A origem da lingua latina

O latim é uma antiga língua indo-européia do ramo itálico originalmente falada no Lácio, a região do entorno de Roma. Foi amplamente disseminada, especialmente na Europa, como a língua oficial da República Romana, do Império Romano e, após a conversão deste último ao cristianismo, da Igreja Católica. Através da Igreja, tornou-se a língua dos acadêmicos e filósofos europeus medievais. Por ser uma língua altamente flexiva e sintética, a sua sintaxe (ordem das palavras) é, em alguma medida, variável, se comparada com a de idiomas analíticos como o português, embora em prosa os romanos tendessem a preferir a ordem SOV. A sintaxe é indicada por uma estrutura de afixos ligados a temas. O alfabeto latino, derivado dos alfabetos etrusco e grego (por sua vez, derivados do alfabeto fenício), continua a ser o mais amplamente usado no mundo.

Embora o latim seja hoje uma língua morta, com poucos falantes fluentes e sem que ninguém o tenha por língua materna, ainda é empregado pela Igreja Católica. Exerceu enorme influência sobre diversas línguas vivas, ao servir de fonte vocabular para a ciência, o mundo acadêmico e o direito. O latim vulgar, um dialeto do latim, é o ancestral das línguas neolatinas (italiano, francês, espanhol, português, romeno, catalão, romanche e outros idiomas e dialetos regionais da área); muitas palavras adaptadas do latim foram adotadas por outras línguas modernas, como o inglês. O fato de haver sido a lingua franca do mundo ocidental por mais de mil anos é prova de sua influência.

O latim ainda é a língua oficial da Cidade do Vaticano e do Rito Romano da Igreja Católica. Foi a principal língua litúrgica até o Concílio Vaticano Segundo nos anos 1960. O latim clássico, a língua literária do final da República e do início do Império Romano, ainda hoje é ensinado em muitas escolas primárias e secundárias, embora seu papel se tenha reduzido desde o início do século XX.
Índice

* 1 História
o 1.1 Períodos históricos
o 1.2 Ortografia
o 1.3 Legado
o 1.4 Uso moderno
* 2 Características
* 3 Dialetos
* 4 Gramática
o 4.1 Casos no Latim
+ 4.1.1 Nominativo
+ 4.1.2 Acusativo
+ 4.1.3 Genitivo
+ 4.1.4 Dativo
+ 4.1.5 Ablativo
+ 4.1.6 Vocativo
o 4.2 Conjugação
+ 4.2.1 Tempo
+ 4.2.2 Modo
+ 4.2.3 Pessoa
o 4.3 Numerais
* 5 Fontes
* 6 Notas
* 7 Ligações externas

História
A Inscrição Duenos, do século VI a.C., é um dos textos mais remotos em latim antigo, provavelmente da tribo dos latinos.

O latim integra as línguas itálicas e seu alfabeto baseia-se no alfabeto itálico antigo, derivado do alfabeto grego. No século IX a.C. ou VIII a.C., o latim foi trazido para a península Itálica pelos migrantes latinos, que se fixaram numa região que recebeu o nome de Lácio, em torno do rio Tibre, onde a civilização romana viria a desenvolver-se. Naqueles primeiros anos, o latim sofreu a influência da língua etrusca, proveniente do norte da Itália e que não era indo-européia.

Embora a literatura romana sobrevivente seja composta quase inteiramente de obras em latim clássico, a língua falada no Império Romano do Ocidente era o latim vulgar, que diferia do primeiro em sua gramática, vocabulário e pronúncia.

O latim manteve-se por muito tempo como a língua jurídica e governamental do Império Romano, mas com o tempo o grego passou a predominar entre a elite culta, já que grande parte da literatura e da filosofia estudada pela classe alta romana havia sido produzida por autores gregos, em geral atenienses. Na metade oriental do Império, que viria a tornar-se o Império Bizantino, o grego terminou por suplantar o latim como idioma governamental, e era a língua franca da maioria dos cidadãos orientais, de todas as classes.

Períodos históricos

O latim apresenta variações conforme o período histórico que se examina:

* Pré-clássico, do século VII a.C. ao século II a.C.. As inscrições mais antigas procedem do século VII a.C. Nos séculos III e II a.C. a literatura faz sua aparição, sob influência grega (Plauto, Terêncio).
* Clássico, do século II a.C. ao século II d.C. A idade dourada da literatura latina.
* Latim vulgar, incluindo o período patrístico, do século II ao V, inclusive a Vulgata de São Jerônimo e as obras de Santo Agostinho.
* Período medieval, do século VI ao século XIV; surgem as línguas românicas.
* Período renascentista, do século XIV ao XVII.
* Neolatim (ou latim científico), do século XVII ao final do século XIX.

Após a sua transformação nas línguas românicas, o latim continuou a fornecer um repertório de termos para muitos campos semânticos, especialmente culturais e técnicos, para uma ampla variedade de línguas.

Ortografia

Ver artigo principal: Alfabeto latino

Réplica da escrita cursiva romana inspirada pelos tabletes de Vindolana.

A língua dos antigos romanos teve um forte impacto em culturas posteriores, como demonstra esta Bíblia em latim eclesiástico, de 1407.

Os romanos usavam o alfabeto latino, derivado do alfabeto itálico antigo, o qual por sua vez advinha do alfabeto grego. O alfabeto latino sobrevive hoje como sistema de escrita das línguas românicas (como o português), célticas, germânicas (inclusive o inglês) e muitas outras.

Os antigos romanos não usavam pontuação, macros (mas empregavam ápices para distinguir entre vogais longas e breves), as letras j e u, letras minúsculas (embora usassem uma forma de escrita cursiva) ou espaço entre palavras (mas por vezes empregavam-se pontos entre palavras para evitar confusões). Assim, um romano escreveria a frase “Lamentai, ó Vênus[1] e cupidos” da seguinte maneira:

LVGETEOVENERESCVPIDINESQVE

Esta frase seria escrita numa edição moderna como:

Lugete, O Veneres Cupidinesque

Ou, com macros:

Lūgēte, Ō Venerēs Cupīdinēsque

A escrita cursiva romana é encontrada nos diversos tabletes de cera escavados em sítios como fortes, como por exemplo os descobertos em Vindolana, na Muralha de Adriano, na Grã-Bretanha.

Legado

A expansão do Império Romano espalhou o latim por toda a Europa e o latim vulgar terminou por dialetar-se, com base no lugar em que se encontrava o falante. O latim vulgar evoluiu gradualmente de modo a tornar-se cada uma das distintas línguas românicas, um processo que continuou pelo menos até o século IX. Tais idiomas mantiveram-se por muitos séculos como línguas orais, apenas, pois o latim ainda era usado para escrever. Por exemplo, o latim foi a língua oficial de Portugal até 1296, quando foi substituído pelo português. Estas línguas derivadas, como o italiano, o francês, o espanhol, o português, o catalão e o romeno, floresceram e afastaram-se umas das outras com o tempo.

Dentre as línguas românicas, o italiano é a que mais conserva o latim em seu vocabulário,[2] enquanto que o sardo é o que mais preserva a fonologia latina.[3]

Algumas das diferenças entre o latim clássico e as línguas românicas têm sido estudadas na tentativa de reconstruir-se o latim vulgar. Por exemplo, as línguas românicas apresentam um acento tônico distinto em certas sílabas, ao qual o latim acrescentava uma quantidade vocálica distinta. O italiano e o sardo logudorês possuem, além do acento tônico, uma ênfase consonantal distinta; o espanhol e o português, apenas o acento tônico; e no francês, a quantidade vocálica e o acento tônico já não são distintos. Outra grande diferença entre as línguas românicas e o latim é que as primeiras, com exceção do romeno, perderam os seus casos gramaticais para a maioria das palavras, afora alguns pronomes. A língua romena possui um caso direto (nominativo/acusativo), um indireto (dativo/genitivo), um vocativo e é o único idioma que preservou do latim o gênero neutro e parte da declinação.[4]

Embora não seja uma língua românica, o inglês sofreu forte influência do latim. Sessenta por cento do seu vocabulário são de origem latina, em geral por intermédio do francês.

Ademais do português, outras línguas românicas surgidas a partir do latim incluem o espanhol, o francês, o sardo, o italiano, o romeno, o galego, o occitano, o rético, o catalão e o dalmático – este, já extinto.

Uso moderno

Atualmente, a terminologia latina é amplamente usada nas áreas de filosofia, medicina, biologia e direito, dentre outras, em termos e abreviações como lato sensu, etc., i.e., inter alia e outros. As palavras latinas são empregadas isoladamente, como termos técnicos. A maior organização hoje a usar o latim num contexto oficial é a Igreja Católica Romana.

Nos casos em que é importante empregar uma língua neutra, como em nomes científicos de organismos, costuma-se usar o latim.

Alguns filmes, como A Paixão de Cristo, apresentam diálogos em latim.

Muitas organizações ainda hoje ostentam lemas em latim, como o estado brasileiro de Minas Gerais (libertas quae sera tamen).

Características

É caracterizado por ser uma língua flexiva. No caso dos substantivos e adjetivos a flexão é denominada declinação, no caso dos verbos, conjugação.

No latim clássico cada substantivo ou adjetivo pode tomar seis formas, ou “casos”:

* Caso nominativo (sujeito e predicado nominal)
* Caso vocativo (vocativo)
* Caso acusativo (objeto direto)
* Caso dativo (objeto indireto)
* Caso genitivo (indicando posse ou especificação)
* Caso ablativo (complementos circunstanciais)

Também existem resquícios de um sétimo caso de origem indo-europeia, o locativo, que indica localização (por exemplo: Urbi, na cidade).

Dialetos

A difusão do latim por um território cada vez mais vasto teve duas conseqüências: a primeira, que o latim, ao entrar em contato com línguas diversas, exerceu um influxo mútuo mais ou menos considerável; a segunda, de certo modo conseqüência da primeira, que o latim foi se diferenciando nas diversas regiões. Enquanto os laços políticos com o centro eram fortes, as diferenças eram limitadas, mas quando esses laços enfraqueceram até se romperem completamente, as diferenças se acentuaram.

Geralmente, as populações submetidas desejavam elevar-se culturalmente adotando o latim, coisa que ocorre sempre que dois povos entram em contato: prevalece lingüisticamente o que possui maior prestígio cultural. Dessa forma Roma conseguiu fazer prevalecer o latim sobre o etrusco, o osco, o umbro, o galo, e apenas sobre parte do grego, cujo prestígio cultural era maior.

As populações submetidas, federadas, etc., antes de perder sua língua em favor do latim, atravessaram um período mais ou menos longo de bilingüismo; de fato, algumas das línguas pré-romanas tiveram no território romanizado considerável vitalidade durante muito tempo. E essas línguas originárias deram uma cor específica em cada língua neolatina surgente, e permanecem presentes em topônimos dessas regiões até hoje.

Gramática

Ao latim falta a variedade e flexibilidade que o grego possui. Em contraste com o grego, o latim não possui artigo determinado. Há três gêneros, que vêm assinalados pelas terminações nominais -us, -er tipicamente masculinas, -a feminina e -um neutra, ainda que nem sempre essas normas sejam consistentes, como por exemplo, nauta (“marinheiro”) é masculino, enquanto mulier (“mulher”) é feminino. Os substantivos têm dois números e seis casos. O adjetivo concorda com seus referentes gêneros, números e casos. A numeração de 1 a 10 é: unus/una/unum, duo/duae/duo, tres/tria, quattuor, quinque, sex, septem, octo, novem, decem; 11 undecim, 12 duodecim, 13 tredecim, 20 viginti, 30 triginta, 100 centum. Os verbos são transitivos ou intransitivos e as formas verbais finitas ou infinitas.

O pronome interrogativo é quis (masculino e feminino) “quem?”, quid “que?”. Quis possui formas plurais qui/quae/qua. O demonstrativo é is/ea/id, hic/haec/hoc “este/esta/isto”; ille/illa/illud “esse/essa/isso”. Os pronomes pessoais são: singular ego “eu”, tu “tu”; plural nos “nós”, uos “vós”. Para a terceira pessoa se usam os demonstrativos is/ea/id.

Na fase do latim antigo, não existia uma ordem direta nas sentenças, apenas os sufixos é que variavam respeitando sua declinação fosse no nominativo, no acusativo, no genitivo, no vocativo, no ablativo ou no dativo o que conferia ao idioma um caráter matemático. Já no latim posterior a ordem sujeito, verbo e objeto (SVO) se estabeleceu, facilitando significativamente a sua leitura e adequação às traduções.

Casos no Latim

Nominativo

* Sujeito
* Predicativo do Sujeito

-a no singular Ex: “Bona discipula sum” (“Boa dicipula sou”, ou, “[Eu] sou [uma] boa discipula”)

-ae no plural Ex: “Ideo servae sedulae sunt” (“Por isso, escravas aplicadas são”, ou, “Por isso, [as] escravas são aplicadas”)

Acusativo

* Objeto Direto

Ex.: Staphyla Phaedram amat. “Estáfila ama Fedra”

Genitivo

* Adjunto Adnominal Restritivo (indicando posse)

Ex.: Amica Staphylae etiam serua est. “A amiga de Estáfila ainda é escrava”

Dativo

* Objeto Indireto

Ex.: Phaedra seruae rosam dat. “Fedra dá a rosa à escrava”

Ablativo

* Adjunto Adverbial

Ex.: Cum amica ambulat. “Anda com a amiga”

* Agente da Passiva

Ex.: Filius amatur a matre. “O filho é amado pela mãe”

Vocativo

* Vocativo, como no Português

Ex.: Domine, cur laudas discipulas? “Senhor, por que louvas as alunas?”

Conjugação

Tempo

* Presente: Descreve ações no presente.

Ex.: Lucius amphoram domum portrat

* Imperfeito: Descreve ações contínuas.

Ex.: Lucius ibi ambulat

* Futuro: Descreve ações futuras.

Ex.: Lucius uinum bibet

* Perfeito simples: Descreve ações no pretérito.

Ex.: Lucius mane surrexit

* Mais que perfeito: Descreve ações no pretérito mais-que-perfeito.

Ex.: Lucius totam noctem peruigilauerat

* Futuro perfeito: Descreve ações planejadas antes de ocorrerem.

Modo

* Indicativo
* Infinitivo
* Imperativo
* Subjuntivo

Pessoa

* 1ª do singular: Ego
* 2ª do singular: Tu
* 3ª do singular: Is / Ea / Id
* 1ª do plural: Nos
* 2ª do plural: Vos
* 3ª do plural: Ei / Eae / Ea

(Em latim, não existem pronomes do caso reto para a 3ª pessoa do singular: faz-se o uso de pronomes demonstrativos para indicar essa ausência).

Numerais

Os numerais latinos podem ser Cardinais, Ordinais, Multiplicativos e Distributivos.

Cardinais

Os dois primeiros Cardinais, 1 e 2, declinam nos 3 gêneros (M, F, N), no singular / plural e nos 5 casos (Nom. Acu. Gen,. Dat, Abl.). O cardinal 3 declina também em número e nos 5 casos, porém tem apenas duas formas para gênero; Neutro e Masc+Fem. Os demais cardinais até 100 não declinam.

Os cardinais são:

* primeira dezena: unus, duo, tres, (esses aqui Nom. Sing. Masc.), quattuor, quinque, sex, septem, octo, nouem, decem:
* de 11 a 17 são formados por “unidade + decim (dez): undecim, duodecim, tredecim, quattuordecim, quinquedecim, sedecim, septendecim;
* 18 e 19 são formados pelo que falta para “uiginte” (vinte): respect.: duodeuiginte, undeuginte;
* 20, 30, 40, etc. até 100 (dezenas): unginte, triginta, quadraginta, quinquaginta, sexaginta, septuaginta. Octaginta, nonaginta, centum:
* dezenas + unidades:
o dezena + 1 a 7; Ex.: 21 a 27 – uiginte unus até uiginte septum;
o dezena + 8 e 9; Ex.: 28 e 29 – similar a 18 e 19 – duodetriginta, unodetrigimta;
+ Nota – isso vale até 99;
* centenas – só existem no plural e declinam: ducenti, trecenti… até sexcenti: septigenti até nongenti;
* milhares: Mille, duo milia, tria milia… viginti milia… centi milia, etc;

Ordinais

Os ordinais indicam em latim, além da seqüência, as frações. São declináveis como Adjetivos da primeira classe. Apresentam as formas como segue:

* primus, secundus, tertius, quartus, quintus, sextus, septimus, octauus, nonus, decimus.
* undecimus, duodecimus; de 13 a 19 temos: tertius decimus, quartus decimus, etc… até nonus decimus;
* dezenas: uicesimus, trigesimus, quadragesimus, etc… até nonagesimus, centesimus.
* milhares: ducentesimus, tricentesimus, etc.

Multiplicativos

Os Adjetivos declinam conforme adjetivos de segunda classe e são; Simplex, duplex, triplex, etc.

Os Advérbios (uma vez, duas vezes, etc) não tem declinação e são: Semer, bis, ter, quater, etc.

Distributivos

São também declináveis, indicam “de um em um”, “de dois em dois” e assim por diante. Apresentam a forma: singuli, bini, terni, quaterni, etc.. até nuoeni, deni; dezenas: uiceni, triceni, etc.

fonte: Iniciação ao latim – Zélia de Almeida Cardoso– Editora Ática SP – 6a Edição 2006

Fontes

* http://la.wikipedia.org/wiki/Coniugatio
* http://www.proel.org/
* http://www.ethnologue.com/

Notas

1. ↑ A palavra Vênus aqui é plural.
2. ↑ Grimes, Barbara F. (October 1996). Barbara F. Grimes: Ethnologue: Languages of the World, Consulting Editors: Richard S. Pittman & Joseph E. Grimes, thirteenth edition, Dallas, Texas: Summer Institute of Linguistics, Academic Pub.
3. ↑ Foreign Languages: Italian, especificamente: “Sardo conserva muitas características arcaicas do latim que desapareceram no italiano, como o som k duro em palavras como chelu, correspondente ao italiano cielo.”
4. ↑ Columbia University Language Resource Center

Ligações externas
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