Como ter amigos?

A amizade não é uma dessas palavras que se possa dizer o que seja. O dizer da amizade é ser-amigo. A amizade é sempre amante, já disse, entre outros, Hugo Kutscherauer. O ser amante da amizade é sempre um deixar-ser o outro em sua possibilidade instante. Não se é amigo por interesse, pois a amizade está além do querer: é um realizar-se duradouro e firme, maleável e incisivo, simultaneamente. A amizade não é um meio-termo qualquer de uma insignificância infinitesimal egóica. Ser amigo é, antes de tudo, amar-se a si mesmo. Amar-se a si mesmo, por seu turno, é ser o outro de si na plenitude inominável do encontro com a diferença. O amigo nunca é simplesmente amigo. O amigo só é amigo no silêncio da fala. Não se diz para o amigo que se é amigo. Quem é amigo não confirma a amizade na publicidade do gesto. O amor do amigo é amante em si mesmo: ele não se agrega à gangue do falatório dos que temem morrer. O amigo não mede sua amizade no livre comércio das emoções. A amizade não é uma medida que se possa oferecer em praça pública para o consolo e adestramento dos corpos inertes. Amizade é um substantivo derivado do verbo amar. O verbo da amizade é o amar. E porque são infinitas as formas do amar, quando se fala do amar é sempre preciso dizer do amar em si mesmo. Quando se fala da amizade é sempre preciso ser amante em si mesmo. É nesta implicação que aqui acolho a amizade do amigo Felippe Serpa como uma dádiva do amar.

No dia 15 de novembro de 2003, Felippe Serpa realizou a morte. A morte é, para a quase absoluta maioria dos humanos, o maior enigma existente. Todos tremem diante da morte, sobretudo quando próxima. Felippe, entretanto, fazia parte dos poucos (em quantidade) seres humanos que compreendiam a morte como correlato indissociável da vida. Morte e vida eram, para Serpa, a mesma coisa. Nos últimos tempos ele vinha falando da morte nos termos de uma diferença radical surpreendente, como se já partilhasse da ordem implícita do Sóphon que a tudo une na mesma e irrepetível diferença. Felippe escreveu um poema falando dessa diferença originante de Vida e Morte. O poema recolhe as seguintes imagens:

“Vida e Morte

Gestadas no acontecimento,

No estado tensivo

Infinito-finito,

Vidavivente-vidavivida,

Jogojogante-jogojogado,

Instituinte-instituído.

Em cada acontecimento,

Precipitação de uma das infinitas possibilidades

Do ser-sendo,

Vivemos e morremos.

Vivemos na tensão da perspectiva do acontecimento,

Morremos na precipitação do acontecimento,

E voltamos para o estado tensivo

Infinito-finito,

Vidavivente-vidavivida,

Jogojogante-jogojogado,

Instituinte-instituído,

O eterno retorno.

Na gestação do ser-ente

Está o originário do estado tensivo,

Sem fundamento,

A vida e a morte.

No cessar do estado tensivo

Está a morte,

Finitude

Vidavivida,

Jogojogado,

O instituído.

Para além da morte

O infinito,

A vidavivente,

O jogojogante,

O instituinte,

Também para além da vida.”

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