Cidade aberta preteridos e lascados

Nestes temos bicudos onde, além das drogas convencionais, o cidadão se vê ainda acossado por outras drogas eventuais, como taxa de marinha, transporte coletivo, flanelinhas, seqüestros-relâmpago, engarrafamentos constantes em trânsito maluco, greves variadas e coisas tais, não nos resta outro caminho senão enveredar pelas historinhas do cotidiano que, muitas vezes, encerram gloriosas lições de vida.

De nada adianta ficarmos malhando em ferro frio ou enxugando gelo, pois cada povo tem o governo que merece. O melhor mesmo é enveredar por trilhas mais amenas, tentar passar aos distintos leitores o que acontece nos bastidores da vida urbana, onde os percalços são muitos, a grana cada vez mais curta e a segurança continua na base do salve-se quem puder.

O fato que vamos narrar aconteceu dia desses numa delegacia da Grande Vitória, onde foi registrada ocorrência que desafia aquela história de que mulher é o sexo frágil.

Um cidadão de vastos bigodes com ares de machão, porém com a cara mais amassada do que carro de madame, pedia às autoridades proteção policial, pois alegava que estava impedido de entrar em sua própria casa devido a desentendimentos com a mulher.

Quando o delegado pediu maiores esclarecimentos, o queixoso contou a história de seu drama, um verdadeiro filme triste: casado há 10 anos, pai de dois filhos, sua vida era um mar de rosas até mudar para a capital, onde foi residir num dos conjuntos habitacionais da periferia metropolitana.

Obrigado a trabalhar à noite – o cidadão em questão é padeiro de profissão e sofredor por opção –, teria sido informado de que sua mulher o traía miseravelmente, quando ele saía de casa para o trabalho.

Ao interpelar a mulher sobre a escandalosa denúncia, ficou sabendo que, além de infiel, sua cara-metade era boa de briga, mais perigosa do que cobra acuada.

Foi a partir daí, após a primeira surra que levou dela, que a sua já sacrificada vida de pobre trabalhador se transformou em um verdadeiro inferno.

Para evitar problemas maiores, e visando preservar a própria integridade física, o padeiro traído passou a morar na padaria onde trabalhava, só indo em casa ver os filhos, ainda meninos. Pois nem isso a mulher estava permitindo, toda vez que insistia, acabava apanhando mais do que boi ladrão em roça de milho.

“O pior, ‘seu’ delegado,’’ – queixava-se ele com lágrimas nos olhos – “é que essa desgraçada mora no que é meu e ainda fica com 40% do meu salário. Se atraso o pagamento, ela corre lá no juiz, que manda me prender.’’

Pouco depois o padeiro saiu, desolado, após ser informado de que a polícia nada podia fazer, a não ser processar a mulher por lesões corporais, com o que ele não concordou.

“Afinal, aquela peste é mãe de meus filhos, né?”, justificou, acabrunhado, ao se afastar, levando sobre os ombros todo o peso de uma existência desperdiçada e sofrida.

Na mesma situação desse padeiro se encontram milhares de outros infelizes, vítimas de desencontros afetivos que acabam por condená-los a uma pena implícita de crises existenciais, onde não raro o epílogo é o crime de morte, justificado por “forte coação emocional” ou “descontrole emocional incontrolável”, como freqüentemente os jornais divulgam.

É por essas e outras que o velho Zé da Lôra, sábio ancião radicado no bucólico e aprazível balneário da Barra do Jucu, afirma do alto da sua sabedoria, prenhe das manhas próprias dos maratimbas espertos e experientes:

“O rico e o pobre são duas pessoas. A polícia devia proteger os dois. Mas, na verdade, o operário é que trabalha pelos três. O vagabundo come pelos quatro. Vem o advogado e protege os cinco. O juiz, por sua vez, condena os seis. O médico examina os sete. Depois, o governo enterra os oito. Então o diabo tenta levar os nove. Mas aí vem a mulher e embrulha os 10!”.

Está mais do que certo o velho Zé da Lôra!

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