Discussão crise contaminou a economia real

Na cronologia da crise internacional esta quinta-feira (2/10) provavelmente entra para a história como o dia no qual ficou bastante claro que a catástrofe no sistema financeiro pegou também a chamada economia real – e espalha-se rapidamente dos Estados Unidos e Europa para a Ásia e para os países emergentes, entre eles o Brasil.

Costuma-se usar o termo “contágio” para descrever o processo pelo qual sucessivamente as economias dos diversos países vão se contraindo, por força de expectativas negativas e por culpa da falência do sistema internacional de crédito. Mas “contágio” sugere que seria possível evitar a “doença”, desde que a potencial vítima lograsse manter-se isolada do foco de infecção (no caso, a economia americana).

É pura bobagem, e das perigosas, pois ofusca o que deveria ser feito e retarda a adoção de medidas de defesa. Querem um exemplo recente de como uma recessão de proporções internacionais afetou inclusive os participantes de um sistema que se considerava rival ao capitalismo? Os choques do petróleo de 1973 e 1979, que tanto dano trouxeram às economias ocidentais, devastaram também as trocas comerciais dos países da órbita soviética com o mundo capitalista.

A ilusão de que aquele grupo de países pudesse viver de maneira “autárquica” foi rapidamente destruída. Alguns, como a Polônia, foram tomar dinheiro emprestado de banqueiros ocidentais. Outros, como a Alemanha Oriental, quiseram desenvolver o próprio chio de processamento, investindo o pouco que tinham numa corrida perdida. A implosão do bloco socialista teve como uma de suas causas mais profundas a incapacidade daquele sistema de competir no cenário global.

Essa digressão pela história recente serve apenas para alertar para o fato de que podemos jogar no lixo a noção de “desacoplamento”. Quanto mais avançado e competitivo é um sistema econômico nacional, mais ele será afetado pela crise. Portanto, é o Brasil exportador, inovador e conectado com a economia global que enfrentará as piores conseqüências. E é esse país moderno – indústria, agrobusiness, serviços e competitivos exportadores de commodities minerais – que garantiu nossa prosperidade até aqui.
“Schadenfreude”, uma palavra alemã que conquistou a imprensa anglo-saxã, significa em português alegria pela desgraça alheia. O “New York Times” desta quinta destaca o fato de que muitos governantes latino americanos, entre eles Chávez, Morales, Correa, Kirchner e Lula, deixaram-se levar pela “schadenfreude” em relação à crise nos Estados Unidos. E, agora, estão deixando-se levar pelo medo.

Crises do tamanho atual não conhecem fronteiras ideológicas e nem respeitam esse senso de “justiça histórica” (pura bobagem retórica). Não adiante dizer “eles são os culpados, nós pobres fizemos tudo certo e não é justo que a gente sofra”. Crises têm outro aspecto tenebroso: elas tornam evidentes sobretudo as vulnerabilidades dos participantes da economia globalizada.

Temo que a crise internacional nos cobrará aquilo que não soubemos fazer quando a boa maré da economia mundial nos favorecia: reforma tributária, reforma política, melhor educação, investimento pesado em infraestrutura – em outras palavras, tudo aquilo que aumenta o custo Brasil e impede que o País possa ser mais competitivo. E não é consolo algum, para ninguém, dizer que a culpa é dos outros.

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