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Lábios-de-Trovão-de-Gaia

 

“Eu ainda não havia passado por minha primeira Mudança quando ouviu os Galliards da tribo contarem esta história… Uma história não muita antiga…

 

“Naquela época, o Caern da Seita Mãe Bondosa*, dos Filhos de Gaia,        corria sério risco. Várias matilhas poderosas de Dançarinos da Espiral Negra estavam acampadas a poucos quilômetros do caern. E toda noite, ouvia-se os trovões rugirem naquela direção… Era como se a Fúria deles estivesse livre!

 

“Pedimos a ajuda de nossos aliados ao norte, os Fianna; e a Seita Canto de Fionn* mostrou-se mais uma vez dignos de nossa confiança. Tambores e trombetas soaram pelo céu nortuno numa marcha quase fúnebre, amenizada por sons suaves de bandolins-fetiches…

 

“Os clarões dos relâmpagos e a chama das tochas eram as luzes que nos guiavam… Sim, digo isso porque mesmo não estando lá, meus espírito de futuro garou estava! Eu cresci nesta Seita! E não há como não me contagiar com as histórias desses heróis…

 

“Lá, os dois grupos se olharam. Não havia volta. Nunca houve… Vultos armados prontos pra morrerem ou serem lembrados vivos! Trovões que pareciam ser gritos de guerra. E havia um héroi entre eles: Coração-do-Fogo-Puro!*

 

“A batalha começa! Era longe da seita. Ouviamos trovões que pareciam golpes, pareciam nomes. Ouviamos os gritos e os nomes dos que caíam, trazidos pelos espíritos dos ventos. E alguns voltavam para casa… para não mais voltarem para a guerra… Foi assim durante noites e dias.

 

“O inimigo enfraquecia, assim como nosso caern. Aquela que seria a última batalha estava pra começar. Coração-do-Fogo-Puro liderava uma nova matilha.

 

“A batalha segue seu rumo. A matilha de Coração-do-Fogo-Puro é dizimada. Ao longe, um vulto portava duas lâminas que buscavam cabeças como um lobo faminto! Ele foi abrindo caminho até Coração-do-Fogo…

 

“Uma luta rápida e sangrenta houve em seguida! Os trovões clamavam por um nome!

 

“A prata fervia de tanto se banhar em sangue quente! E um golpe certeiro faz nosso herói cair…

 

“Desarmado e ferido até onde nenhum garou suportaria, Coração-do-Fogo jaz de joelhos, fitando aquele vulto; buscando-lhe os olhos… E os encontra, iluminados por um clarão, na face de uma linda mulher! Lábios-de-Trovão-Ardentes era seu nome.

 

“Ele fitou aquela face como se fosse sua última visão. Teria a Morte uma face assim tão bela?! deve ter pensado. Ele morreria. Morreria com dignidade, pois levantou a seu rosto. E seus olhos permaneciam abertos enquanto a dama da morte levantava a sua espada. Os relâmpagos pareciam uma extensão da lâmina. Brilhavam. Rugiam. Feriam. Mas não desta vez…

 

“Ao presenciar aquela bravura, aquele rosto pronto pra morte, tão cheio de honra e dignidade, aqueles olhos que ardiam como fogo puro, Lábios-de-Trovão-Ardentes hesitou. Sua espada pende ao chão… como um raio pende à terra. E seus braços buscaram abrigar o garou que quase morria…

 

“Coração-do-Fogo-Puro acordou há tempo de empedir que matassem a Dançarina-da-Espiral. E por quê?! Ela havia o levado de volta ao caern. Ela havia mudado! A chama que ardia no coração do garou foi capaz acender a fagulha de Gaia que existia em Lábios-de-Trovão. O Caern da Seita Mãe Bondosa foi salvo por um olhar.

 

“Mas a história não acaba aqui. Lábios-de-Trovão-Ardentes passou a se chamar Lábios-de-Trovão-de-Gaia, e foi difícil pra ela ser aceita por todos. Muitos garous valorosos haviam morrido naquelas noites. Mas Coração e Lábios forjaram uma amizade incomum. Coração-do-Fogo resolveu permanecer sem matilha. Seu posto lhe deu este direito. E mesmo com esforços pra provar seu valor, Lábios-de-Trovão não foi aceita em uma matilha também. Mas ambos tinham um e o outro agora… 

 

“…Mas tudo pareceu belo demais pra durar. O caern corria risco novamente. Alguns Espirais-Negras sobreviventes estavam furiosos com a traição de Lábios-de-Trovão. Seu nome percorria por toda Umbra e eles queriam vingança!

 

“Lábios-de-Trovão foi acusada de pôr o caern em risco novamente. Para provar sua lealdade para com a nova tribo, ela decide ir sozinha ao encontro com o inimigo, enquanto os Anciões decidiam o futuro do caern. Houve trovões…

 

“Pela manhã, uma enorme matilha formada pelos Fianna foi ao que seria o campo de batalha do ataque surpresa. Mas, para a surpresa de todos, só havia corpos espalhados na forma Crinos por todo o vale de rochas… E nenhum sinal de Lábios-de-Trovão-de-Gaia, que teve seu nome honrado e cantado por muitos Galliards.

 

“Coração-do-Fogo-Puro se entristece. Ele pode ver a mácula da Wyrm no âmago de sua tribo, bem escondida, na forma de hipocrisia e inveja. Ela havia mudado! Ele dizia. Mas os trovões eram altos demais para que ele fosse escutado.

 

“Ninguém sabe ao certo o que se passou na mente e no coração de Coração-do-Fogo-Puro. Tudo o que os Galliards contam é que ele pegou suas melhores armas e partiu rumo ao horizonte numa noite escura. Ele conhecia o Chamando da Wyrm. E pode-se ouvir os trovões mais uma vez.”

 

Liahn Castlyhart, O-Arauto-da-Pureza, Filho de Gaia

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