Tyler estava no 9º andar,aproximando-se do 10º.Quando sentiu o cinto de segurança romper,gelou.
Agora estava seguro a uma corda muito fraca,a qual segurava com todas as forças,quanto tempo
ainda iria aguentar?
Tentou fingir que nada acontecia,os moradores do prédio estavam olhando,pedia socorro?E se a corda
conseguisse segurar o tempo suficiente para ligar para alguém?Não queria causar estardalhaço algum.
Parecia ouvir os fios arrebentando,pessoas passavam lá embaixo,mal conseguia vê-las.
A tensão ia crescendo,ia ligar pra alguém vir socorrê-lo,não era nada demais.Respirou fundo,estava ali
à quase uma hora,se tivesse pedido ajuda alguém ja teria vindo,começou a ver as janelas dos
apartamentos se fechando,era por volta de meio-dia.As pessoas entravam e saíam rápido,era horário
de almoço,ninguém sequer notara sua presença ali.Começou a pensar que mesmo se pedisse ajuda não
viria ninguém.
Uma janela acima de sua cabeça abriu,uma mulher apareceu.Ela o cumprimentou parecia meio triste,
acendeu um cigarro e perguntou se ele tinha medo de altura.
Ele pensou em falar sobre sua situação,mas disse que estava acostumado.Sabia que estava mentindo,
era a primeira vez que tinha ido tão alto.Ela disse que gostava de olhar pela janela,às vezes
debruçava-se para sentir o vento.Não tinha medo de altura também,começou a dizer-lhe se não
queria trocar de emprego com ela um dia,trabalhava em um jornal da cidade no 1º andar,existia uma
janela,o único vento que sentia era do ar-condicionado.Ele pensou por alguns instantes que seria bom
mesmo,se conseguisse sair dali,ia trabalhar em algum lugar subterrâneo,só ia tirar os pés do chão para
andar.
Ela começou a falar sobre a família,tinha dois irmãos.Um estava em um centro de tratamento para
câncer,o outro era um famoso deputado que ela via de vez em quando,quando iam visitar o irmão
na clínica em época de eleições por exemplo.Ou quando algum escândalo surgia envolvendo seu nome,
ela tinha 28 anos,se chamava Rebecca.
Olhou para baixo,e disse a última coisa que ele poderia imaginar naquele momento:Troque de lugar
comigo.
Tyler olhou para cima assustado,e disse que não, que era muito perigoso.
Rebecca acendeu outro cigarro,tragou forte,olhou para Paulo e ofereceu,ele aceitou.
Tinha fumado algumas vezes,lembrava da sensação relaxante, sentindo a fumaça se espalhar,talvez
fosse seu último cigarro,sua última conversa.
Rebecca perguntou sobre a vida do Tyler,olhava-o fixamente.
Tyler tinha 31 anos,nunca fora casado,não tinha filhos,era filho único.Sua mãe morrera quando tinha
14 anos,seu pai trabalhava em uma oficina.Queria ser médico,mas o pai adoecera e teve que cuidar
dele por três anos,venderam a casa para pagar o tratamento,então teve que desistir.Sua vida era
comum,era mais uma camada cinza, sentia um estranho alívio ali pendurado naquela corda que poderia
ceder a qualquer momento.O único momento em que sentia-se
perdido mas ao mesmo tempo tinha achado seu lugar.
Rebecca estava longe,olhava para frente,Tyler tentou virar o pescoço para descobrir o centro da
atenção dela,mas não havia nada.Ficaram calados por alguns minutos,estava se conformando com a
idéia de cair,pensou em dizer à Rebecca de novo,ela poderia ajudar.
Ia dizer,quando ela sugeriu que ele trouxesse um cinto de segurança extra no dia seguinte.Ninguém
nunca havia dito algo assim,não sabia o que dizer.Mas ela parecia decidida,olhou firmemente para baixo
era como se olhasse para alguma coisa de 30 cm de altura e não 9º andares.
Não gostava de sua indiferença,não naquela hora.Ela disse que dali uns 10 minutos teria que ir
embora.Era tempo suficiente para juntar toda sua coragem e pedir ajuda,pensou.O telefone lá dentro
tocou,ela pediu licença para ir atender.Ficou por lá uns 5 minutos,estava achando que ela não voltaria
mais,quando Rebecca apareceu na janela se despedindo rápido,estava de partida.Agradeceu a conversa
disse a ele que não se esquecesse do cinto extra,fechou a janela e foi embora.
Estava sozinho,sua chance,sua última chance se fora.
A corda não aguentou por muito mais tempo,estava caindo,lembrou do cigarro,lembrou de
Rebecca,pensou em um grande colchão que podia amortecer a queda salvando-o do pior.Mas lembrou
que não tinha pedido ajuda a ninguém,Rebecca tinha pedido,gritara diversas vezes que queria sentir o
vento,totalmente o contrário dele,ele se agarrou a corda,ela apresentava sinais que era
insuficientemente forte.Se rompia aos poucos,quando ouviu o estalo final.Estava em queda livre,nove
andares,agradeceu não ter chegado ao 10º,queria não ter começado
a subir,pelo menos sentiria seus pés no chão.Imaginou Rebecca como seu cabo principal,por um
momento ele o tinha de volta,mas disse não.
Agora entendia o que Rebecca dizia,queria sentir o vento,ser levada por ele,o cabo principal não dava
essa liberdade.
Sentiu o corpo bater em alguma coisa macia,talvez fosse o vento o abraçando,ou o colchão.
A primeira opção pareceu melhor.