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Aquilo não era terrorismo – não como os indianos conheciam. Era guerra.
Os assassinos atacaram as ruas de Mumbai , capital financeira da Índia, com metralhadoras e granadas. Eles não agiram com o efêmero anonimato dos terroristas. O trabalho deles foi meticulosamente calculado. Entrou pelo segundo dia, depois pelo terceiro. Eles paravam para perguntar nossa nacionalidade e profissão. Depois nos poupavam, ou nos conduziam a outro local – ou atiravam na nossa cabeça.
Quando o ataque surpresa se transformou em um sofrimento que durou 48 horas, o peso da retaliação foi transferido da polícia para os soldados. A linguagem era de guerra: âncoras de televisão falavam de edifícios sendo "saneados" ou "vistoriados", de "ataques finais" e "estragos paralelos". Helicópteros sobrevoavam Mumbai, e militares saltavam sobre telhados. As imagens borradas da televisão sugeriam não só um ataque terrorista, mas também o caos onipresente do Iraque.
Apesar de a situação com os reféns perdurar, muitos fatos ainda eram desconhecidos. Rumores corriam, sem confirmação. Você ouviu? Eles atiraram em todas as telefonistas do hotel. Você soube? Executaram uma jovem mãe e seus filhos. Você ouviu? Mandaram um refém sair do prédio para buscar comida para os terroristas. A verdade era complicada; tudo era vago.
Entretanto, lentamente ficou claro que esse foi um ataque de uma barbárie especial, muito pessoal. Não foi como os vários ataques dos últimos meses , bombas deixadas em mercados lotados, trens ou carros: atos de pura covardia. Os novos homens não eram covardes. Pareciam prolongar o combate o máximo que podiam. Eles matavam face a face; queriam ver e falar com suas vítimas; podiam saborear a violência produzida por eles mesmos.
Uma boa história tem personagens; um atentado terrorista sem personagens convida a sociedade a esquecê-lo. Uma onda de ataques recentes na Índia, mais anônima e menos dramática, teve pouco foco para atrair a opinião pública.
Para o bem ou para o mal, o público agora tem seus personagens. Mesmo sem saber o nome deles, era muito fácil imaginá-los naquela hora, percorrendo corredores, fazendo perguntas de vida ou morte, tirando mulheres e crianças de seus quartos à meia-noite.
Para um país cujo passado presenciou vários atos de terrorismo, talvez seja o forte imediatismo desses homens e suas façanhas que façam desse um ataque marcante – separando todos os ataques do passado daqueles que ainda virão. Em estúdios de televisão, nas ruas, nos telefonemas angustiados de amigo para amigo, os indianos disseram essa frase várias vezes: "Este é o nosso 11 de setembro".
"Essa é uma variação indiana do 11 de sStembro e hoje a Índia precisa responder da mesma forma que os Estados Unidos", afirmou na televisão Ravi Shankar Prasad, membro do parlamento e do partido de direita Bharatiya Janata.
Mas, se esse é o 11 de Setembro da Índia, foi somente para alguns cidadãos, não para o governo, pelo menos aparentemente.
Passaram-se 18 horas até que o primeiro-ministro Manmohan Singh fosse à televisão. Ele é um homem pensativo e respeitável. Ele afirmou que os ataques "provavelmente" tinham uma mão estrangeira. A idéia mais específica dele era uma "reforma na polícia" e o "endurecimento" de leis para tapar "aberturas". Ele pediu por "paz e harmonia".
A serenidade dele ajudou a manter sob controle a eterna ameaça de revoltas religiosas, mas também, interpretou incorretamente o estado de espírito de um país que desejava que aquilo fosse um 11 de Setembro – não no sentido de guerra e conquista, mas no sentido de claridade instantânea, do simples sentimento de que uma era terminou e aquela era a gota d'água.
Quando o vídeo da resposta de Singh foi divulgado no YouTube, muitos disseram na internet o que outros diziam no mundo real. Ele estava "sem expressão", um "professor brilhante, mas longe de ser um líder", uma "marionete ineficiente". Um internauta escreveu: "Ele deveria ter avisado e ameaçado os terroristas e todos aqueles que os apóiam. Infelizmente, ele é mole demais".
A retaliação do governo também não foi inspiradora. Os soldados que finalmente chegaram para salvar o dia foram heróicos, trabalhando de quarto em quarto para retomar os dois hotéis sitiados. Mas então a Índia aprendeu que Mumbai, com seus 19 milhões de pessoas, não tem soldados próprios o suficiente. Eles foram trazidos de avião da capital, Nova Déli.
Enquanto isso, "fontes das forças armadas" disseram para a imprensa que eles haviam alertado o governo sobre um ataque iminente dias antes – que, como sempre, foi ignorado.
"A magnitude, a intensidade e o nível de orquestração dos ataques terroristas em Mumbai não deixa dúvidas: a Índia está realmente em guerra e tem inimigos mortais dentro dela", escreveu, em um editorial, o "The Times of India", jornal em língua inglesa líder no país. "A questão agora", continuou o texto, "é se a nação consegue demonstrar um nível razoável de coordenação e determinação no confronto contra o terrorismo".
O governo, em sua defesa, está na corda bamba. Se demonstra pouca determinação, ataques acontecem. Se mostra determinação demais, você incita o ódio internamente e exacerba tensões no exterior, especialmente com o Paquistão .
"É extremamente importante entender que as atividades criminosas de um grupo minúsculo, mesmo se acabar tendo elementos desenvolvidos internamente, não diz nada sobre os indianos muçulmanos em geral, que são uma parte integrante da sociedade do país", escreveu por e-mail Amartya Sem, economista de Harvard e ganhadora do Nobel, nascida na Índia. "Mesmo se descobrirmos que os terroristas de Mumbai tinham uma base em território paquistanês, a Índia tem de saber que grande parte da sociedade civil paquistanesa é feita de aliados, não de inimigos, na batalha conta o terrorismo islâmico, pois eles também sofrem profundamente com a violência de determinada minoria baseada no país deles."
Militantes islâmicos na Índia têm vivido nos últimos anos um pouco alheios à luta islâmica global. Eles bombardearam e mataram, mas seus inimigos eram hindus indianos, não "judeus e expedicionários", logo seus alvos eram mercados e cinemas que atraíam indianos, não estrangeiros.
Este ataque, em contraste, buscava atingir hotéis cinco estrelas, um restaurante popular e um centro comunitário judaico. Relata-se que os terroristas mostravam ter preferência por britânicos e americanos como reféns.
Os ataques, com sua brutalidade, sofisticação e suas ligações com a ideologia do terrorismo, pareciam então, inaugurar um novo dia.
Uma mensagem de texto passada adiante entre cidadãos de Mumbai expressava a particularidade do momento: "Irmãos e irmãs, é hora de acordar e fazer algo pelo país – por menor que seja, relacionado ou não a essa situação. Comece hoje e continue com o passar dos anos – não esqueça esse momento tão facilmente como costumamos esquecer outras coisas".
Muitos disseram a si próprios e a outras pessoas que esse momento mudaria as coisas, assim como os americanos após o 11 de setembro. Porém, os indianos conhecem sua própria história, a dos americanos, e, mesmo assim, pareciam, no momento em que diziam isso, já não acr em suas próprias palavras.
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