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Espinhela
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Espinhela caída é a designação popular de uma doença caracterizada por forte dor na boca do estômago, nas costas e pernas, além de um cansaço anormal que acomete o indivíduo, ao submeter-se a esforço físico. No Brasil, a doença é também referida como "espinguela caída", na Bahia, e "peito aberto", em Pernambuco, ou ainda como "arca caída". 1
Segundo a tradição popular, a espinhela é um osso pequeno, flexível, "parecendo um nervo", que se encontra no meio do peito, entre o coração e o estômago, e que pode envergar para dentro. Em Portugal diz-se que "a espinhela é um ossinho, como o rabo de uma lebre, na boca do estômago". Quando o indivíduo faz um grande esforço e sente dor no local, significa que está sofrendo de espinhela caída. A doença seria decorrente de esforço repetitivo - como erguer ou carregar objetos excessivamente pesados.
Caixa torácica, com o osso esterno destacado em vermelho
Caixa torácica, com o osso esterno destacado em vermelho
Tecnicamente, a espinhela corresponde ao apêndice xifóide ou processo xifóide2 (do grego ksíphos, eos-ous, 'espada ou punhal'), uma pequena extensão alongada, cartilaginosa, situada na extremidade inferior do esterno, que geralmente se ossifica, no indivíduo adulto.
Detalhe do esterno com o processo xifóide (espinhela) na parte inferior
Detalhe do esterno com o processo xifóide (espinhela) na parte inferior
Espinhela caída seria uma anomalia do apêndice xifóide, tendo como resultado uma síndrome muito complexa, com uma variada gama de sintomas, conhecida em vários países. A espinhela não pode "cair", de fato, mas relaxar-se ou curvar-se, por várias causas, inclusive uma tosse violenta, causando reflexos sobre estômago, diafragma, pâncreas, fígado e portanto gastralgias, vômitos, perturbações respiratórias, pancreáticas, hepáticas e languidez de todo o corpo. Segundo o professor Fernando São Paulo, citando Chermont de Miranda, o conceito de espinhela caída existia entre os ameríndios, antes da chegada de Colombo: espinhela caía - pissum hoá - e os pagés a levantavam - pissum upi. 3
A doença acomete adultos e pode ser incapacitante. "A pessoa com esta doença não pode trabalhar, não pode fazer nada!”. Segundo a tradição, se o médico examinar, não encontrará nada. Só um benzedor ou uma rezadeira pode curar a doença.4
Para se saber se a espinhela está caída, a rezadeira tira a "medida" do paciente. Com um fio de algodão ou uma toalha, mede o comprimento desde a ponta do dedinho à ponta do cotovelo ou o tamanho do braço em posição vertical e depois, de um ombro ao outro. Se coincidirem as medidas, a espinhela está normal. Se não, está caída.
Caso seja constatada a doença, o tratamento consiste primeiro no benzimento e depois na utilização das “garrafadas” de gemadas. O benzedor é importante, mas a própria pessoa pode se benzer, se tiver fé e fizer uso das garrafadas.
Exemplos de rezas
“Espinhela caída,/ portas para o mar;/ Arcas, espinhelas,/ em teu lugar.// Assim como Cristo/ Senhor Nosso andou/ pelo mundo arcas,/ espinhelas levantou.”
“Estava São Pedro deitado na sua capela com espinhela caída. Nosso Senhor passou girando seu mundo dele, encontrou São Pedro e perguntou: - Que tem Pedro? - Espinhela caída, Senhor. - Com que eu benzo, Pedro? - Água da fonte, raminho do monte. - Isso mesmo, Pedro, com isso eu curo. A minha caridade é vossa. Aqui estão as três pessoas da Santíssima Trindade. Aqui está a caridade e a virtude, este filho da Virgem Maria, fulano, há de ir melhorando de hora em hora, de minuto em minuto, de dia em dia.”
“Jesus Cristo nasceu,/ espinguela caiu,/ Jesus Cristo levantou, espinguela emborcou,/ Jesus Cristo ressuscitou,/ espinguela de fulano consertou.(3x)”
“Jesus, quando andou no mundo, levantou arca, espinhela e campainha-caída. Levantai a minha, Senhor.”
“Espinhela caída, ventre derrubado,/ eu te ergo, eu te curo, eu te saro,/ Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo,/ da espinhela caída estás curado.”
“Barquinho de Santa Maria/ tá no mundo sem parar/ levantando a sua espinhela/ as suas arcas/ Põe tudo em seu lugar/ sua espinhela/ suas arcas/ a seus ventos.”
Todas as orações rimadas ou rítmicas, ensalmos tradicionais, de força sugestiva pelo emprego dos nomes sagrados ou sucessão de algarismos, são vindos de Portugal e diferenciados pelo mestiço brasileiro, conforme observou Sílvio Romero. O professor doutor Fernando São Paulo estudou magnificamente o assunto, evidenciando a confusão de síndrome em Linguagem popular médica no Brasil, I, 353-364,5 com abundante documentação. Em Portugal, Jaime Lopes Dias abordou o assunto em Etnografia da Beira, VII, 233, Espinha (coluna vertebral) encostada, Lisboa, 1948; e Joaquim Roque, em Rezas e benzeduras populares, etnografia alentejana, 13-17, Beja, 1946.6
Referências
1. ↑ Frei Francisco van der Poel, OFM. Religiosidade Popular Vida e Religião dos pobres no Brasil
2. ↑ Portal do Hospital Universitário de Brasília. Dicas de linguagem médica
3. ↑ Cantídio de Moura Campos.Vida médica de Anchieta
4. ↑ Estudo das representações simbólicas de saúde, doença e cura na comunidade do Saco do Mamanguá, Paraty, RJ
5. ↑ Linguagem popular médica no Brasil 2 V. Salvador. Editora Itapuã, 1970.384 páginas
6. ↑ Panacéia : orações recolhidas por Sílvio Romero e comentadas por Luís da Câmara Cascudo
ESTÃO INDICADOS NO CASO DO INDIVÍDUO ACOMETIDO DE ESPINHELA CAÍDA, EXERCÍCIOS QUE ALONGUEM O TRONCO, NESTE CASO, A REGIÃO TORÁXICA. DEVE SER TAMBÉM OBESERVADO O NÃO ESFORÇO COM OS BRAÇOS NO PERÍODO DE RECUPERAÇÃO QUE PODE VARIAR DE 5 A 7 DIAS.
Obtido em "http://Espinhela"
Categorias: Cultura popular | Antropologia médica
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