A história do papel


















































Conhece a história do aparecimento do papel, a forma como ele actualmente é fabricado e, ainda, a importância da sua reciclagem.


Coordenação de Maria Carlos Reis


“A história do papel”


Desde os primórdios da humanidade que o homem desenha as suas memórias visuais. São estas memórias que são encontradas nas paredes das cavernas, onde o homem primitivo se abrigava, de que são exemplo as cenas de caça.

Antes da criação do papel, muitos povos utilizaram formas curiosas de se expressarem através da escrita. Na Índia, usavam-se as folhas de palmeiras, os esquimós utilizavam ossos de baleia e dentes de foca, na China os livros eram feitos com conchas e carapaças de tartaruga e posteriormente em bambu e seda. Estes dois últimos materiais antecederam a descoberta do papel. Entre outros povos era comum o uso da pedra, do barro e até mesmo da casca das árvores. Por exemplo, os Maias guardavam os seus conhecimentos em matemática, astronomia e medicina em cascas de árvores, chamadas de “tonalamatl”.


As matérias primas mais famosas e próximas do papel foram o papiro e o pergaminho. O papiro foi inventado pelos egípcios e os exemplares mais antigos datam de 3.500 a.C. Até hoje, as técnicas de preparação do papiro permanecem pouco claras, sabendo-se, apenas, que era preparado à base de tiras extraídas de uma planta abundante no Rio Nilo. Essas tiras eram colocadas em ângulos rectos, molhadas, marteladas e coladas. Apesar da sua fragilidade, milhares de documentos em papiro chegaram até nós. Embora a palavra papel seja derivada do latim “papyrus”, o papiro e o papel são produtos completamente diferentes. O pergaminho era muito mais resistente que o papiro, pois era produzido a partir de peles tratadas de animais, geralmente de ovelha, cabra ou vaca.

Entretanto, foram os chineses os primeiros a fabricar papel com as características que o actual possui. Descobertas recentes de papéis em túmulos chineses muito antigos, mostraram que na China ele foi fabricado desde os últimos séculos antes de Cristo. Por volta do século VI a.C. sabe-se que os chineses começaram a produzir um papel de seda branco, próprio para a pintura e para a escrita.


Em 105 d.C., o imperador chinês Chien-ch´u, irritado em escrever sobre seda e bambu, ordena ao seu oficial da Corte T´sai Lun que inventasse um novo material para a escrita. T´sai Lun produziu uma substância feita de fibras da casca da amoreira, restos de roupas e cânhamo, humedecendo e batendo a mistura até formar uma pasta. Usando uma peneira e secando esta pasta ao sol, a fina camada depositada transformava-se numa folha de papel. O princípio básico deste processo é o mesmo usado até hoje na produção de papel. Esta técnica foi mantida em segredo pelos chineses durante quase 600 anos.


O uso do papel estendeu-se até aos confins do Império Chinês, acompanhando as rotas comerciais das grandes caravanas. Tudo parece indicar que a partir do ano 751, os árabes, ao expandirem a sua ocupação para o Oriente, tomaram contacto com a produção deste novo material e começaram a instalar diversas fábricas de produção de papel. No entanto, utilizavam quase exclusivamente, trapos, pois era-lhes difícil obter outros materiais fibrosos. A partir daquele momento a difusão do conhecimento sobre a produção do papel acompanhou a expansão muçulmana ao longo da costa norte da África até a Península Ibérica.

Data de 1094 a primeira fábrica de papel em Xativa, Espanha, e por volta de 1150 a fábrica de Fabriano, em Itália. A partir daí, na Europa, começa-se a disseminar a arte de produzir papel: França em 1189, Alemanha em 1291 e Inglaterra em 1330. Curiosamente, a ideia de fazer papel a partir de fibras de madeira foi perdida algures neste percurso, pois o algodão e os trapos de linho foram transformados na principal matéria prima utilizada.


No fim do século XVI, os holandeses inventaram uma máquina que permitia desfazer trapos, desintegrando-os até ao estado de fibra.


Apenas em 1719, o francês Reamur sugeriu o uso da madeira, em vez dos trapos, pois existia uma forte concorrência entre as fábricas de papel e a indústria têxtil, o que dificultava a obtenção e encarecia a principal matéria prima usada na época: o algodão e o linho. Ao observar que as vespas mastigavam madeira podre e empregavam a pasta resultante para produzir uma substância semelhante ao papel na contrução dos seus ninhos, Reamur percebeu que a madeira seria uma matéria prima alternativa. Mas apenas em 1850 foi desenvolvida uma máquina para moer madeira e transformá-la em fibras. As fibras eram separadas e transformadas no que passou a ser conhecido como “pasta mecânica” de celulose. Em 1854 é descoberto na Inglaterra um processo de produção de pasta celulósica através de tratamento com produtos químicos, surgindo a primeira “pasta química”.


A partir daqui a indústria do papel ganhou um grande impulso com a invenção das máquinas de produção contínua e do uso de pastas de madeira.


As primeiras espécies de árvores usadas na fabricação de papel em escala industrial foram o pinheiro e o abeto das florestas das zonas frias do norte da Europa e América do Norte. Outras espécies – o vidoeiro, a faia e o choupo preto nos Estados Unidos e Europa central e ocidental, o pinheiro do Chile e Nova Zelândia, o eucalipto no Brasil, Espanha, Portugal, Chile e África do Sul – são hoje utilizadas na indústria de papel e celulose.

A pasta de celulose derivada do eucalipto surgiu pela primeira vez, em escala industrial, no início dos anos 60, e ainda era considerada uma “novidade” até a década de 70. Entretanto, de entre todas as espécies de árvores utilizadas no mundo para a produção de celulose, o eucalipto é a que tem o menor ciclo de crescimento e por isso tornou-se a principal fonte de fibras para a produção do papel.


Graças à madeira, o papel foi convertido de um artigo de luxo, de alta qualidade e baixa produção, num bem produzido em grande escala, a preços acessíveis, mantendo uma elevada qualidade.

A produção do papel a partir da madeira


Uma folha de papel não é mais do que um grande número de fibras de celulose entrelaçadas e comprimidas, de modo a ficarem muito juntas e rígidas. A celulose é um hidrato de carbono que forma a parede de todas as células das plantas, existindo portanto em todos os géneros e espécies florestais. Praticamente qualquer árvore pode ser utilizada para produzir celulose. Cada espécie produz fibras de celulose com características específicas, o que confere ao papel propriedades especiais. Contudo, muitas transformações têm de ocorrer, desde o derrube da árvore até à obtenção de uma simples folha de papel.


Podemos sintetizar o processo de produção de papel produzido a partir da madeira de eucalipto, do seguinte modo:

1. O primeiro passo refere-se ao derrube das árvores e ao transporte desta matéria prima para as unidades de produção, onde a madeira é cortada em pequenos troncos e empilhada;


2. Os troncos são depois descascados e conduzidos aos picadores, onde são transformados em lascas;


3. A madeira é, então, transportada por correias até os silos dos digestores, onde se inicia o processo de cozimento. O cozimento consiste em submeter a madeira a altas temperaturas e à acção química de vários produtos (tal como na digestão), a fim de dissociar as fibras, formando-se, assim, a pasta de papel;


4. O passo seguinte consiste em lavar e peneirar esta pasta, de modo a depurá-la. Durante a lavagem, as impurezas solúveis são removidas, e o peneiramento remove as impurezas sólidas, obtendo-se uma celulose de alta qualidade;


5. Após esta operação, a celulose, agora livre de impurezas, é submetida a um processo de branqueamento, que visa melhorar as propriedades da celulose industrial;


6. A celulose é, então, enviada para a secagem. Nesta operação a água é-lhe retirada, até ficar com 90% de fibras e 10% de água e é depois prensada;


7. Depois de prensada já podemos falar em papel e todos os procedimentos a que é sujeito posteriormente vão depender do fim a que se destina. Por exemplo, o papel pode ser tratado para ser mais ou menos absorvente, pode ser tingido, pode ser enrolado em grandes rolos ou ser cortado em folhas.

A reciclagem do papel


Crescer sem destruir tem sido o grande desafio mundial deste século. Reciclar é uma palavra cada vez mais ouvida. A reciclagem do papel está obviamente ligada à preservação da natureza e à tentativa de evitar o derrube de árvores.


Reciclar e reutilizar material não são conceitos novos. O fabrico de papel com utilização de fibras recuperadas em maior ou menor percentagem – reciclagem de fibras usadas – tem sido praticado pela Indústria Papeleira Europeia há mais de 600 anos. Em comparação com outros materiais, o papel usado é fácil de reciclar.


No caso do papel e do cartão a reciclagem não só é justificável em termos produtivos, porque se evita comprar mais matéria prima, mas também pela necessidade de reduzir a quantidade de resíduos sólidos urbanos depositados nas lixeiras e aterros sanitários.

Um dos maiores problemas do mundo moderno é o lixo. Diariamente milhares de toneladas de lixo são recolhidos e cerca de 40 a 50% de tudo isso é papel, uma montanha de 80 milhões de toneladas por ano. Só esse facto já seria suficiente para justificar a reciclagem, mas os benefícios para o meio ambiente não param por aí.


Ao usarmos papel reciclado estamos a aproveitar ao máximo os recursos naturais, preservando as florestas. Preservar as florestas é diminuir a poluição, uma vez que as árvores utilizam o dióxido de carbono e produzem o oxigénio de que necessitamos para respirar. Reciclando o papel economiza-se cerca de 40% da energia necessária à produção do papel novo. E um consumo menor pode diminui a necessidade de construção de mais barragens para gerar energia, empreendimentos que provocam sempre a desflorestação.


No entanto, nem todos os tipos de papel podem ser produzidos com recurso a papel usado. Enquanto o papel utilizado no fabrico de embalagens e os de uso doméstico e sanitário admitem o recurso a papéis usados, o mesmo já não acontece com alguns tipos de papéis finos. A utilização de fibras recuperadas tem também limitações técnicas. As fibras desagregam-se com cada utilização e mesmo para as aplicações menos exigentes não podem ser recicladas mais do que 4 a 6 vezes. A sua utilização tem de ser complementada com a introdução de fibras novas obtidas a partir da madeira.

Todos nós desejamos um ambiente saudável e a reciclagem do papel é uma das alternativas mais fáceis e imediatas. A sociedade pode contribuir positivamente de diferentes formas, por exemplo, fazendo uma selecção do lixo em casa, separando o lixo orgânico do lixo inorgânico, ou seja, o lixo resultante de resíduos alimentares e o lixo seco, devendo este último ser colocado nos Ecopontos, que são contentores públicos diferenciados de acordo com o tipo de material a reciclar.
Reciclar é essencial, pois o papel é um material tão integrado no nosso dia-a-dia, que a vida moderna seria impossível sem ele. Reciclar papel é um modo de preservar milhões de árvores. Cada tonelada de papel reciclado significa salvar 20 árvores.


VOCABULÁRIO

. Anteceder – vir antes de qualquer coisa.
. Fibra – elemento longo e fino que entra na composição de substâncias dos seres vivos e dos minerais.
. Cânhamo – planta herbácea cujas fibras são utilizadas para o fabrico de tecidos, cordas, etc. É também utilizado na indústria alimentar, pois das suas sementes extrai-se óleo.
. Disseminar – espalhar por muitas partes.
. Indústria têxtil – indústria de produção de tecidos.
. Celulose – constituinte da parede celular das células das plantas, formada por fibras flexíveis e fortes. É por isso que podem ser utilizadas na fabricação do papel.
. Dissociar – desunir; separar.
. Peneirar – fazer passar por uma peneira (instrumento com uma rede no fundo, por onde se faz passar a farinha ou outra substância da qual se pretenda retirar as impurezas).
. Depurar – tornar puro.
. Branquamento – tornar branco.
. Tingir – dar cor.
. Reciclar – aproveitar materiais usados e convertê-los em novos produtos que possam ser utilizados e por isso é uma forma de preservar o ambiente e or recursos naturais.
. Reutilizar – utilizar de novo em vez de deitar fora.
. Resíduos sólidos urbanos – materiais que restam das actividades urbanas. É o caso de plásticos, roupa, vidro, metais, restos de comida, papel e cartão.
. Aterro sanitário – processo utilizado para eliminar os lixos, que consiste em despejá-los em covas no solo, que são posteriormente cobertas e comprimidas, de forma a que a área apresente um aspecto limpo.
. Recursos naturais – matérias primas que existem na natureza e que são utilizadas pelo homem.
. Desflorestação – corte da floresta de uma determinada área, com o objectivo de aumentar a superfície de terra para a agricultura, de obter madeira ou para fins industriais.
. Desagregar – separar.

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