Ball tínhamos o melhor time na olimpíada

Ball: Tínhamos o melhor time na Olimpíada


Em entrevista exclusiva ao LANCENET!, americano revelou
qual foi o segredo para vencer o Brasil na final olímpica




 


O ano de 2008 foi o primeiro em que o técnico Bernardinho não ganhou um título com a Seleção Brasileira de vôlei desde que assumiu o comando, em 2001. Dos três torneios perdidos nesta temporada, dois foram para os Estados Unidos (Liga Mundial e Olimpíada de Pequim), time que na era Bernardinho foi a pedra no sapato do selecionado brazuca.

O líder desta equipe que tanto incomodou os brasileiros foi o levantador Lloy Ball. Em entrevista exclusiva ao LANCE!NET, por telefone, o solícito e simpático jogador revelou o segredo para derrubar a Seleção de Giba, Dante e companhia, além de confessar a frustração pela falta de reconhecimento pelo ouro olímpico nos Estados Unidos.


Confira a seguir a entrevista completa:


LANCE!: O time americano de vôlei foi a sensação deste ano: venceu a Liga Mundial e a Olimpíada, os dois principais torneios do ano. Porque vocês conseguiram dar este salto de qualidade em 2008? Fizeram algo diferente na preparação?
Lloy Ball: Não fizemos nada mais além de treinar, treinar… Tentamos ser uma equipe consistente no saque, já que não temos atacantes altos como a Rússia, por exemplo. Nosso atacante Stanley não é tão rápido como os brasileiros. Foi muito importante para nós ter um bom saque e recepção. Acho que esta foi nossa principal melhora neste ano. Mas a grande diferença foi a confiança. Vencer a Liga Mundial no Rio de Janeiro foi a coisa mais importante que fizemos antes da Olimpíada. Mesmo antes da final da Liga tínhamos chance de vencer a medalha de ouro (em Pequim), mas depois do título da Liga os jogadores ficaram muito mais confiantes sobre a possibilidade de ganhar o ouro olímpico.


L!: Depois de vinte anos, os Estados Unidos venceram novamente o torneio olímpico. O que este título representou para você e para os Estados Unidos?
LB: Infelizmente, o vôlei nos Estados Unidos não tem o mesmo tratamento que tem no Brasil. Não conseguimos ter 10 mil pessoas em um ginásio, em uma partida às 10h, como em São Paulo ou no Rio. Mas esperamos que com esta vitória e com nosso sucesso, nossa federação de vôlei veja e reconheça a importância de um campeonato no país, e ter seus bons jogadores treinando e jogando “em casa”, assim como os brasileiros, os italianos e os russos. Por causa disto, precisamos viajar o mundo para jogar ligas profissionais. Esperamos que uma liga se desenvolva para que jovens jogadores atuem e apareçam para o futuro.


L!: Então, como é ser jogador de vôlei em um país em que há outros esportes muito mais populares, como futebol americano, beisebol?
LB: É difícil. Você vai à Itália e vê o rosto dos jogadores em diversos lugares. Você vai ao Brasil e vê o Giba em comerciais. Ou, como aqui na Rússia, vê os atletas na televisão. Nos Estados Unidos, andamos pela rua e ninguém sabe o que fizemos e quem somos. Isto é frustrante algumas vezes, porque temos que passar sete ou oito meses por ano longe de nosso país, na Rússia, na Itália, no Brasil ou na Grécia para ganhar dinheiro e ter uma profissão. Este sacrifício faz as coisas serem um pouco mais especiais, pois por causa disso os jogadores americanos precisam ser mais duros mentalmente e fisicamente, porque precisamos trabalhar bastante. No nosso país, o vôlei talvez não esteja nem entre os 10 esportes mais populares.


L!: Os Estados Unidos mostraram evolução no vôlei em um todo na Olimpíada, com conquistas na quadra e na praia. O vôlei está evoluindo no país?
LB: Acredito que sim. Nos últimos cinco ou seis anos, muitos atletas talentosos escolheram jogar vôlei ao invés de tentarem o basquete, ou outras modalidades. A diferença é que nos últimos dez anos, ou desde a medalha de ouro de 1988, não tivemos bons jogadores o suficiente jogando vôlei. Se você olhar o programa de jovens jogadores no Brasil ou da Rússia, você vê alguns jogadores talentosos e bons fisicamente. Nos Estados Unidos, temos sorte em ter 15 a 20 jogadores, mas isto está mudando. Jovens atletas estão se interessando pelo vôlei, e é por isso que hoje temos atletas excepcionais como Phil Daulhausser (medalha de ouro em Pequim no vôlei de praia), ou Kerry Walsh (também ouro no vôlei de praia).


L!: Na sua opinião, o time americano masculino é o melhor da atualidade no vôlei?
LB: É difícil dizer isto. O vôlei está mudado. Você joga todos os 12 meses do ano, sem pausas. Eu disse antes dos Jogos Olímpicos para a minha equipe que o melhor time nem sempre vence, porque você precisa ter sorte, boa saúde, e outras coisas para que tudo dê certo. Mas eu realmente acreditei que naquelas duas semanas em Pequim nós tínhamos o melhor time da Olimpíada.


L!: Nos últimos anos, o time americano foi o único que conseguiu vencer o Brasil diversas vezes, e também na Liga Mundial e na Olimpíada. Qual foi o segredo para bater a equipe brasileira?
LB: Para ser honesto, a grande diferença foi a mentalidade de nosso time. Todos dizem que o Brasil teve o melhor time nos último cinco ou seis anos. E eu sou a primeira pessoa a concordar com isto. Acho que os fãs, a mídia, e até mesmo os times e jogadores ficaram impressionados com a velocidade dos brasileiros, com a maneira com que Dante ataca, com a velocidade do Giba e do André Nascimento no ataque. As outras equipes assistiram aos jogos do Brasil como fãs, e se assustaram com isto. O time americano compreendeu que mesmo que o time brasileiro tenha um jogo mais belo do que qualquer outra equipe, um ponto continua a ser um ponto. Um ponto bonito é o mesmo que um ponto feio, um ponto terrível. É a mesma coisa. Nós não ficamos tão oprimidos e fascinados com o belo jogo que o Brasil realizava às vezes, e compreendemos que era apenas um jogo, um ponto. Com isto, nosso time não se empolga ou fica nervoso quando os enfrenta agora.


L!: Há algo especial em vencer o Brasil, ou derrotar a equipe brasileira é o mesmo que derrotar qualquer outra seleção?
LB: Muitos jogadores não gostam de enfrentar o Brasil (risos). E a principal razão é porque eles são os melhores. Todos querem ser o melhor, é normal. Particularmente, nunca pensei desta maneira. Tornei-me amigo próximo do Marcelinho, do Giba. Eles são grandes pessoas e grandes jogadores. Para mim, vencer a Rússia era mais importante, porque ficamos nove anos sem derrotá-los. Mas vencer o Brasil na disputa da medalha de ouro foi tão bom quanto. Mas não tenho um sentimento especial contra o Brasil.


L!: O time brasileiro está se renovando, com jogadores muito mais altos do que antes. Esta mudança, que é tendência do vôlei mundial, é necessária hoje em dia?
LB: Não concordo. No nosso time, temos dois bloqueadores considerados pequenos, eu e Millar, e não somos grandes (detalhe: Ball tem 2,03m, e Millar tem 2,04m). Temos dois atacantes médios. Salmon é pequeno (1,97m). Priddy até tem uma boa impulsão, mas também não é muito alto (1,96m). Acho que isto depende do estilo de jogo que você coloca em prática. É difícil atletas altos jogarem com velocidade. Com estes jogadores novos e jovens do Brasil, eles terão que diminuir a velocidade de ataque. Mas o mais importante não é o tamanho do jogador, mas se ele sabe jogar bem. Ele pode ser alto e forte, mas se ele não consegue passar, levantar ou receber bem uma bola, ele não fará nada certo.


L!: Você é muito mais alto do que os levantadores comuns (2,03m). No que isto ajuda teu jogo?
LB: Quando eu comecei a jogar como levantador, meu pai me disse que poderia ser bom, porque passar e receber bolas perto da rede era mais fácil para mim do que salvar bolas na defesa. Como sou grande, tenho um passe alto, o que ajuda nos pontos. E tenho uma boa estatura para bloquear, embora eu não seja um bom bloqueador (risos). Quando você está perto da rede e faz passes altos é mais difícil para a outra equipe bloquear, para o outro time ler para onde o jogo vai, porque o jogo acelera e vai até um ponto mais alto. É uma vantagem. Mas foi como disse antes. Não adianta ser um levantador alto, se não souber jogar. Ricardinho não é alto, mas é um bom levantador. Vermiglio é o mesmo. O mais importante é que o levantador saiba jogar. Mas se for mais alto, é uma vantagem.


L!: Com esta altura, por que você não se tornou um atacante?
LB: Sempre achei que como levantador eu ficava mais envolvido com o jogo. Se você é um atacante, você vê seu nome mais vezes nos jornais ou na internet (risos). Mas nem sempre você está com a bola nas mãos. E como um levantador, eu fico o tempo todo em contato com o jogo. E assim posso controlar o ataque, a ofensividade do time. É mais ou menos como o armador de um time de basquete, ou um quarterback no futebol americano. Gosto de ter este controle do time, é algo que faz parte da minha personalidade.


L!: Você foi eleito o melhor levantador e o melhor jogador da Liga Mundial. O que isto representou para a sua carreira?
LB: Alguns anos atrás, eu decidi que ser o melhor levantador ou jogador de uma competição não importa para mim. O que importa para mim é que o time vença. Se o time vencer a medalha de ouro, e eu não conquistar prêmios individuais, está perfeito. O mais importante são as vitórias, e não estas coisas extras.


L!: Qual é o segredo para se manter na equipe por tanto tempo, já que você está a 14 anos na seleção americana (desde 1994)?
LB: Para ser honesto, o segredo foi eu me casar com uma mulher maravilhosa (Sarah), que me deixou jogar (risos). Sou sortudo. Tenho uma esposa há 11 anos, e dois filhos. Consegui um bom equilíbrio entre família e carreira, que me permitiram jogar por todo este tempo.


L!: Seus filhos gostam de ver você jogar?
LB: Um de meus filhos estava em Pequim. Ele estava muito empolgado depois que ganhamos o torneio. Depois do jogo me encontrei com ele, com minha esposa, com meus pais, e todos nós choramos. É uma coisa que eu nunca irei esquecer. E agora, claro, eles querem ser jogadores de vôlei. Algum dia teremos um novo Ball no time americano.


L!: Na sua opinião, quem é o melhor jogador de vôlei atualmente?
LB: Em qual posição?


L!: Nenhuma em especial.
LB: (Depois de pensar um pouco). Talvez Miljkovic, da Sérvia. Ele é um grande atacante, bloqueador e passador, e por outro lado também sabe defender bem. Ele não tem apenas um ataque forte, ele também tem técnica. A maioria dos jogadores só dá pancada na bola.


L!: Como tem sido sua vida na Rússia?
LB: Este é o meu 12º ano na Europa. Então, nada é diferente para mim agora. Eu gosto daqui. Sou de uma cidade próxima a Chicago (EUA). Como lá, aqui na Rússia é frio e tem neve. As pessoas aqui são muito amigáveis, eles fazem com que eu me sinta em casa. Na minha opinião, o campeonato aqui é o melhor do mundo. Tem sido uma grande experiência.


L!: Como você disse anteriormente, você conhece bem os brasileiros. Como é a sua relação com eles?
LB: É boa. Joguei com Dante dois anos no Modena, então eu conheço ele, a esposa e os filhos dele muito bem. O Marcelinho conheci na Grécia, o considero uma grande pessoa. E com o Giba tenho uma grande amizade, dentro e fora da quadra. Nos falamos muito. Eu os respeito como jogadores, mas o que é mais importante, os respeito como pessoas.


L!: Quais são seus próximos planos? Você pretende jogar na Olimpíada de Londres em 2012?
LB: Não. Eu encerrei minha carreira na seleção americana.


L!: Por que?
LB: Eu já tenho tudo o que eu quero. Agora quero curtir os verões ao invés de treinar, e quero ficar com minha família.


L!: A medalha olímpica era uma dessas coisas que você queria e tem agora?
LB: A última coisa que eu queria ter ganho era a Champions League no ano passado, e ganhamos. Neste ano eu queria a medalha de ouro, e conseguimos. Estou feliz em ter chegado ao topo com a seleção americana, então achei que era uma boa hora para dizer adeus.


L!: E em relação à sua carreira, quando você pretende parar?
LB: Teremos um ano longo aqui na Rússia. Depois da temporada sentarei com minha mulher e com meus filhos e decidiremos o que vamos fazer, se eu continuarei a jogar ou se eu vou parar. Acredito que nos próximos dois ou três anos eu vou parar de vez.


L!: E depois que você parar, já sabe o que vai fazer?
LB: Boa pergunta. Eu não sei (risos).


L!: Seu pai é técnico de vôlei, não é?
LB: Sim, ele é treinador de um time de universidade nos Estados Unidos.


L!: Você pensa em seguir a carreira dele?
LB: Não sei. Tornar-se um técnico é difícil para um jogador, eu acredito. Não sei se eu teria paciência para treinar jogadores agora. Mas daqui a quatro ou cinco anos, quando eu estiver um pouco mais velho e mais inteligente, posso pensar nisto.


L!: Voltando à Olimpíada, como o time encarou o falecimento de um parente do técnico Hugh McCutheon durante os Jogos?
LB: Acidentes acontecem. Fizemos uma reunião. Foi uma coisa terrível, tentamos ajudar nosso técnico. Mas colocamos este fato fora de nossas cabeças e da quadra. Nós treinamos a vida inteira para este momento, e durante as duas semanas da competição tentamos esquecer esta coisa terrível. Depois da competição paramos para pensar no que aconteceu.

L!: O Brasil trocou de levantador no ano passado: Ricardinho por Marcelinho. Isto mudou o jeito do Brasil jogar?
LB: É difícil dizer. Obviamente Ricardo é um grande levantador. E foi uma situação muito difícil em que o Marcelinho entrou, porque houve muita pressão, já que, caso o time não vencesse, esta seria a razão da derrota. Mas não acho que isto seja verdade. Se a equipe é forte, não é apenas um jogador que fará a equipe perder. E o Brasil tem grandes jogadores. Ricardo é provavelmente melhor do que Marcelinho. Não diria que foram falhas do Marcelinho que fizeram o Brasil perder. Mas nunca saberemos o certo, Ricardo não jogou a Olimpíada.

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