra importante atribuição dos pajés, se tratando de tribos brasileiras, ou dos xamãs, se tratando de outras tribos presente no mundo: é de prever as guerras e suas conseqüências, inclusive quando se deveria travar uma.
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