A classificação taxonómica dos albatrozes

 


 


Aspectos biológicos



Taxonomia e evolução



Crânio de albatroz.

Crânio de albatroz.

O número de albatrozes varia, consoante o autor, entre 13 e 24 espécies (incluindo os do género Phoebetria, ou piaus, que, para efeitos deste artigo, e de acordo com a nomenclatura internacional, serão considerados como “albatrozes”). Este é um assunto ainda em debate, ainda que o número mais aceite seja o de 21 espécies em 4 géneros: Diomedea (grandes albatrozes), Thalassarche (designados em inglês como mollymawks), Phoebastria (albatrozes do Pacífico Norte), e Phoebetria (os piaus). Os albatrozes do Pacífico Norte são considerados como um táxon-irmão dos grandes albatrozes, enquanto que os piaus se consideram como sendo mais próximos dos albatrozes do género Thalassarche.


 

A classificação taxonómica dos albatrozes também tem sido objecto de grande debate. A taxonomia de Sibley-Ahlquist junta as aves marinhas, aves de rapina e outras na alargada ordem das Ciconiiformes, enquanto que muitas organizações ornitológicas da América do Norte, Europa, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia mantêm a tradicional ordem dos Procellariiformes. Os albatrozes distinguem-se dos outros Procellariiformes tanto em termos genéticos como pelas características morfológicas, nomeadamente no seu tamanho, forma das patas e arranjo das narinas tubulosas.


Mesmo dentro da família taxonómica, a vinculação das espécies aos géneros tem-se prolongado há mais de um século. Colocados originalmente num só género, Diomedea, foram depois redistribuídos por Reichenbach em quatro géneros diferentes em 1852, seguindo-se outras reavaliações taxonómicas, podendo-se, em 1965, indicar 12 géneros diferentes propostos no total (ainda que cada classificação em específico nunca tenha ultrapassado os oito géneros): Diomedea, Phoebastria, Thalassarche, Phoebetria, Thalassageron, Diomedella, Nealbatrus, Rhothonia, Julietata, Galapagornis, Laysanornis, e Penthirenia.


Em 1965, numa tentativa de dar alguma ordem à classificação destas aves, reuniram-se as espécies em dois géneros, Phoebetria (os piaus, que à primeira vista se parecem mais com os procelarídeos, e que eram considerados na altura como “primitivos” ) e Diomedea (os restantes).[2] Ainda que visando a simplificação da família em termos de nomenclatura, a classificação baseava-se na análise morfológica de Elliott Coues, datada de 1866, prestando pouca atenção a estudos mais recentes – além de ter ignorado mesmo algumas das sugestões de Coues.


 

Pesquisas mais recentes, da responsabilidade de Gary Nunn, do American Museum of Natural History (1996), e outros investigadores a nível internacional, estudaram o DNA mitocondrial das 14 espécies mais consensuais na época, parecendo demonstrar que o mais lógico é estabelecer quatro, e não dois, grupos monofiléticos dentro da família dos albatrozes.[3] Estes autores propuseram, então, a reabilitação de dois nomes dos antigos géneros: Phoebastria e Thalassarche, mantendo-se os grandes albatrozes no género Diomedea e os piaus no género Phoebetria. A British Ornithologists Union, tal como autoridades ornitológicas da África do Sul dividiram os albatrozes em quatro géneros, de acordo com a sugestão de Nunn, tendo a mudança sido aceite pela maioria dos investigadores da área. Mas, enquanto existe alguma unanimidade quanto ao número de géneros, mantém-se a discussão no que diz respeito ao número de espécies. Em termos históricos, já foram descritas mais de 80 por diferentes pesquisadores; muitas das quais resultavam da identificação equivocada de aves no seu estádio juvenil.[4] Baseando-se nas conclusões em torno da definição dos géneros de albatrozes, Robertson e Nunn propuseram em 1998 uma classificação taxonómica com 24 espécies diferentes,[5] em contraste com as 14 então aceites. Esta taxonomia interina promoveu muitas subespécies a espécies, mas foi muito criticada por não usar, em cada caso, informação submetida a revisão por pares que justificasse as divisões.



Albatroz-de-sobrancelha, do género Thalassarche.

Albatroz-de-sobrancelha, do género Thalassarche.

Desde então que outros estudos aprovaram ou criticaram esta reavaliação taxonómica; um estudo de 2004, baseando-se na análise de DNA mitocondrial e microsatélites confirmou a hipótese de que o albatroz-das-antípodas e o albatroz-de-tristão eram espécies distintas do albatroz-errante, de acordo com Robertson e Nunn, mas que o sugerido albatroz-de-gibson, Diomedea gibsoni, não se distinguia do albatroz-das-antípodas.[6] Muitos organismos, incluindo a IUCN e diversos investigadores aceitam a classificação taxonómica interina de 21 espécies, ainda que não exista unanimidade científica quanto a esta; em 2004, Penhallurick e Wink sugeriram que o número de espécies fosse reduzido para 13 (incluindo a fusão do albatroz-de-amsterdam com o albatroz-errante,[7] mas o estudo foi particularmente controverso.[4][8] Todas as partes concordam, contudo, que é necessário um acordo geral que esclareça definitivamente o assunto. O estudo molecular da evolução das famílias de aves, de acordo com a taxonomia de Sibley e Ahlquist, situa a radiação adaptativa dos Procellariiformes no Oligoceno (há 35–30 milhões de anos atrás), ainda que este grupo se tenha originado antes, como se depreende de um fóssil que é atribuído por alguns autores a esta ordem: uma ave marinha a que foi atribuído o género Tytthostonyx, encontrada em rochas do Cretáceo (há 70 milhões de anos atrás). Os estudos moleculares sugerem que os painhos foram os primeiros a divergir do ramo ancestral, seguindo-se os albatrozes, com os procelarídeos e os painhos-mergulhadores a autonomizarem-se mais tarde. Os fósseis mais antigos de albatroz foram encontrados em rochas que datam do Eoceno ao Oligoceno, ainda que alguns sejam vinculados a esta família apenas de forma provisória, além de que nenhum tem grandes semelhanças com as espécies actuais. São os géneros Murunkus (Eoceno Médio do Uzbequistão), Manu (Oligoceno inferior da Nova Zelândia), e uma forma não descrita do Oligoceno superior da Carolina do Sul.


 

Similar a esta forma seriam os Plotornis, antes considerados como petréis mas que hoje são aceites como pertencendo à família dos albatrozes, do Mioceno médio francês – época em que a separação dos quatro géneros actuais já estaria em decurso, como é evidenciado pelos fósseis de Phoebastria californica e Diomedea milleri, ambos do Mioceno médio de Sharktooth Hill, na Califórnia. Isto demonstra que a separação dos grandes albatrozes dos albatrozes do Pacífico Norte terá ocorrido há 15 milhões de anos atrás. Fósseis semelhantes, encontrados no hemisfério sul levam a datar a separação entre o género Thalassarche e os piaus há 10 milhões de anos atrás[9].


O registo fóssil de albatrozes no hemisfério norte é mais completo que no hemisfério sul, sendo muitas das formas fósseis originárias do Atlântico norte, onde estas aves não existem actualmente. Vestígios de uma colónia de albatrozes-de-cauda-curta foram descobertos numa ilha das Bermudas,[10]. A maioria dos fósseis de albatroz do Atlântico Norte teriam, de facto, pertencido ao género Phoebastria (ou albatrozes do Pacífico Norte). Um deles, Phoebastria anglica, foi encontrado em depósitos na Carolina do Norte e na Inglaterra.

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