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História da desembargadora willamara leila


 



Quando eu era estudante de Direito eu enfrentava muitas dificuldades na minha vida pessoal. Já era mãe de um filho, separada e pobre. Tinha em meu guarda-roupa quatro camisetas brancas e duas calças jeans. Era o meu uniforme. Morava muito longe da faculdade, tinha que pegar oito ônibus diariamente e quando faltava dinheiro para a condução, andava quase doze quilômetros. Saía de casa as 5:30 da manhã, chegava quase meia-noite, durante a semana não via meu filho acordado. Nem sempre almoçava em casa, eu praticamente morava na faculdade. No horário do almoço, tomava um lanche e para esperar as aulas da noite, ia para o melhor lugar do mundo, o lugar onde eu entrava e o mundo se abria para mim, a minha alma sorria, as dificuldades não existiam: a biblioteca. Ali, todos os livros eram meus, eu pesquisava, estudava, lia apenas, sem compromisso, e o tempo não passava, voava. Consegui comprar durante o período de faculdade, apenas quatro códigos. Eram meus companheiros e foram comigo as provas do concurso para a magistratura.



Como não podia trabalhar, (às vezes tinha aulas a tarde...), tive que inventar uma forma de me sustentar, então comecei a datilografar (depois, digitar...) trabalhos de estágio para os meus colegas, o que me tomava os meus fins de semana. A coisa deu tão certo que acabei ficando conhecida na faculdade toda e passei a atender também alunos de outros cursos.


E assim eu acabei tendo também noções de administração, pedagogia, letras, história (que eu adorava...). Além da seara do Direito, viajei também por outras praias.


A sorte me sorria, porque no terceiro ano, comecei a ser procurada por colegas que alegavam não ter tempo de pesquisar doutrinas e jurisprudências para ilustrarem seus trabalhos e se ofereceram para pagar mais, se eu me dispusesse também ao trabalho de pesquisa. Nem pensei duas vezes, além de ganhar mais, minha presença na biblioteca já era rotineira mesmo.


Acontece que, sem que eu percebesse, de tanto estudar para provas e para os trabalhos, comecei a ampliar de forma efetiva os meus conhecimentos. E como tinha que diversificar as citações bibliográficas, estudei vários autores e li muitas decisões dos tribunais superiores e aquilo tudo seria decisivo mais tarde quando me submeti ao concurso para ingressar na magistratura.


Considero importante ressaltar que ao optar pelo curso de Direito, eu já tinha por dentro a convicção de que seria Juíza. E foi essa certeza que me impulsionou a seguir sempre em frente, sem me deixar deter por qualquer obstáculo. Já naquela época eu sabia que sem luta e sem sacrifício eu não chegaria a lugar nenhum, pois as circunstancias me eram de todo adversas. Basta lembrar que era final dos anos 70, muita coisa acontecia em nosso País e uma mulher desquitada e com um filho, ainda que batalhadora, não era o que se poderia chamar de admirável. Não raras vezes fui vítima de preconceito, muito preconceito...


Mesmo assim , olhando sempre em frente, não me detive a contar as pedras do caminho. Sabia que se fizesse a minha parte, chegaria ao meu objetivo e só isso me importava.


Pensando bem, hoje eu vejo que até o uniforme que eu adotei por necessidade me ajudou a não ter preocupação com andar na moda, isso não era importante pra mim, e o trabalho que eu realizei supriu todas as carências de livros e material de pesquisa que eu não podia comprar, além de aumentar meus conhecimentos jurídicos.


Hoje, plenamente realizada profissionalmente e feliz na vida pessoal, lanço um olhar de ternura sobre o meu passado de estudante e vejo que tudo valeu a pena. E não poderia deixar de consignar que as adversidades me ajudaram a ser uma pessoa melhor, mais consciente das minhas limitações e das obrigações que tenho para com o meu próximo. E é com esse pensamento que procuro julgar os processos postos sob minha apreciação. Procuro sempre, em cada um deles, perscrutar, além da fria letra da lei, também os sentimentos que, por natureza, não se dissociam das ações humanas.


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