O primeiro editorial do periódico científico Nature, que circula amanhã, trata de dois emblemas da luta contra a destruição do ambiente: o urso polar (Ursus maritimus) e Marina Silva. Título do editorial: "Dois símbolos, uma solução".

O urso, ícone do aquecimento global, teve sua situação de espécie ameaçada reconhecida por ninguém menos que o governo dos Estados Unidos. Até há pouco tempo, a moçada de Bush era capaz de mover mundos e fundos para negar que exista uma mudança climática causada pela espécie humana ou impedir que uma espécie de coruja ameaçada atrapalhasse a economia.

Marina Silva serve de pretexto, no editorial, para atacar as idéias arrogantes e imperialistas de outro órgão de imprensa britânico, o diário The Independent. Diz a Nature:


Embora a renúncia de Silva decerto suscite questionamentos sobre a viabilidade do Plano Amazônia Sustentável, PAS do governo, os líderes do Brasil estão corretos em dizer que a Amazônia precisa de um plano abrangente. É condescendente e contraproducente dizer, como o jornal The Independent do Reino Unido fez recentemente, que a Amazônia é importante demais para ser deixada nas mãos dos brasileiros. Afinal, essa região é o lar de cerca de 25 milhões de brasileiros que precisam ganhar a vida, e ela provê a hidreletricidade que impulsiona boa parte da crescente economia brasileira. O Brasil não tem escolha, a não ser administrá-la.


Há muitos sinais no ar de que essa gestão vai se complicar, no curto e médio prazo, ainda mais do que já se complicou no último ano, culminando na saída de Marina Silva. Duas décadas atrás, a intervenção de índios e movimentos sociais foi capaz de impedir o prosseguimento do plano de construir um colar de usinas no rio Xingu, quando o Banco Mundial brecou seu financiamento depois que a índia Tuíra encostou seu terçado (facão) várias vezes no rosto de um diretor da Eletronorte. Imagine agora que um engenheiro da Eletrobrás teve o braço ferido por facão - de novo, de caiapós - logo na primeira reunião para discutir a usina de Belo Monte. E isso num momento em que o planejamento energético do país precisa desses 11.100 MW para não ficar às escuras...

Uma das razões menos faladas da saída de Marina Silva foi o veto de Lula e Dilma Rousseff à criação de uma nova unidade de conservação justamente na região do Xingu. Fora do governo, o veto foi tomado como uma indicação de que não está descartada a construção de mais usinas no rio, como constava do plano antigo e hoje a Eletrobrás diz que não está mais no planejamento. Em seguida, a Justiça levantou as liminares que impediam o prosseguimento dos estudos para Belo Monte. Dá para entender por que os índios andam bravos, embora isso obviamente não justifique a agressão.

Além disso, se a relação de governadores como Blairo Maggi (MT), Ivo Cassol (RO) e José de Anchieta Jr. (RR) com Marina Silva já era ruim, com Carlos Minc ela começou pior. Minc disse que Maggi plantaria soja nos Andes, se deixasse; Maggi reagiu dizendo que negará PMs para a Guarda Florestal Nacional do "Minc-leão-dourado", como já está sendo apelidado o novo ministro; este, na tréplica, antecipou-se ao Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e anunciou que na segunda-feira saem novos dados de desmatamento na Amazônia, comparando os cinco primeiros meses de 2008 com o mesmo período de 2007 (o que é um pouco estranho, pois maio ainda está em curso), e que Mato Grosso mais uma vez aparece à frente, com aumento de 60%.

De quebra, Minc disse que não adianta Maggi ficar brigando com ele, ministro, pois a política de contenção do desmatamento é de governo. Ou seja, se Maggi quiser briga, tem de brigar com Lula. Mas Lula, todos sabemos, não quer brigar com ninguém, muito menos em ano eleitoral.

O resumo da ópera é que o nó da Amazônia continuará atado. E os tratores e moto-serras, desatados.