Espírito itália em santa teresa, morador traz em si um pedaço da itália

O agricultor Melício Montibeller, 78 anos, acorda cedo, pega o seu carro e percorre 14 quilômetros até a sua plantação de uva. Lá, sozinho, cuida do imenso parreiral, que já começa a brotar. A expectativa é que a colheita seja feita no final de dezembro.

Estamos na Itália, correto? Errado. Mas nem tanto. Melício Montibeller reside no município capixaba de Santa Teresa, a primeira cidade fundada por italianos no Brasil. Descendente de trentinos, sua família veio de Roncegno – uma das vilas visitadas por A GAZETA no especial Espírito Itália – para o Brasil, antes de 1900.

De lá, os familiares de Melício trouxeram a cultura da uva, com a qual ele convive desde os 10 anos de idade e que , hoje, é sua profissão.

Longa temporada
“Meus avós, Giuseppe e Catarina, saíram da Itália falando que passariam apenas uma temporada aqui e que depois voltariam para a terra natal, quando acabasse a guerra. Mas nunca voltaram”, recorda Melício, que guarda apenas os assuntos relacionados à cultura da uva.

“Eles ficaram com medo de vir para o Brasil, porque aqui não havia uva. Então, trouxeram nove ramos plantados em batatas, da Itália para cá. Sobraram seis. Essas são responsáveis por esse parreiral que tenho até hoje”, lembra, emocionado, sabendo da importância de seus avós, um dos responsáveis pela introdução da uva tipo Isabel em Tabocas, distrito de Santa Teresa.

É lá que fica o sítio de Melício, que nunca teve oportunidade de ir à Itália. “Meu sonho é ir e conhecer a parentada. Sei que há muitos Montibellers lá”, comenta o agricultor.

Marido dedicado, Melício divide seu dia entre a uva e a esposa. Alzira Maria Perini Montibeller, 78 anos, sofreu um derrame há seis e não pôde mais trabalhar. “Minha vida é aqui e lá com ela. Vou cuidar da minha esposa até o último dia de vida”, diz.

Segredo não é o frio, mas muita água
Veterano no cultivo da uva, o produtor rural Melício Montibeller desmente um crendice de muitas pessoas: a de que a fruta precisa de muito frio para se desenvolver. “Na verdade, a uva precisa é de muito calor. Só não pode faltar é água. Ela gosta de bastante água no pé”, explica Melício, lembrando que o Nordeste brasileiro é responsável por grande parte da produção brasileira. “Se a uva não gostasse mesmo de calor, a região do sertão e do Rio São Francisco não produziria boas uvas”, destaca Montibeller, que espera colheita para dezembro. “A uva já está começando a dar broto”, diz o agricultor, que destina toda a sua colheita à venda direta, além da produção de suco e de vinhos caseiros.

Cartório é referência em documentação de imigrantes
Berço da imigração italiana no Espírito Santo, para onde se dirigiu grande parte dos imigrantes vindos na Expedição Tabachi, Santa Teresa é a terra de Nilza Reich Nunes, titular do cartório que leva seu nome.
Fundado em 1891, o local é de grande importância para a história da imigração no Estado. Afinal de contas, lá ficam os documentos de casamento, de óbito e de nascimento de grande parte dos italianos que residiam na região.

Por conta disso, Nilza já perdeu as contas de pessoas que foram até seu cartório atrás de documentos de parentes, principalmente para dar entrada na cidadania italiana.

“A procura já foi maior. Até 2005, cerca de dez pessoas diferentes vinham ao cartório para fazer pesquisas”, diz Nilza, que explica a diminuição da procura. “A maioria dos italianos que vieram para Santa Teresa é trentina. As pessoas achavam que o direito de cidadania dos trentinos havia acabado em 2005, mas vai até 2010”, garante.

Expedição permanece na memória dos descendentes
Durante muito tempo, a Expedição Tabachi será lembrada no Espírito Santo. Pelo menos enquanto viverem pessoas como Glecy Coutinho, 74 anos, hoje residente em João Neiva, no Norte do Estado.
Segundo a Secretaria de Turismo, Cultura e Juventude do município, os bisavós de Glecy vieram para o Estado na expedição, em 1874. De Novaledo, uma das vilas de Trento visitadas por A GAZETA, saíram Giuseppe Paoli e Lúcia Martinelli, com destino a Santa Cruz, em Aracruz.

“A viagem era muito longa, e eles ainda enfrentaram uma tempestade. Quase que o navio afundou”, conta.
Já em Santa Teresa, tiveram Ana Martinelli Paoli, avó de Glecy e responsável pelas histórias que ela guarda com carinho até hoje. “Minha nona vinha de Santa Teresa para minha casa, em João Neiva. Passava muito tempo com a gente. Falava muito que eles haviam vindo do Trento e Novaledo e contava história de seus pais”, explica Glecy, que ainda se lembra de muitos desses relatos.

Sem saída
“Minha avó me dizia que o seu pai, o Giuseppe, contava que os soldados do Império Austro-húngaro chegavam às fazendas e roubavam toda a comida e os animais deles. Então, não dava para ficar no país”, recorda.
Nascida antes de 1948, Glecy não tem direito à cidadania italiana devido a restrições na lei de cidadania, mas se orgulha de sua origem. Seu bisavô, Giuseppe Martinelli, foi um dos responsáveis pela educação dos filhos dos emigrantes. “Ele ensinava italiano para todos e, além de cantar nas festas, ajudava a tomar conta dos doentes”, frisa.

Outra recordação que Glecy tem de seu passado tem relação com a chegada do homem à Lua. “Quando isso aconteceu, falei com minha avó; ?Olha lá, na televisão. O homem chegou à Lua?. E ela me respondeu: ?Mais difícil que isso foram nossos homens irem a Santa Leopoldina e voltaram são e salvos?”, comenta, lembrando que o caminho era todo feito dentro de mata fechada.

Leitora descobre parentes em reportagem
“Fiquei muito emocionada.” Foi com essas palavras que Glecy entrou em contato com a reportagem de A GAZETA, assim que leu a primeira parte do especial Espírito Itália. “Quando vi a foto da Gisella, falei: ?Parece muito com minhas tias?. Aí, olhei e vi que ela era Martinelli e de Novaledo, de onde vieram meus bisavós”, explica Glecy. “Ela só pode ser minha parente. Não sei com qual ligação, mas com certeza é”, frisou. O sonho de conhecer a região de origem de seus parentes ainda existe. “Meu irmão me prometeu que iremos ano que vem. Se ele não for para Trento, vou assim mesmo”, adianta.

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