A verdadeira doutrina espírita

Doutrina Espírita



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Série
Doutrina Espírita











A doutrina espírita é uma corrente de pensamento — nascida em meados do século XIX — que se estruturou a partir de diálogos estabelecidos entre o pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail e o que ele e muitos pesquisadores da época defendiam tratar-se de espíritos de pessoas falecidas, a manifestar-se através de diversos médiuns.


Caracteriza-se pelo ideal de compreensão da realidade mediante a integração entre as três formas consideradas clássicas de conhecimento, que seriam a científica, a filosófica e a religiosa. Segundo Allan Kardec, cada uma delas, se tomada isoladamente, tenderia a conduzir a excessos de ceticismo, negação ou fanatismo. A doutrina espírita se propõe, assim, a estabelecer um diálogo entre elas, visando à obtenção de uma forma original, que a um só tempo fosse mais abrangente e profunda, de compreender a realidade.


A sua base doutrinária é o Livro dos Espíritos, primeira das chamadas obras básicas escritas por Rivail. Nesse livro, consta o resultado preliminar dos diálogos estabelecidos por ele em diversas reuniões mediúnicas com o que seriam espíritos “desencarnados”. A obra é dividida em 1018 tópicos no estilo pergunta–resposta, ordenados didaticamente pelo pedagogo. As questões levantadas em O Livro dos Espíritos serviram como base para os demais livros que compõem a Codificação espírita.


Segundo muitos de seus estudiosos[1], a doutrina espírita tem inspiração cristã, apesar das concepções teológicas bem diferenciadas no que diz respeito a conceitos como divindade, natureza humana, salvação, graça e destino. Para eles, Jesus Cristo é o espírito mais elevado que conhecemos em toda a história da Terra, bem como o modelo de conduta para o auto-aperfeiçoamento humano.







Índice

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[editar] Contexto



 

Allan Kardec (1804-1869), o codificador da doutrina espírita.

Durante o século XIX houve uma grande onda de manifestações mediúnicas nos Estados Unidos e na Europa. Estas manifestações consistiam principalmente de ruídos estranhos, pancadas em móveis e objetos que se moviam ou flutuavam sem nenhuma causa aparente. Entre eles destacou-se o caso das Irmãs Fox, nos EUA.


Em 1855, o professor Denizard Rivail, que depois adotou o pseudônimo de Allan Kardec, lançou-se à investigação do fenômeno, bastante comum à época, das mesas girantes ou dança das mesas, em que mesas e objetos em geral pareciam animar-se de uma estranha vitalidade. Inicialmente cético, chegou a afirmar: “Eu crerei quando vir e quando conseguirem provar-me que uma mesa dispõe de cérebro e nervos, e que pode se tornar sonâmbula; até que isso se dê, dêem-me a permissão de não enxergar nisso mais que um conto para dormir em pé“. Após dois anos de pesquisas, não viu constatação de fraudes e nem um motivo para englobar todos os acontecimentos dessa ordem no âmbito das falácias e/ou charlatanices. Pessoalmente convencido não só da realidade do fenômeno, que considerou essencialmente real apesar das mistificações existentes, mas também da possibilidade dele ser causado por espíritos, Rivail deu um passo adiante: em lugar de dedicar o resto de sua vida à busca por “provar cientificamente” a explicação mediúnica para os fenômenos, procurou extrair da possibilidade de que fossem causados pela ação de espíritos algo de útil para a humanidade.


A robusta formação humanística por que passara, bebendo diretamente de Pestalozzi, discípulo dileto de Rousseau, não poderia limitá-lo a uma pesquisa meramente naturalista. A necessidade de dar algum suporte à espiritualidade humana numa época em que a ciência avançava a passos largos e as religiões perdiam cada vez mais adeptos despertou em Kardec a idéia de um novo modo de pensar o real, que unisse, de forma ponderada, a ascendente Ciência e a decadente Religião, mediadas pela racionalidade filosófica. Assim, Kardec fez uso do empirismo científico para investigar os fenômenos, da racionalidade filosófica para dialogar com o que presumiu serem espíritos e analisar suas proposições, e buscou extrair desses diálogos conseqüências éticomorais úteis para o ser humano. Surgia aí, mais precisamente em 18 de abril de 1857, a doutrina espírita, sistematizada na primeira edição de O Livro dos Espíritos.



[editar] Primeiras observações


Os fenômenos mediúnicos são universais e sempre existiram, inclusive fartamente relatados na Bíblia, mas os espíritas e muitos outros defensores da explicação mediúnica para os chamados “fenômenos sobrenaturais” ou “paranormais” adotam a data de 31 de março de 1848 como o marco inicial das modernas manifestações mediúnicas, alegadamente mais ostensivas e freqüentes do que jamais ocorrera, o que levou muitos pesquisadores a se debruçarem sobre tais fenômenos. Afirmam, contudo, que acontecimentos envolvendo espíritos (pessoas que já morreram) existem desde os primórdios da humanidade.


Entre outros, citam como exemplo os comentários de Platão ao falar sobre o dáimon ou gênio que acompanharia Sócrates; a proibição de Moisés à prática da “consulta aos mortos”, que seria uma evidência da crença judaica nessa possibilidade, já que não se interdita algo irrealizável; e a comunicação de Jesus com Moisés e Elias no Monte Tabor, citada em Mt, 17, 1-9.



[editar] Estudo sobre as mesas girantes


Segundo os biógrafos, Allan Kardec foi convidado por Fortier, um amigo estudioso das teorias de Mesmer, a verificar o fenômeno das mesas girantes com a disposição de observar e analisar os fenômenos que despertavam curiosidade no século XIX.


As primeiras manifestações tidas como mediúnicas aconteceram por meio de mesas se levantando e batendo, com um dos pés, um número determinado de pancadas e respondendo, desse modo, sim ou não, segundo fora convencionado, a uma questão proposta.


Kardec, em analisando esses fenómenos, concluiu que não havia nada de convincente neste método para os céticos, porque se podia acreditar num efeito da eletricidade, cujas propriedades eram pouco conhecidas pela ciência de então. Foram então utilizados métodos para se obter respostas mais desenvolvidas por meio das letras do alfabeto: o objeto móvel, batendo um número de vezes correspondenteria ao número de ordem de cada letra, chegando, assim, a formular palavras e frases respondendo às perguntas propostas.


Kardec concluiu que a precisão das respostas e sua correlação com a pergunta não poderiam ser atribuídas ao acaso. O ser misterioso que assim respondia, quando interrogado sobre sua natureza, declarou que era um espírito ou gênio, deu o seu nome e forneceu diversas informações a seu respeito.



[editar] Princípios


A doutrina espírita, de modo geral, fundamenta-se nos seguintes pontos:



  • Na existência e unicidade de Deus, desconstruindo o dogma católico da Santíssima Trindade (por isso da não aceitação da Igreja como sendo o Espiritismo uma religião);
  • Na existência e imortalidade do espírito, compreendido como individualidade inteligente da Criação Divina;
  • Na defesa da Reencarnação, como o mecanismo natural de aperfeiçoamento dos espíritos;
  • No conceito de criação igualitária para de todos os espíritos, “simples e ignorantes” em sua origem, e destinados invariavelmente à perfeição;
  • Na possibilidade de comunicação entre os espíritos encarnados (“vivos”) e os espíritos desencarnados (“mortos”), através da mediunidade, uma vez que se todos os espíritos se encontram vivos, a liberdade do corpo não compreende impecílio ao raciocínio e às limitações impostas pela matéria, muito menos a afinidade de pensameto, condição citada por André Luiz para a manifestação dos efeitos mediúnicos;
  • Na Lei de Causa e Efeito, compreendida como mecanismo de retribuição ética universal a todos os espíritos.
  • O Espiritismo crê na pluralidade dos mundos habitados. A Terra não seria o único planeta com vida inteligente do universo.

Além disso, podem-se citar como características secundárias:



  • A noção de continuidade da responsabilidade individual por toda a existência do Espírito;
  • Progressividade do Espírito dentro do processo evolutivo em todos os níveis da natureza;
  • Volta do Espírito à matéria (reencarnação) tantas vezes quantas necessárias para alcançar a perfeição. Os espíritas não crêem na metempsicose, ou seja, a volta do espírito no corpo de animal para pagar dívidas, como aceitam as religiões orientais em geral;
  • Ausência total de hierarquia sacerdotal (outro ponto que a Igreja católica condena, pois, defende a intervenção sacerdotal entre o homem e Deus);
  • Abnegação na prática do bem, ou seja, não se deve cobrar nada por esta ou aquela atividade espírita;
  • Terminologia própria, como por exemplo, perispírito, Lei de Causa e Efeito, médium, Centro Espírita. O espiritismo não preconiza o uso de termos como: corpo astral, karma, Exu, Orixá, “cavalo“, “aparelho“, “terreiro“, “encosto“, entre outros vocábulos utilizados por várias religiões e crenças, embora alguns espíritas, por razões culturais, façam uso de termos semelhantes;
  • Total ausência de culto a imagens, altares, etc.
  • Ausência de quaisquer rituais de batismo, culto ou cerimônia para oficializar casamento;
  • A doutrina espírita incentiva aos praticantes do espiritismo o respeito para com todas as religiões e opiniões.

Há organizações cujas características não se coadunam com a proposta da Federação Espírita Brasileira de compreensão do Espiritismo, e por isso não são consideradas pelas Federações Estaduais como representativas da doutrina. Para os espíritas, estas são organizações espiritualistas e não Espíritas. Esta diferenciação tem gerado muitas controvérsias e discussões em ambos segmentos.


Embora a Doutrina Espírita não seja oriunda do Brasil, este é o país que possui a maior quantidade de adeptos. A Federação Espírita Brasileira, que integra o Conselho Espirita Internacional, é a principal entidade divulgadora da Doutrina Espírita no Brasil. Outra organização importante é a Confederação Espírita Pan-Americana, sendo que esta entidade não concebe o espiritismo como religião, centrando-se apenas nos seus aspectos filosóficos e científicos.



[editar] Obras básicas


A seguir são apresentadas algumas das principais obras publicadas por Allan Kardec, entre as quais encontram-se as chamadas Obras Básicas do espiritismo.



[editar] O Livro dos Espíritos


O Livro dos Espíritos, publicado em 1857, apresenta-se na forma de perguntas e respostas, totalizando 1.018 perguntas principais.



[editar] O Que É o Espiritismo


O livro O Que É o Espiritismo?, publicado em 1859, é uma introdução didática sobre a doutrina espírita.



[editar] O Livro dos Médiuns


O Livro dos Médiuns, ou “Guia dos Médiuns e dos Evocadores”, foi publicado em 1861 e versa sobre o caráter experimental e investigativo do espiritismo, visto como ferramenta teórico-metodológica para se compreender uma “nova ordem de fenômenos”, até então jamais considerada pelo conhecimento científico: os fenômenos ditos espíritas ou mediúnicos, que teriam como causa a intervenção de espíritos na realidade física.



[editar] Evangelho Segundo o Espiritismo


O livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, publicado em 1864, avalia os evangelhos canônicos sob a óptica da doutrina espírita, tratando com atenção especial a aplicação dos princípios da moral cristã e de questões de ordem religiosa como a prática da adoração, da prece e da caridade.



[editar] O Céu e o Inferno


O livro O Céu e o Inferno, ou “A Justiça Divina segundo o Espiritismo”, foi publicado em 1865 e compõe-se de duas partes: na primeira, Kardec realiza um exame crítico da doutrina católica sobre a transcendência, procurando apontar contradições filosóficas e incoerências com o conhecimento científico superáveis, segundo ele, mediante o paradigma espírita da fé raciocinada. Na segunda, constam dezenas de diálogos que teriam sido estabelecidos entre Kardec e diversos espíritos, nos quais estes narram as impressões que trazem do além-túmulo.



[editar] A Gênese


O livro A Gênese, ou “Milagres e as Predições segundo o Espiritismo”, foi publicado em 1868 e aborda diversas questões de ordem filosófica e científica, como a criação do universo, a formação dos mundos, o surgimento do espírito, segundo o paradigma espírita de compreensão da realidade.



[editar] Doutrina espírita e cristianismo


Os espiritistas (tradução muito usada durante as primeiras décadas do século XX para o neologismo spirite) ou espíritas, na sua maioria, afirmam-se cristãos e atribuem à doutrina espírita o caráter de uma doutrina cristã, já que seguem os ensinamentos de Jesus. Entretanto, essa associação entre o espiritismo (doutrina espírita) e o cristianismo é contestada pelas religiões de matriz judaico-cristãs, sob a alegação de que, embora partilhe de valores cristãos, a rejeição espírita a diversos postulados bíblicos e teológicos preconizados por elas inviabilizaria a conceituação do espiritismo como “cristão”.


Os espíritas fundamentam sua defesa do carácter cristão da doutrina espírita no fato de Allan Kardec defender que a moral cristã, isenta dos dogmas de fé a ela associados, seria o que de mais próximo a um código de ética divino e racional o homem possuí. Os espíritas argumentam que os dogmas foram elaborados ao longo dos séculos pela Igreja Católica. Por isso, não é necessário segui-los para ser cristão. Além disso, o item 625 de O Livro dos Espíritos afirma ser Jesus o maior exemplo moral de que dispõe a humanidade, apesar de o espiritismo negar a ele qualquer carácter efetivamente divino [2].


A Profª.Drª. Dora Incontri, coordenadora do curso de pós-graduação em Pedagogia Espírita da Universidade Santa Cecília, defende o caráter cristão da doutrina espírita, apontando na proposta estruturada por Allan Kardec um novo modelo de religião, alheio a dogmas, fórmulas, hierarquias sacerdotais e baseado eminentemente no aspecto ético-moral do sujeito. Considera ainda Rousseau e Pestalozzi como os dois grandes precursores da idéia de uma “religiosidade natural” predominantemente moral, e defende que “evidenciou-se com a publicação de O Evangelho segundo o Espiritismo e de O Céu e o Inferno que, embora não o confessasse, ele [Kardec] estava fazendo uma nova leitura do Cristianismo”. [3]


Já o Prof.Dr. António Flávio Pierucci, do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, estudioso da religiosidade brasileira, procura demonstrar que o espiritismo (doutrina espírita) não é uma religião cristã, afirmando que os espíritas utilizam o Cristianismo para se legitimar. Pierucci defende também que o vínculo com a Igreja Católica defendido pelos espíritas serviu, durante décadas, para lutar contra a discriminação e a intolerância. [4]



[editar] O conceito bíblico


As religiões de matriz judaico-cristãs entendem que, com a Lei dada a Moisés no Antigo Testamento, Deus interditou à antiga Israel as comuniçações com o mundo dos espíritos e o uso de poderes sobrenaturais por eles concedidos. “… não haverá no meio de ti ninguém que faça passar pelo fogo seu filho ou sua filha, que interrogue os oráculos, pratique adivinhação, magia, encantamentos, enfeitiçamentos, recorra à adivinhação ou consulte os mortos (necromancia)” (Deuteronômio 18:10-14). Afirmam ainda que essa proibição é confirmada no Novo Testamento, através das referências contidas nos Evangelhos e no livro de Atos dos Apóstolos aos “espíritos impuros”. A citação do apóstolo Paulo em Gálatas 5:20, afirma que quem pratica “feitiçaria” (ou bruxaria, o termo grego usado é farmakía) … não herdará o Reino de Deus”. (Na Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, o termo é vertido por “espiritismo”. Mas esta aplicação da palavra não se refere, por óbvias razões cronológicas, à doutrina espírita). É comum encontrar referências ao uso do termo Espiritismo para denominar outras doutrinas e cultos que não sejam aquela codificada por Allan Kardec.


Já para a doutrina espírita, a Bíblia não condena a prática mediúnica em si, pois esta seria fundamentada em um fenómeno natural. A condenação bíblica, que também encontra apoio no movimento espírita, é o uso dos recursos mediúnicos para finalidades frívolas ou voltadas ao benefício próprio. Segundo ela, diversas passagens bíblicas exemplificariam a fenomenologia mediúnica, a exemplo de I Samuel 9:9, II Crônicas 16:7, e Mateus 17:1-8.



[editar] O diálogo com as religiões


A posição oficial da Igreja Católica proíbe terminantemente os seus fiéis assistir a sessões mediúnicas realizadas ou não com auxílio de médiuns espíritas – mesmo que estes pareçam ser honestos ou piedosos – quer interrogando os espíritos e ouvindo suas respostas, quer assistindo por mera curiosidade. Posições similares têm as religiões evangélicas.


No entanto, a Igreja Católica não nega a possibilidade física de comunicação com entidades espirituais. Em pesquisas recentes, sob a tutela do Papa João Paulo II, o Padre François Brune publicou o livro Os Mortos nos Falam, em que defende a realidade das comunicações com os espíritos. Além disso, principalmente no Brasil, é possível observar uma maior tolerância por parte de muitos leigos católicos às práticas mediúnicas.


Atualmente, muitas comunidades evangélicas, apesar de não concordarem com os preceitos teológicos e filosóficos do espiritismo, têm procurado, da mesma forma, manter com este uma relação respeitosa, por reconhecer nos trabalhos sociais desenvolvidos pelas casas espíritas uma atividade séria e comprometida. Algumas, inclusive, têm buscado uma aproximação concreta com as instituições espíritas, seja por meio da realização de cultos ecumênicos, seja através do diálogo inter-religioso.


A doutrina espírita, por sua vez, respeita todas as religiões e doutrinas, valoriza todos os esforços para a prática do bem e trabalha pela confraternização e pela paz entre todos os povos e entre todos os homens. Pois o Espiritismo tem como máxima a frase “Fora da caridade não há salvação” o que significa que sendo benevolente e caridoso você será gratificado, independentemente da sua crença, ao contrário do “Fora da Igreja não há salvação” que exclui todos que não seguem a Igreja, mesmo que caridoso, da salvação.



[editar] Fenômenos espíritas e a ciência


A investigação dos fatos e causas do fenômeno mediúnico é objecto de estudo pela Pesquisa Psíquica, ramo da parapsicologia (substituindo a metapsíquica), que tem como interesse fundamental a averiguação da ocorrência dos aludidos fatos. Vêm fazendo-se investigação séria e científica, e por vezes, em nível universitário, mas até o momento sem qualquer evidência científica reprodutível. Também, a doutrina espírita utiliza uma metodologia científica própria, sem o rigor científico habitual e baseada muitas vezes em evidências anedóticas.


Kardec, no preâmbulo de O que é o Espiritismo, afirma que o espiritismo “é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal”. Dentro dessa perspectiva, Kardec teria fundado a “ciência espírita”, tendo como objeto o espírito e toda a ordem de fenômenos que a ele dizem respeito. Na Revista Espírita, que publicou até sua morte, analisa vários relatos de fenômenos aparentemente mediúnicos ou sobrenaturais oriundos de diversas partes do mundo. Procurava distinguir, entre os relatos que lhe chegavam, os acontecimentos prováveis, ou pelo menos verossímeis, daqueles oriundos do charlatanismo ou da simples imaginação superexcitada.


Durante o século XIX, uma controversa forma de evidenciar a existência de espíritos era a chamada fotografia espírita, que obteve sucesso especial na Inglaterra, nos Estados Unidos e na França. Fotógrafos amadores e profissionais dedicavam-se a ela, fosse com o intuito de desmascarar o que consideravam ser uma fraude, fosse para demonstrar a autenticidade do fenômeno. Apesar das muitas fraudes existentes, casos famosos como o do americano Mumler suscitam até hoje debates entre investigadores.


Para além dos aspectos doutrinários, existe uma diversidade de práticas que vêm suscitando nas últimas décadas uma crescente curiosidade – a ectoplasmia, psicocinesia, psicofonia, psicometria, levitação, telepatia, clarividência, pré-cognição, via onírica (sonhos), psicografia, arte mediúnica, medicina e cirúrgia mediúnica, apometria, radiestesia e rabdomancia. Mesmo após extensas investigações científicas, e debunks por James Randi, Harry Houdini e outros, nenhum desses fenômenos foi rigorosamente referendado até hoje pela metodologia científica.



[editar] O Espiritismo no Brasil


Divulgado em praticamente toda a Europa no século XIX, o Espiritismo chegou ao Brasil em 1865. Hoje, o País é o que reúne o maior número de espíritas em todo o mundo. A Federação Espírita Brasileira – entidade de âmbito nacional do movimento espírita – congrega aproximadamente dez mil instituições espíritas, espalhadas por todas as regiões do País. Atualmente, o Brasil possui 2,3 milhões de espíritas, de acordo com o último censo[5] realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2000. Terceiro maior grupo religioso do País, os espíritas são, também, o segmento social que têm maior renda e escolaridade, segundo os dados do mesmo Censo. Os espíritas têm sua imagem fortemente associada à prática da caridade. Eles mantêm em todos os Estados brasileiros asilos, orfanatos, escolas para pessoas carentes, creches e outras instituições de assistência e promoção social. Allan Kardec, o Codificador do Espiritismo, é uma personalidade bastante conhecida e respeitada no Brasil. Seus livros já venderam mais de 20 milhões de exemplares em todo o País. Se forem contabilizados os demais livros espíritas, todos decorrentes das obras de Allan Kardec, o mercado editorial brasileiro espírita ultrapassa 4.000 títulos já editados e mais de 100 milhões de exemplares vendidos.



[editar] Federação Espírita Brasileira


A Federação Espírita Brasileira foi fundada em 2 de janeiro de 1884, no Rio de Janeiro. Em 2004 completou 120 anos. É uma sociedade civil, religiosa, educacional, cultural e filantrópica, que tem por objeto o estudo, a prática e a difusão do Espiritismo em todos os seus aspectos, com base nas obras da codificação de Allan Kardec e nos Evangelhos canônicos. O Departamento Editorial da FEB possui um catálogo de mais de 400 títulos que totalizam 39 milhões de livros vendidos. Todos inspirados na Codificação Kardequiana: romances, mensagens, contos, crônicas, textos científicos e filosóficos, além de CD-ROMs, vídeos, apostilas e CDs de canções espíritas.



[editar] Confederação Espírita Pan-Americana


A Confederação Espírita Pan-Americana, fundada em 5 de outubro de 1946 na Argentina, é uma instituição internacional, que congrega majoritariamente espíritas da América Latina. A CEPA possui instituições adesas e filiadas em diversos países, e defende uma visão laica a respeito do espiritismo. A organização assume posicionamentos polêmicos entre os espíritas, como a desvinculação entre a doutrina e o cristianismo e a necessidade de se atualizar o espiritismo em face da ciência. Desde o dia 13 de outubro de 2000, a sede da CEPA passou a ser Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. A atuação da CEPA no Brasil se dá, principalmente, através de eventos promovidos por instituições adesas, como o Fórum do Livre Pensar Espírita e o Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita.



Referências




  1. Léon Denis escreveu: “O ideal que proclamam as vozes do mundo invisível não é diferente daquele do fundador do cristianismo“. René Kopp também escreveu: “O Espiritismo será cristão ou nada será“. Mais detalhes sobre esta percepção podem ser obtidos em O Espiritismo Cristão.
  2. Obras Póstumas, 13.ª Edição, pág. 121)
  3. Pedagogia Espírita: um projeto brasileiro e suas raízes histórico-filosóficas, São Paulo, Feusp, 2001, pág. 74
  4. O Desencantamento do MundoTodos os Passos do Conceito, São Paulo, Editora 34, 2003)
  5. Estas informações são encontradas nas planilhas disponibilizadas pelo IBGE no seguinte endereço:[1]. Encontram-se réplicas destes dados nos seguintes sítios: [2], [3] e [4]


[editar] Bibliografia



  • AKSAKOF, Alexandre. Animismo e Espiritismo. Rio de Janeiro, FEB, 1956.
  • CASTELLAN, Yvonne. Le Spiritisme. 5º ed. Paris, Presses Universitaires de France, 1974.
  • CHIBENI, Silvio Seno. O paradigma espírita, 1994.
  • COLOMBO, Cleusa B. Idéias sociais espíritas. São Paulo, Comenius, 1998.
  • DOYLE, Arthur Conan. História do Espiritismo. São Paulo, Ed. Pensamento, 1960.
  • INCONTRI, Dora. Pedagogia Espírita, um Projeto Brasileiro e suas Raízes. Bragança Paulista, Comenius, 2004.
  • LAPLANTINE François e AUBRÉE Marion. La table, le livre et les Esprits – Naissance, évolution et actualité du mouvement social spirite entre France et Brésil. Paris, Ed. Lattès, 1990.
  • PESOLI, Fabrizio. Aspetti della ricerca scientifica sullo spiritismo in Italia (1870-1915), Università degli Studi di Milano 1999. 1
  • STOLL, Sandra. Entre Dois Mundos: o Espiritismo da França no Brasil. Tese de doutorado, São Paulo, USP, 1999.
  • RANDI, James. The Faith Healers. Prometheus Books, 1989

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