A odisseia das sementes

No seu processo de dispersão e posterior desenvolvimento, fazem longas viagens, enfrentam grandes riscos e sabem esperar, por vezes séculos, pelo momento adequado de germinação.






























As sementes produzidas por uma planta devem ser encaradas, não só como os seus agentes da reprodução, mas também como os veículos que tem à disposição para a colonização de novos espaços, de modo a alargar o domínio da espécie a que pertence.

Para esta última função, cada semente está equipada com uma reserva nutritiva suficiente para sustentar a nova planta durante os seus primeiros estádios de crescimento, até que atinja autonomia em termos de produção fotossintética. Extraordinário é o facto de todas estas reservas poderem estar contidas num grão, que pode ser mais pequeno do que um simples grão de areia.

As dimensões reduzidas podem constituir uma vantagem em termos de dispersão, mas mesmo assim, diversas plantas desenvolveram mecanismos que a complementam. É o caso do dente-de-leão, cujas sementes possuem um dispositivo de voo constituído por um minúsculo disco de fibras, que actua como um pára-quedas. As sementes encontram-se dispostas no topo de um caule para que qualquer sopro do vento ou de um criança, por mais delicado que seja, possa lançar no ar centenas de sementes, que se elevam bem alto no céu e que podem percorrer grandes distâncias.

Mas os métodos de dispersão que necessitam de uma “ajudinha” do vento não são muito eficazes no interior de estruturas fechadas, como um bosque. No entanto, as árvores podem explorar a sua altura, para garantirem que as sementes não caiam directamente no chão, junto dos progenitores. A Anisoptera, uma das árvores mais altas das florestas tropicais asiáticas, produz sementes com duas asas finas e de comprimentos diferentes. Esta assimetria faz com que a estrutura gire quando libertada, assemelhando-se a um pequeno helicóptero a rodopiar, o que lhe proporciona a possibilidade de viajar centenas de metros.

Apesar do vento ser o agente dispersor mais comum, algumas árvores enviam as suas sementes em verdadeiras cruzadas pelos mares. O exemplo mais famoso é o do coqueiro, que despacha a sua semente dentro de uma casca dura, contendo tudo o que será necessário durante uma longa viagem. É um verdadeiro kit de sobrevivência, incluindo reservas muito nutritivas e cerca de 2 dl de água. Tudo isto está envolvido por uma camada fibrosa que mantém o côco à superfície da água.

Para além do vento e da água, os animais são frequentemente utilizados como agentes dispersores por uma grande diversidade de plantas. Elas utilizam todos os meios ao seu alcance para estabelecerem os contratos de prestação de serviços com os animais: para além do normal pagamento pelos serviços prestados, recorrem a técnicas pouco éticas como a exploração e o suborno. Basta andarmos no meio de vegetação rasteira para descobrirmos que também nós podemos ser explorados. Tal acontece com os mamíferos, que transportam sementes presas por espinhos curvos e minúsculos, que se prendem aos seus pêlos.

A boleia pode parecer uma técnica praticamente inócua, mas existem casos em que pode causar danos graves. É o caso da Harpagophytum procumbens, uma trepadeira rasteira sul-africana, que produz sementes protegidas com cápsulas cobertas de ganchos muito pontiagudos e fortes. Quando pisados por um elefante ou rinoceronte, estes ganchos prendem-se à parte inferior das patas e mantêm-se presos, com todos os incómodos que daí advêm, até que a cápsula se rompa, para que as sementes sejam dispersas.

Se existem casos de exploração, também existem outros em que as plantas gratificam os seus carregadores, ao produzirem sementes revestidas de substâncias oleosas e nutritivas. As formigas são muitas vezes parceiras nas relações de cooperação estabelecidas com as plantas, recolhendo e transportando as sementes para os seus formigueiros. Enquanto conseguem alimento fácil, as sementes conquistam a posição ideal debaixo da terra, onde podem germinar em segurança, longe de potenciais consumidores, que normalmente são responsáveis pelo consumo de 99% das sementes libertadas. (Isto porque as formigas cumprem a sua parte no contrato – não “tocam” nas sementes!)

Mas existe uma forma mais arriscada de atrair um carregador, que consiste na produção de uma semente completamente revestida por uma embalagem nutritiva – o fruto, que estimule os animais a engolir ambas. No entanto, esta estratégia exige que a semente esteja completamente desenvolvida antes da ingestão. Para diminuir riscos de desperdício, durante o desenvolvimento das sementes, a planta produz frutos de polpa extremamente ácida e amarga.
Enquanto este processo está a decorrer, para além do sabor desagradável, a ingestão de frutos pode causar distúrbios no aparelho digestivo, o que é suficiente para desencorajar os animais.

Para completar esta estratégia, a planta desenvolveu sinais, emitidos pelo fruto, que indicam ao carregador o momento em que pode iniciar o “banquete”. Entre os sinais mais comuns contam-se os visuais, pois de forma coincidente com o pleno desenvolvimento da semente ocorre uma alteração da cor do fruto. Contudo, os sinais olfactivos conseguem atingir um maior público, já que o odor de frutos maduros consegue atrair animais a grandes distâncias, como acontece com os morcegos frugívoros.

Das sementes ingeridas, as que são deixadas nos locais onde os frutos foram colhidos, não serão bem sucedidas, pois não cumprem o objectivo da dispersão, para além das novas plantas serem obrigadas a competir com os seus progenirores pelos recursos ambientais. No entanto, existem sempre algumas que são inadvertidamente engolidas pelos animais e transportadas ao longo do tubo digestivo, até serem evacuadas, por um feliz acaso, a uma distância considerável. Estas sementes têm ainda a vantagem de serem acompanhadas por uma quantidade de fertilizante natural, que lhes garante maiores possibilidades de sobrevivência após germinação.

Contudo, nem todas as sementes têm de passar por todo o sistema digestivo para serem transportadas. A regurgitação é um comportamento comum entre as aves, que desta forma expelem as sementes, após terem aproveitado a polpa nutritiva dos frutos. Este comportamento é vantajoso para as aves, que assim não necessitam de carregar no aparelho digestivo um grande peso.

Outro dos riscos envolvidos na estratégia de compensação dos carregadores com a polpa nutritiva dos frutos, prende-se com o facto das sementes serem igualmente muito nutritivas e, por isso, vantajosas para os animais que as ingerem. Por este motivo, algumas plantas desenvolveram mecanismos para impedir que elas sejam destruídas acumulando, por exemplo, veneno no seu interior. É o caso do teixo, cujas sementes estão cobertas por uma camada carnosa, apreciada por muitas aves. Os seus bicos não são suficientemente fortes para lesarem a semente, o que é vantajoso para os dois intervenientes, já que deste modo os animais não são afectados pelo veneno das sementes e a planta garante que estas sejam dispersas.

Assim, de uma ou de outra forma, planando no céu, à deriva nas águas de rios e mares, presas nos pêlos dos animais ou em combustão lenta nos seus estômagos, muitas sementes atingem destinos onde podem começar a sua vida, longe do domínio dos seus progenitores. Todavia, este desenvolvimento não ocorre de imediato, já que elas esperam um sinal do meio ambiente que lhes garanta que é a altura apropriada para o fazerem. Estes estímulos são variados e vão desde o ligeiro aumento da temperatura nas regiões temperadas, quando a um Inverno frio se segue uma Primavera quente; a um chuvisco repentino em regiões desérticas; ou a um fogo em certos tipos de matos.

Esta espera só é possível porque a maior parte das sementes é capaz de esperar um período considerável de tempo antes de germinar, até que as condições sejam favoráveis para o fazer. Nos desertos elas podem esperar décadas por um aguaceiro, assim como nos climas frios das tundras por um aquecimento. Esta impressionante capacidade foi demonstrada pelas descobertas no Japão, em 1982, aquando das escavações de um antigo povoado de idade estimada em 2 000 anos. Num dos poços utilizados para armazenamento das colheitas foram encontrados alguns grãos de arroz, escurecidos e mortos. Contudo, entre eles havia uma semente diferente, que foi semeada e que desabrochou: era uma magnólia!

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