MÍDIA E DROGAS
Crianças da rua (e na rua)
Isak Bejzman (*)"The worst sin toward our fellow
creatures is not to hate them,
but to be indifferent to them.
That’s the essence of inhumanity."
George Bernard Shaw

rianças de rua, ou, melhor dito, crianças descartáveis, são as crianças que vivem - e que às vezes morrem - em ruas e malocas sujas e fedorentas das periferias dos centros urbanos deste Brasil, e constituem a página da vergonha de nosso momento histórico como sociedade civilizada. Vergonha por nossa indiferença com essas crianças, mortas pela fome, pela doença, assassinadas, descartáveis pela única razão de não terem nascido em berço de ouro, não terem tido uma família, um lar e nenhuma atenção social. São as crianças que a sociedade brasileira não consegue impedir que morram baleadas, destruídas por drogas ou mortas pela Aids.
Para a Organização Mundial da Saúde (OMS), que estima existirem 100 milhões de crianças vivendo nas ruas do mundo subdesenvolvido ou em desenvolvimento, 40 milhões na América Latina e 10 milhões no Brasil, crianças de rua são meninos e meninas com idade até 25 anos, que passam a maior parte de seus dias nas ruas dos centros urbanos. São muitos os subgrupos, para simplificar os divido em dois: crianças na rua e crianças da rua.
Os primeiros perfazem 75% do total. São crianças que têm alguns laços familiares. Despendem a maior parte do tempo nas ruas pedindo esmola, vendendo coisas de pouco valor, lustrando sapatos, lavando vidros de carros, dando espetáculos. Na maioria, o dinheiro ganho serve de suplemento para o ingresso familiar.
Os 25% restantes são os que vivem de fato nas ruas, em grupos, dormindo em prédios abandonados, debaixo de pontes e viadutos, em entradas de edifícios públicos e em parques públicos. Já existem famílias de rua, descendentes das crianças de rua.Essas crianças vivem de pequenos roubos e prostituição. Nos dois grupos, os meninos são maioria. As meninas têm por destino a prostituição.
Expulsão do campo, migração para grandes centros urbanos, mão-de-obra sem qualquer qualificação, prole numerosa, habitação deficiente, promiscuidade sexual, abuso sexual, degradação da família são algumas variáveis que podem ser arroladas como geradoras do fenômeno crianças de rua. Sem desmerecer a importância desses agentes causais, vou tentar me reportar a dois fatos que considero de suma importância para a Saúde Pública e a epidemiologia.
Segundo a OMS, 100% das crianças de rua são molestadas sexualmente por parentes ou vizinhos, por protetores que as exploram e se escoram nelas, levando-as a praticar crimes com armas de fogo, a usar drogas. E a maioria dessas crianças abusa das drogas, que as ajudam a negar, a fugir da realidade, a matar a fome e se aquecer. E acabam também vítimas de problemas físicos e psicológicos: edema pulmonar, insuficiência renal, lesões cerebrais irreversíveis e alucinações. Muitas são assassinadas, às vezes grupos inteiros.
A droga de eleição dessas crianças, quase que em sua totalidade, é a cola de sapateiro, barata e de fácil aquisição. A maioria das colas é fabricada com inalantes como o tolueno (altamente pernicioso) ou o ciclohexano - menos tóxico, mas de resultados patológicos iguais.
A palavra inalante se refere a milhares de produtos caseiros e comerciais que as crianças usam para cheirar. São produtos vendidos legalmente: tintas, solventes, acetona, gasolina, lança-perfume, clorofórmio, éter, nitratos e aerossóis. Seus efeitos são: perda momentânea da memória e da audição, espasmos musculares, lesões cerebrais, da medula óssea, do fígado e dos rins, morte repentina. Na mulher grávida, prejudica o feto, e é causa de grandes intoxicações.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) calcula que pelo ano 2000 a metade da população mundial terá idade inferior aos 25 anos, a maioria mergulhada na miséria. A previsão é de 300 milhões de crianças de rua. Diz o Unicef: "Cada vez que uma criança de rua morre de Aids, direitos humanos estão sendo violados."
Aos velhos e habituais assassinos que matam crianças de rua, juntou-se mais um - o HIV/Aids. Vendendo seus corpos para sobreviver, grande número de crianças é usado sexualmente. Contaminadas, passam a ser depósito e veículo de transmissão da Aids.
Independentemente da Aids, são grandes distribuidores das demais doenças sexualmente transmissíveis. Não usam preservativos, são promíscuos em suas parcerias, propagadores do herpes genital e, no que diz respeito às meninas, 65% delas são estupradas pelos pais.
Assassinadas ou mortas pela Aids, todas são vítimas de abuso e do abandono da sociedade, de suas famílias, de seus governos e da falta de recursos para o atendimento desses seres humanos - simplesmente crianças.
A maioria dessas crianças de rua não é escolarizada, e a situação complexa de suas vidas merece um sexto dedo na mão de quem pretende governar um país com problemas tão sérios como este. Para o Unicef, o fenômeno crianças de rua é um produto da urbanização, da pobreza e da falta de alternativas. Para alguns, as ruas são o escape da violência familiar e de famílias desajustadas. Para outros, é um meio de conseguir melhorar a renda familiar, passar o tempo, se divertir, ou uma forma de escapar temporariamente do ambiente caseiro degradado. No Brasil, são chamados de pivetes, marginais ou simplesmente de pequenos bandidos.
Debate-se pelo mundo afora o problema da droga. Governos gastam milhões no combate ao tráfico de drogas de uso ilícito, e em alguns países se lotam prisões porque alguns fumaram um baseado ou cheiraram cocaína.
Mas no negócio pegajoso e asqueroso da cola de sapateiro - o planeta compra 20 milhões de galões mensais -, nenhum governo consegue fazer com que os dois grandes fabricantes mundiais desse produto modifiquem suas tecnologias. Isso sim, é um imperativo: libertar as crianças - no mundo subdesenvolvido, 50% delas estão abaixo dos 15 anos - dos solventes que servem de base para os adesivos e acabar com o negócio grudento.
(*) Médico psiquiatra e jornalista
Fontes:
World Health Organization: A one-way street? Report on Phase I of the street
Casa Alianza: Sticky Business - Overview.
Casa Alianza: Street Children and Aids - Overview.
Casa Alianza: The list of shame.
The forgotten children: The gamines
Unicef: Street children - The United Nations’ views