As conferências do cassino lisbonense e a geração de 70

As conferências do Cassino Lisbonense e a geração de 70


Por volta de 1870 e tendo já concluído os estudos universitários em Coimbra, o grupo de amigos se reencontra em Lisboa e passa a travar debates acerca da renovação cultural portuguesa. A volta de Antero de Quental – que estivera na França, na América e na ilha de São Miguel – dinamiza essas reuniões, que passam a contar com leituras sistematizadas (principalmente de Proudhon) e a ter um objetivo definido. Como resultado desse esforço, nasce a iniciativa ambiciosa das Conferências Democráticas, que visavam à reforma da sociedade portuguesa.


Eis algumas das propostas das conferências, impressas no programa, assinado dentre outros por Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins e Teófilo Braga:


Abrir uma tribuna onde tenham voz as idéias e os trabalhos que caracterizam este movimento do século, preocupando-nos sobretudo com a transformação social, moral e política dos povos; ligar Portugal com o movimento moderno, fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a humanidade civilizada; procurar adquirir a consciência dos fatos que nos rodeiam, na Europa; agitar na opinião pública as grandes questões da Filosofia e da Ciência Moderna; estudar as condições da transformação política, econômica e religiosa da sociedade portuguesa.


Depois de proferidas cinco conferências – das quais duas eram de Antero e uma de Eça de Queirós -, o governo proíbe a continuidade do ciclo, alegando que os oradores suscitavam “doutrinas e proposições que atacavam a religião e as instituições do Estado”.


Mas, apesar da censura, o Realismo já era vitorioso em Portugal e a partir de então se colheriam seus melhores frutos.


A poesia da época, a que genericamente se chama realista, alcançou grande prestígio e se desdobrou em quatro direções:


a poesia realista propriamente dita, representada por Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Gomes Leal, Teófilo Braga e outros, que se caracteriza pela crítica social e pelo engajamento político;


a poesia do cotidiano, representada por Cesário Verde, que, parcialmente ligada à poesia realista, procura incorporar à poesia certos aspectos da realidade até então considerados pouco poéticos;


a poesia metafísica, representada por Antero de Quental, que se volta para as indagações em torno da vida, da morte e de Deus;


a poesia parnasiana, representada por João da Penha e outros, cuja preocupação central é resgatar a tradição clássica, deixada de lado pelo Romantismo.


A prosa de ficção, na qual sobressaem Eça de Queiróz, Fialho de Almeida e Abel Botelho, segue a mesma orientação da poesia realista, porém dividindo-se entre o ataque à burguesia, à monarquia, ao clero, às instituições sociais, aos falsos valores e o compromisso com a doutrinação moral, social e filosófica.


Merecem destaque ainda a historiografia de Oliveira Martins e a crítica literária de Teófilo Braga.

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