No início dos anos setenta, dois brilhantes autores de quadrinhos, ainda estudantes universitários na época– Laerte Coutinho e Luiz Geraldo Ferrari Martins (Luiz Gê) – cursando respectivamente a FAU e a ECA, tramaram criar uma revista que rompesse com o paradigma das HQs vigente à época. Reunindo alguns outros autores iniciantes do meio universitário, lançaram aquela que viria a tornar-se a primeira revista de HQs “udigrúdi” brasileira: Balão. A partir da experiência pioneira do Balão, as histórias em quadrinhos deixaram de ser direcionadas exclusivamente para o público infantil ou adolescente e adquiriram conteúdo crítico, iniciando a gênese dos modernos quadrinhos adultos brasileiros. Com uma tiragem insignificante em termos industriais, o Balão era vendido de mão em mão pelos próprios autores ou era deixado em consignação em algumas poucas e raras livrarias especializadas. O conteúdo abordava assuntos emblemáticos: o futebol e a malandragem (temas tipicamente brasileiras que foram abordados do nº 9, em contraposição aos temas “globalizantes” explorados pelas grandes editoras), a América Latina, o universo contracultural (muito em voga na época), o universo universitário, ou ainda os conflitos familiares e a luta de classes. Sua maior fraqueza, a pequena tiragem, era também seu maior trunfo, pois dava-lhe a liberdade de prescindir de uma rígida linha editorial centrada apenas nas vendas.
Pode-se dizer que, a partir daquele momento, os quadrinhos brasileiros começaram a perder a sua inocência.
Antecedentes: O Pasquim havia estabelecido, já a partir do final da década anterior, os novos parâmetros do cartum e do desenho de humor em nossa cultura, renovando o jornalismo brasileiro e posicionando-se visivelmente em oposição à ditadura militar. A revista Grilo, exclusivamente de histórias em quadrinhos, iniciou como jornal, publicando as tiras dos “sindycates” e passou, em uma segunda fase, a publicar o “underground” norte- americano (Crumb, etc.), Guido Crepax, Wolinsky e a turma de humoristas franceses da revista “Hara Kiri”. Um novo público de histórias em quadrinhos estava se formando. Faltava a fagulha de ignição d’O Balão, que viria a precipitar, num impressionante efeito cascata, o lançamento de uma infinidade de revistas “udigrúdi” durante a década de setenta.
As edições: Inspirando-se vagamente no modelo “underground” norte-americano e na experiência inovadora de Robert Crumb, saiu em novembro de 1972 o primeiro número da revista Balão, com capa de Luiz Gê.
Um mês depois, saía o número dois, com capa de Laerte (onde se lia, jocosamente: “ainda é ele. Pra quem não creu”).
Já no terceiro número ,com capa de Flávio Del Carlo(importante autor no cinema de animação nacional), a publicação engrossou a quantidade de colaboradores: além do próprio Flávio, Inácio Zatz (Ignatz) e Gus (autor dos personagens “Os Huffes” – habitantes de um exótico universo que satirizava Disney, utopias fáceis e a própria ditadura militar), entre outros artistas. Tendência esta que prosseguiu com o número quatro, embalado por excelente capa de Paulo Caruso, que apresentou histórias dos próprios irmãos Caruso, do ilustrador Rogério Borges, além do novo núcleo de desenhistas da Universidade Mackenzie: Sian, Dirceu Amadio, Magnani, Miadaira e Maurício Moura.
O número 5 viu surgirem os “Contos de Nenhum Lugar” de Xalberto – único autor não universitário da revista até então, com suas histórias delirantes, surrealistas e oníricas.
Também de Xalberto foi a capa do número seis, que canalizou a criatividade dos desenhistas para o tema: América Latina. Pretexto para Luiz Gê exercer sua genialidade com a história “Nuestras Raices”, que abordava o golpe militar no Chile e o assassinato de Salvador Allende. Uma simpática “jam session” de duas páginas (experiência que iria se repetir no nº 8) reuniu todos os autores, como num improviso de jazz.
O número sete apresentou bela capa de Maurício Moura – que evoluíra rapidamente para uma arte requintada, contrastando com seus trabalhos iniciais, mais rústicos. Maurício parou também de assinar “Kou-Rah”, para assinar “MAM”. Alcy, o grande cartunista, ilustrou o editorial desta edição.
Vimos renascer os temas no número oito. Naquela edição, o mote foi: “Uma revista contra os bandidões do HQ”. Numa impactante capa de Chico Caruso, um desenho invertido para negativo mostrava um cowboy cavalgando uma mão de desenhista. Esta edição começou a dar sinais da crise que acabaria com a publicação. Uma parte dos desenhistas era favorável que a revista fosse para as bancas e outra facção discordava, com o entendimento de que a função do Balão era de um órgão mais ligado à universidade e comprometido com a divulgação de novos autores. Nesta edição, os autores mais ligados à idéia de maior profissionali-
zação da revista criaram histórias sobre o tema, enquanto os do segundo grupo mantiveram o chamado “tema livre”. Deve-se registrar também que nesta edição, Angeli publicou sua primeira HQ (sem título). Apesar de não ser freqüentador das reuniões, Angeli encaminhou sua história através dos irmãos Caruso. Assim como Alcy, Angeli explorava mais a fundo a linguagem de charge e cartum, fazendo dos quadrinhos uma linguagem ocasional. Só na década seguinte, Angeli passaria a fazer quadrinhos com mais regularidade.
O número nove tinha pretensões de se consolidar como o verdadeiro “turning point” do Balão. Pelo menos por parte da ala de autores que visavam a profissionalização. Um possível trampolim para as bancas de jornais. A qualidade especial daquela edição já sugeria isso. Luiz Gê trabalhou em uma impressionante capa aerografada, onde se lia o tema: “Samba, futebol e malandragem”.
Paulo Caruso apresentou, em parceria com Rafik, a primeira história da personagem “Capitão Bandeira” (posteriormente editado em álbum, pela LPM). Dirceu Amadio desenhou “O último guerreiro”, à moda Richard Corben. Magnani abordou o universo de Toulose Lautrec nos cabarés de Paris. Luiz Carneiro mostrou a luta de classes através de inspiradas tiras. Laerte criou uma história em que os personagens são roupas e Xalberto, sempre delirante, mostrou o absurdo da vida de Hedibiombo do Beabá. Paulo Santos faz HQ de raiz, com Capitão Sidurino, um cangaceiro arretado. A edição fechou sua paginação com a estupenda HQ de Luiz Gê “Ano Santo, ano da mulher”, onde vemos se materializar à nossa frente todo um domínio de linguagem visual, através do inesquecível “bailado“ de uma partida de futebol. Esta história, devido à sua excelência, foi depois republicada no Almanaque do Gibi Semanal (RGE).
Aqui, no nº 9, se encerrava esta publicação pioneira, de saudosa memória, por razões que abordaremos logo a seguir. Mas: se o Balão terminou... Então vivam Luiz Ge, Laerte, Xalberto, Paulo e Chico Caruso, Sian, Miadaira, Angeli, Alcy e tantos outros!
O Processo da Revolução: O Balão iniciou sua trajetória como revista da universidade. Seria ingênuo supor, entretanto, que talentos como os irmãos Caruso, Luiz Gê, Xalberto,.entre outros, não ousassem sonhar mais alto com relação às suas emergentes carreiras. De uma forma bem natural, estes excelentes artistas, ainda pouco conhecidos, desejavam ampliar seu público. O Balão surge, então, como uma possível plataforma de lançamento.
Por outro lado, Laerte, também fundador da revista e na época bastante engajado em ações políticas e culturais, tinha uma visão completamente diferente. Esta oposição de concepções torna-se clara, à medida que a revista evolui, se analisarmos as abordagens dos autores. Como a de Chico Caruso, num quadrinho da “jam session”, em que desenha um Mickey Mouse meio capenga perguntando: “Esses caras vão fazer Balão até morrer? Será? Será”? Ou a de Laerte, numa história meio institucional do número sete, em que a mensagem era “Dê carona no campus”.
Na verdade, esta posição já estava presente no editorial do número dois, onde se lê: “Queremos gente ... que não esteja interessada apenas em auto promoção, mas também em realizar um trabalho sério de movimentação cultural”.
Tal divergência eclodiu realmente no número nove, que antecedia um futuro lançamento em banca. A situação da revista já havia mudado muito desde os tempos iniciais. Os autores tornavam-se mais conhecidos, ganhavam prêmios, pipocavam dicas sobre a publicação pela grande imprensa, o Balão começou a ser procurado mais e mais nas livrarias e as tiragens aumentavam.
O “overground”: Após o lançamento do nº 9 do Balão, o grupo de autores passou a se reunir em um atelier na Vila Madalena, com o objetivo de criarem coletivamente uma nova revista. Não haviam lido seus horóscopos, entretanto. Este projeto, que aparentemente tudo tinha para dar certo, não decolou!
Para começar, Laerte não estava neste grupo. A idéia inicial de todos participarem desde a formação de um roteiro de uma história única, longa, não fluiu a contento. Muitos se intimidavam com a criatividade dos mais atuantes e não conseguiram produzir idéias à altura. Outros começaram a faltar nas reuniões. Paulo Santos, na época muito ligado à Conceição Cahú, voltou para Recife. Chico Caruso já estava com um pé em São Paulo e outro no Rio de Janeiro- mais especificamente, na redação do jornal Opinião. Inexplicavelmente, toda a energia se desfez e cada um voltou-se para seus projetos individuais. O contrato de locação do atelier expirou e o imóvel foi entregue à imobiliária. O Balão terminou e não deixou sucessores.
O sonho de Luiz Gê de uma revista de banca, só foi retomado muitos anos mais tarde, com a experiência bem sucedida da revista Circo. Laerte, já tendo deixado o Partidão, lançou pela mesma editora, seus Piratas do Tietê.
Conta a lenda que, na época em que o cartunista Fortuna estava para lançar sua revista “O Bicho”, Luiz Gê foi conversar com ele e ficou muito satisfeito em saber que o veterano cartunista estava se baseando na experiência do Balão como orientação do seu projeto.
Gê teria dito: “Gostei de ouvir isto! Assegura-me de que entramos para a história”!