Estudo de três casos poltergeist em são paulo brasil

Resumo: O presente trabalho visa primordialmente a expor investigações de casos poltergeist, destacando as dificuldades de investigação e as conclusões chegadas ao final da pesquisa, apontando características do mecanismo psicológico aparentemente envolvido nas ocorrências. Há evidências de que casos fraudulentos seguiriam a mesma lógica, em termos psicológicos, dos casos genuínos. São apresentados três casos poltergeist investigados no Estado de São Paulo, Brasil, pelos autores. Um deles demonstrou-se genuíno, uma vez que o segundo autor presenciou uma ocorrência supostamente psicocinética, que se deu sem possibilidades de truque ou fraude; outro constituiu-se em fraude deliberada, comprovada por ambos os autores, com a ajuda de um terceiro investigador, através de filmagem em VHS; e, finalmente, outro dos três casos traz todas as evidências de ser um caso genuíno, apesar de os pesquisadores não terem presenciado nenhuma ocorrência. Os três casos evidenciam mecanismos psicológicos idênticos envolvidos nos eventos.


Introdução


            Perde-se de vista o momento em que começaram a existir relatos dos popularmente chamados casos poltergeist na História da humanidade. Há narrativas desde os tempos mais remotos, registros rudimentares de ocorrências tidas como bizarras ou sobrenaturais, típicas do que hoje conhecemos como poltergeist, que desafiam o entendimento humano acerca de seu mecanismo de funcionamento. Esses casos são narrados até nossos dias e pesquisadores já presenciaram essas ocorrências ou se depararam com fortes evidências de que elas realmente tenham ocorrido. (Alvarado, 1983; Roll, 1977) Porém, ainda o maior número de casos investigados, segundo nossa própria experiência, compõe-se de fraudes ou erros interpretativos, detectados após investigação responsável, investigação esta feita à mercê de muitas dificuldades.


            Se é grande o número de fraudes ou erros interpretativos nos casos poltergeist, valeria a pena continuar investigando tais casos? Nossa resposta aponta numa direção positiva porque, aparentemente, as fraudes ou erros seguiriam a mesma lógica, em termos psicológico, dos casos genuínos. A diferença entre eles se encontraria nas vias de ocorrência dos eventos.


Sobre as dificuldades de investigação


            O Brasil tem fama de ser um país rico em ocorrências psi, o que foi demonstrado no estudo preliminar acerca da incidência de experiências psi entre estudantes universitário brasileiros (Zangari e Machado, 1996). No entanto, para pesquisadores de abordagem científica não é muito fácil ter acesso a uma investigação mais profunda de casos do tipo poltergeist, por exemplo. Essa dificuldade se dá, em primeiro lugar, quando as pessoas que passam por essas experiências recorrem à ajuda religiosa, de acordo com seus credos particulares, desconhecendo, ou mesmo, recusando-se a aceitar a intervenção ou presença de pesquisadores(as) científicos(as). Isto parece ocorrer na grande maioria dos casos. Não é raro que representantes ou adeptos(as) de vários credos religiosos se envolvam em um mesmo caso, fato peculiar à cultura religiosa brasileira. Talvez isso aconteça porque as religiões tragam respostas definitas para os eventos ocorridos, ao contrário da abordagem científica, que lida com evidências, hipóteses, mas não se fecha em explicações definitivas. 


            Uma vez, porém, que se consiga ter acesso ao caso e às pessoas que o vivenciam ou vivenciaram, outras dificuldades surgem. Entre elas, as principais são:


            1-) Envolvimento da imprensa


                        Repórteres e jornalistas estão sempre em busca de furos de reportagem, fatos extraordinários que chamem a atenção do público e aumentem o índice de audiência de sua emissora. Casos poltergeist servem muito bem a essa finalidade. Com algumas raras exceções, profissionais da imprensa não se importam com a integridade dos personagens desses casos e exploram “sensacionalisticamente” a situação. Com isso, os(as) curiosos(as) fazem plantão em frente aos locais ditos “assombrados”,  as pessoas envolvidas ficam privadas de uma vida social normal e as informações sobre as ocorrências ficam cada vez mais confusas e deturpadas, impossibilitando um bom trabalho de pesquisa.


            2-) A fugacidade do fenômeno


                        Os fenômenos poltergeist ou RSPK (recurrent spontaneous psychokinesis, como os chamamos levando em conta a hipótese de uma ação psicocinética humana) não costumam marcar data nem hora para acontecerem, apesar de em alguns casos haver uma maior freqüência deles em certas partes do dia. (Andrade, 1988) Geralmente, com a presença do(a) pesquisador(a), parece haver uma inibição das ocorrências que cessam para, muitas vezes, recomeçarem quando ele(a) se afasta do local. Isto parece razoável se considerarmos as evidências de que o fenômeno está diretamente relacionado à dinâmica familiar ou grupal das pessoas que convivem naquele lugar. (Rogo, 1974; 1980) Dessa forma, a presença de um estranho alteraria a dinâmica usual desse grupo, por isso inibindo os eventos PK.


            3-) O problema do testemunho


                        Todos sabemos que o testemunho humano é falho. Cada espectador de um determinado evento terá acesso a um dos ângulos da situação. Assim, como na grande maioria das vezes pesquisadores(as) têm acesso a um caso depois que os fenômenos cessaram, apenas o testemunho poderá ajudá-los a encontrar pistas para investigar o ocorrido.


                        Apesar, porém, de ser falho, todo testemunho tem por detrás de si traços da realidade que são como peças de um quebra-cabeça. Juntando pistas trazidas de vários testemunhos, pode-se obter indícios do que realmente ocorre. (Exs.: Bender, 1976; Roll, 1968; 1969; 1972; 1977) Esse juntar de pistas vai depender da habilidade, perspicácia e abordagem do(a) investigador(a).


            4-) Obtenção de informações pessoais que podem ajudar a esclarecer o caso


                        É necessário que haja empatia entre as pessoas envolvidas no caso e os(as) pesquisadores(as) para que se possa levantar a história de vida de cada uma delas e que sejam expostos problemas de relacionamento ou situações estressantes que estejam afligindo o grupo. Nem sempre essa empatia ocorre. O(s) pesquisador(es) tem que ter tato para criar um bom entrosamento e bom senso para saber em que medida pode(m) obter informações sem invadir agressivamente a privacidade dessas pessoas. Isto não é simples. Falhar, nesse sentido, comprometerá toda a investigação. Assegurar o sigilo em relação à identidade das pessoas através de um documento escrito é importante porque ajuda a garantir o respeito à privacidade. Nada impede, porém, que os nomes das pessoas sejam divulgados caso elas não se importem.


            5-) O que fazer com o resultado da investigação?


                        Investigações bem sucedidas costumam envaidecer o(a) pesquisador(a), que tem ímpetos de divulgar aos quatro cantos do mundo seu êxito e a confirmação de suas hipóteses. Esse ímpeto, porém, deve ser refreado em respeito a questões éticas envolvidas nessa situação. Isto é ainda mais complicado quando uma fraude é constatada e tem implicações drásticas na vida familiar ou grupal. Há momentos em que percebe-se que a divulgação ao grupo do resultado da investigação poderá ter conseqüências trágicas. Em outros momentos, é extremamente importante deixar muito claro a todas as pessoas envolvidas o que de fato ocorre naquele ambiente, justamente pelo mesmo motivo que justifica a omissão citada anteriormente.


Três casos em São Paulo


            Como dissemos na introdução deste trabalho, “aparentemente, as fraudes ou erros seguiriam a mesma lógica, em termos psicológicos, dos casos genuínos. A diferença entre eles se encontraria nas vias de ocorrência dos eventos.” Antes de entrarmos em uma discussão mais aprofundada sobre essa questão, passaremos a apresentar resumidamente três casos investigados por nós no Estado de São Paulo, Brasil, que servirão ao mesmo tempo como ilustração e dados empíricos para as especulações teóricas a que nos propomos. Os nomes das pessoas envolvidas nos casos bem como o endereço exato dos locais onde se deram as ocorrências serão omitidos devido a um compromisso de sigilo assumido pelos pesquisadores. Como houve certa repercussão na impressa em relação a certos casos e, por isso, através de detalhes seria fácil identificar certas pessoas, omitir-se-á inclusive o nome da cidade interiorana onde determinados fatos ocorreram.


            Caso 1: Em 1983, uma família da periferia da Zona Leste da cidade de São Paulo entrou em contato com Zangari a fim de esclarecer a respeito de eventos peculiares que ocorriam em sua residência. Assim, o pesquisador esteve presente durante uma semana inteira no local a fim de verificar o que estaria realmente acontecendo. Segundo testemunhas, “…Objetos sumiam para aparecer posteriormente do lado de fora da casa, vultos escuros eram vistos, brisas geladas eram percebidas em determinados pontos da residência e colchões, móveis e roupas eram queimados sem que ninguém tivesse colocado fogo neles. Tudo acontecia às vistas dos moradores da casa (pai, mãe e três filhos) sem que ninguém fizesse o menor movimento. A família, que era espírita, acreditava que tudo fosse causado pela ação de espíritos desencarnados, que agiam por intermédio do filho mais velho, então com 12 anos de idade. Apesar da explicação religiosa encontrada pela família, aceitaram que um pesquisador acompanhasse o caso.” (Machado, 1994: 11; Machado e Zangari, 1995: 42)


            Ocorrências foram diretamente observadas pelo pesquisador. A primeira e mais impressionante aconteceu enquanto a família oferecia um lanche a Zangari na cozinha da casa e conversavam a respeito do caso. Até aquele momento, o pesquisador não observara nenhum evento poltergeist e preparava-se para deixar o local. Então, de repente, a tampa do bule de alumínio que estava sobre a mesa começou a girar violentamente, deu um salto, bateu no teto e voltou à mesa. Todos ficaram atônitos. Nenhuma fraude foi detectada, o que não significa que todos os eventos narrados anteriormente fossem genuínos.


            “Os fenômenos pareciam estar relacionados ao filho de 12 anos. O garoto dizia ser capaz de se comunicar com os vultos que, segundo ele, faziam exigências absurdas: mudar de casa, trocar de carro, deixar o garoto ficar em casa em vez de ir à escola… As exigências eram atendidas, pois a família temia a represália dos espíritos.


            O pesquisador verificou que aparentemente os fenômenos eram utilizados inconscientemente pelo menino como forma de livrar-se de obrigações e também para satisfazer seus desejos e dominar a família. Sendo então estudante de Psicologia, o pesquisador iniciou uma orientação familiar com a finalidade de discutir e redefinir os papéis familiares. À medida que o relacionamento familiar foi recuperando o equilíbrio, os fenômenos foram escasseando até cessarem.”(Machado, 1994: 11; Machado e Zangari, 1995: 43) A família preferiu, então, retornar ao acompanhamento espírita ao qual recorrera no início do caso e perderam o contato com o pesquisador.


            Caso 2: Em 1994, estando em São Paulo, capital, Wellington Zangari ouviu pelo rádio notícias a respeito de “fogos espontâneos misteriosos” que estariam ocorrendo em uma cidade interiorana do Estado.  Relatou a notícia a Fátima Regina Machado e ambos decidiram ir até o local e verificar se seria possível realizar uma investigação sobre os ditos “fogos misteriosos”.


            Não foi difícil encontrar o local das ocorrências, pois toda a cidade sabia do episódio e o lugar já se tornara uma espécie de “atração turística”. O padre local ajudou os investigadores a entrarem em contato com a família que habitava a casa onde os fogos surgiam. Uma primeira entrevista foi agendada para aquele mesmo dia. A família, composta por marido, esposa e dois filhos, uma criança com cerca de seis meses de idade e a outra com cerca de uma ano e meio de idade. Nesse primeiro contato, os pesquisadores se apresentaram, falaram de seu trabalho e, basicamente, colheram dados sobre as ocorrências.             O marido estava muito preocupado. Ganhava pouco, a casa era simples, não tinham muita coisa e aqueles pequenos incêndios estavam destruindo o pouco que tinham, como roupas, panos de prato, cortinas, móveis, revistas e papel higiênico. A esposa era quem estava sempre presente e geralmente identificava os focos de incêndio. As crianças eram muito pequenas e não entendiam o que acontecia. A esposa supunha que aquele fogo, assim como a queda de certas pedras que, segundo ela, foram atiradas “misteriosamente” em seu quintal, e o sumiço de dinheiro seriam fruto da ação de espíritos ou entidades que estariam habitando o local. O marido não sabia como explicar aqueles fatos. O padre tentava tranqüilizá-los e confortá-los através da ajuda espiritual. Nesse primeiro encontro, esses foram os dados levantados. Os pesquisadores passaram dois dias na cidade. Deixaram seu telefone para contato, pedindo para serem informados se as ocorrências se repetissem. Então, retornaram à capital.


            Cerca de três dias depois, a “esposa” telefonou aos pesquisadores pedindo socorro, pois os incêndios tinham-se intensificado. Machado e Zangari, acompanhados do Dr. Paulo Urban, médico psiquiatra e, na ocasião, membro do antigo Eclipsy (hoje, Inter Psi) dirigiram-se novamente ao local das ocorrências, onde permaneceram por três dias. Fizeram um levantamento da história de vida do casal envolvido nas ocorrências, ouviram a versão de vizinhos e presenciaram muitos incêndios supostamente espontâneos, sempre detectados pela “esposa”.


            De acordo com tudo o que foi observado, somando-se o testemunho de vizinhos e as características dos depoimentos dados pelo casal, os pesquisadores desconfiaram tratar-se de uma fraude. Assim, deixaram uma câmera de vídeo ligada registrando todos os movimentos de um determinado local sem que o casal soubesse, enquanto estavam lá aguardando que novos incêndios ocorressem. Efetivamente esses incêndios ocorreram e flagrou-se a fraude, que está registrada. A “esposa”, diante da filmagem, confirmou sigilosamente em um depoimento gravado que estava descontente com seu casamento e estava disposta a acabar com tudo. O padre que acompanhava o caso teve uma longa conversa com ela e dissuadiu-a a continuar utilizando desses artifícios para resolver seus problemas, caso contrário, teria que entregar o caso à polícia, pois ela estava colocando em risco a vida de sua família. Os pesquisadores sugeriram um acompanhamento e uma terapia psicológica para a mulher. Decidiu-se omitir do “marido” a constatação da fraude e sua autoria, pois caso ele tivesse acesso a essa informação, as conseqüências poderiam ser trágicas.


            Segundo informações fornecidas pelo padre tempos depois, não houve mais ocorrências de “fogos misteriosos” naquela casa.


            Caso 3: Em 1996, Machado e Zangari receberam um chamado de uma jovem mulher (JM) que vivia na Zona Sul da capital paulista. Ela descreveu brevemente eventos que lhe pareciam estranhos e aconteciam com certa freqüência em sua residência há algum tempo.  Tratava-se principalmente da quebra de copos e pratos de vidro, do aparecimento e desaparecimento de objetos e da ligação espontânea do rádio-relógio e do aparelho de som. Uma primeira visita foi agendada. Nessa visita, os pesquisadores apresentaram sua forma de trabalho, garantiram o sigilo quanto à identidade das pessoas envolvidas no caso através da assinatura em duas vias de um termo de compromisso, colheram depoimentos sobre as ocorrências e agendaram um novo encontro para dali a dois dias.


            Na residência, um apartamento de dois quartos, sala, cozinha banheiro e área de serviço, vivia um casal sem filhos: JM, a esposa com 36 anos de idade, e LK, o marido com 53 anos de idade. As ocorrências começaram com fortes estalidos que o casal ouvia, vindos da cozinha enquanto ambos assistiam à TV. Na cozinha, aparentemente nada de estranho havia ocorrido, mas depois verificaram que o copo usado por LK para tomar sua habitual dose de uísque antes do jantar estava em pé em cima da pia, mas quando tocado, partia-se. O fundo saia, como se tivesse sido cortado com diamante. Isto aconteceu por várias vezes, sempre com o copo utilizado por LK.


            Por duas vezes, em madrugadas de terça para quarta-feira, às três horas da manhã, o casal foi acordado na primeira vez pelo rádio-relógio do quarto que ligou-se sozinho e, na segunda vez, pelo aparelho de som da sala – “xodó” de LK – que ligou-se sozinho no último volume. Vale dizer que o rádio relógio fica no criado mudo do lado em que LK dorme. Uma fronha amarela, com velcro, típica de travesseiro de criança apareceu, segundo o casal, misteriosamente no quarto deles. Um conjunto de vasos de violetas preso a um suporte único que ficava no banheiro desprendeu-se misteriosamente, sem romper as correntes e sem danificar o suporte preso à parede, indo espatifar-se no chão. Nenhuma janela estava, então aberta; não havia correntes de ar. Um prato, utilizado por LK para jantar e depositado sobre a pia, foi encontrado no dia seguinte: parte em cacos dentro da pia, limitando-se a um dos lados da cuba, e outra parte, meia borda, no chão, virada para baixo, como que cortada com um diamante.       


            Foram realizadas, ao todo, três visitas de cerca de três horas ao local. Essas visitas ocorreram em um intervalo de vinte dias. Desde que os pesquisadores começaram a lidar com o caso, nenhum dos eventos descritos ou qualquer outro do mesmo tipo voltou a acontecer.


            Depois de longas conversas com o casal acerca de seu relacionamento e de seus hábitos de vida – detalhes que não cabe aqui colocar, não só pelo limite de espaço, mas também pelo sigilo assumido – concluiu-se que JM desejava ardentemente ter um filho e LK, que a princípio resistia a essa idéia, depois passou a não dar importância a ela. O casal confessou que discutia freqüentemente sobre o assunto e JM colocava no marido a culpa por não conseguir engravidar. Ela, que tentava engravidar há meses e não conseguia, fez uma série de exames e constatou ter perfeitas condições físicas para ser mãe. Pediu ao marido para que fizesse exames para verificar se tinha algum problema. Ele recusava-se a fazê-los. Para JM, uma família só seria completa se composta por pai, mãe e filhos. Ela conserva o segundo quarto da casa decorado como um quarto infantil, cheio de brinquedos e bonecas. Demonstrou ter muito ciúme especialmente de uma boneca, não permitindo nem que a pesquisadora a tocasse.


            As ocorrências narradas pareciam todas traquinagens de criança. Aparentemente, JM estaria punindo LK por seu desinteresse em ter filhos, quebrando e bulindo com suas coisas. Quando deu-se conta disso, JM ficou estarrecida. Depois de uma breve terapia de casal, LK disse que faria os exames e ambos se comprometeram a realizar exames encefalográficos para serem arquivados junto com os dados colhidos. Foram aplicados testes psicológicos ao casal. Machado e Zangari ainda não receberam os EEGs prometidos. Até onde se tem notícia, os fenômenos cessaram.<!–[if !supportFootnotes]–>[2]<!–[endif]–>


Especulações Teóricas


            Apresentamos três casos de aparente RSPK em que parecia haver, por trás das manifestações apresentadas, intenções relacionadas à vida psicológica e grupal dos indivíduos que vivenciaram tais ocorrências. O primeiro caso, em que o pesquisador foi testemunha das ocorrências, parecia haver uma intenção de controle familiar por parte do menino de 12 anos. Os fenômenos aparentemente parapsicológicos teriam servido como ferramenta utilizada com a finalidade de manipular a família em função da satisfação de seus desejos. O caso que demonstrou ser fruto de uma fraude, da mesma forma, parece estar ligado a uma intenção da “esposa” em se livrar de seus familiares e retomar à trajetória de vida que havia preparado para si, abandonada por conta do novo papel de esposa e mãe de família. De certa forma, suas fraudes conseguiam, a um só tempo, mudar sua vida, transformando-a em alvo de atenções e justificar a eliminação de sua família, posto que o risco de vida a que submetia os filhos era extemamente grande. O terceiro caso, por sua vez, também parece resultar de uma dupla intenção de JM: de punição do parceiro por supostamente ser ele o “responsável” pela ausência de filhas(os) no lar e pela presentificação da figura de filhas(os) na casa.


            Muito se discute em relação à realidade ontológica dos fenômenos físicos de tipo RSPK, levando a questão exclusivamente para uma apreciação física dos mesmos. Haveria ou não tais ocorrêncas? A análise psicológica realizada nos três casos apresentados pode, no entanto, demonstrar que ainda que os casos não sejam genuínos eles podem ter uma lógica, uma gramática comum. Se, de fato, qualquer caso aparentemente RSPK pode representar intenções daqueles(as) que os vivenciam, é uma questão aberta para a análise. Muitos mais casos seriam necessários para que uma conclusão nesse sentido fosse amplamente aceita e adotada. No entanto, nosso esforço se dá no sentido de que mais casos fraudulentos sejam levados a sério e relatados pelos(as) pesquisadores(as). Existe uma tendência ao desprezo de casos em que fraudes foram observadas por considerá-los de importância menor para a Parapsicologia. A ela apenas importariam os casos em que, de fato, ocorreriam manifestações PK genuínas. Porém, quando podemos assegurar que “de fato” estas ocorreram? Mesmo quando o(a) pesquisador(a) presencia ocorrências físicas aparentemente parapsicológicas, não se pode afirmar que ali aconteceram de fato manifestações parapsicológicas. Sem querermos nos aprofundar em questões que beiram o processo de aquisição da ciência do ponto de vista epistemológico, queremos lembrar que nossa percepção está condicionada às nossas expectativas e nossas interpretações às nossas crenças. A ciência não é um conhecimento confiável porque é isento de subjetividade, mas porque reconhece tal subjetividade em sua prática. Negar as fraudes como objeto de nosso interesse é, como parecem indicar os casos apresentados, negar uma possível natureza psicológica comum presente nos casos aparentemente RSPK genuínos e não genuínos.


            O que estamos defendendo é que estejamos mais atentos aos sujeitos. Que não estejamos apenas preocupados com a genuinidade dos fenômenos, mas também, e de forma especial, com as suas relações com as pessoas que estão relacionadas de uma forma ou de outra a eles. Que não esqueçamos que, antes de estudarmos fenômenos isolados, estudamos pessoas que parecem manifestar certos fenômenos. A gramática comum parece relacionar pessoas e suas manifestações, ainda que não genuínas no sentido parapsicológico tradicional, de maneira tal que parece impossível analisá-los isoladamente.


            A crítica que se pode fazer às análises e às interpretações que apresentamos é de ordem metodológica. Poderia-se criticar o fato de que as interpretações, ou hipóteses levantadas foram demasiadamente subjetivas, não existindo indicadores mensuráveis, objetivos, que pudessem representar uma base empírica para elas. Não temos dúvidas que valeria a pena recolher mais dados, por exemplo, com o emprego de testes psicológicos objetivos para que a análise correlacional entre os casos pudesse oferecer maior solidez para as hipóteses (Alvarado, 1993). No entanto, não podemos esquecer que o método clínico utilizado, ofereceu não apenas a base teórica para a compreensão dos fenômenos analisados, mas uma abordagem prática para testar as hipóteses, também clinicamente. O efeito que a abordagem clínica apresentou pode representar uma espécie de comprovação das hipóteses levantadas, da mesma maneira como no método experimental temos o controle de variáveis e o respectivo efeito em diferentes grupos. De forma alguma afirmamos que o método clínico seja o melhor. Apenas supomos que ele pode ser tão útil quanto outros métodos, sobretudo se for utilizado em conjunto com outros métodos.


Considerações Finais


            As dificuldades da realização de uma pesquisa de casos supostamente poltergeist devem ser vencidas com habilidade, sensibilidade e ética por parte dos(as) pesquisadores(as). Mas, antes de tudo, esses(as) profissionais devem estar conscientes das mesmas para que saibam como proceder ao se depararem com elas. Esse foi nosso objetivo ao apresentar algumas das dificuldades que enfrentamos constantemente em nossas pesquisas. 


            Vencidas as dificuldades de ordem prática, temos que lidar com aquelas mais sutis, relacionadas ao método e à análise interpretativa de nosso objeto de estudo. Nesse sentido, defendemos a idéia de que os casos sejam analisados do ponto de vista psicológico, tanto individual quanto grupal, já que há evidências de que a natureza de RSPK é psicológica. (Bender, 1976; Duncan & Roll, 1995; Roll, 1968; Rogo, 1974) O método clínico nos pareceu útil para lançar hipóteses e testá-las de forma empírica. Nossa principal conclusão é de que há uma gramática psicológica que interliga os casos que supostamente envolvem RSPK mesmo que estes sejam fraudulentos.


            Uma última questão que gostaríamos de mencionar diz respeito à abordagem psicopatológica (Quevedo 1982; 1983; Roll, 1984), que freqüentemente é utilizada nos países ibero-americanos para a interpretação dos casos aparentemente poltergeist. Não vemos nela qualquer validade empírica. A visão psicopatológica baseada mais em um modelo médico que psicológico parece ter se tornado o padrão analítico utilizado pelos(as) parapsicólogos(as) ibero-americanos. Por razões teóricas relacionadas à interpretação e ao valor que sintomas ocupam em nossa vida mental, supomos que seria mais lícito afirmar que os fenômenos aparentemente parapsicológicos de efeitos físicos seriam uma representação simbólica da vida psíquica dos sujeitos. Da mesma forma como os sonhos não podem, em si mesmos, ser considerados como sinal de psicopatologia, fenômenos desse tipo também não o seriam. Assim, nossa análise sustenta que PK não seria, necessariamente, um aspecto negativo de nossas personalidades ou o resultado de desequilíbrios psico-fisiológicos de doentes mentais. Os casos que apresentamos dão conta de que possíveis fenômenos parapsicológicos, ou fraudes deliberadas, se apresentaram como instrumento de expressão de intenções, como soluções possíveis de conflitos que, longe de serem doentios, estão presentes em cada ser humano. A forma de resolução é que nos diferencia. Pensada de forma positiva, PK pode ser compreendida mais como uma forma de proteção do ego contra uma dissolução do que como resultado de sua fragmentação (Lima, 1994). Quando propusemos às pessoas envolvidas em casos supostamente RSPK que falassem a respeito de seus sentimentos e de suas relações inter-pessoais – uma quase-terapia – não esperávamos que então necessariamente os fenômenos relatados por elas cessariam. Mas o fato é que, quando se criou um ambiente propício para que expressassem verbalmente seus sentimentos, os fenômenos se extinguiram, dando lugar a uma nova forma de resolução dos afetos, diferente, talvez  mais adequada, mas tão saudável quanto a primeira.


            Apesar dos bons caminhos que as análises psicológicas nos permitem abrir na análise de casos como os apresentados, muito ainda há para percorrer. Não sabemos, por exemplo, porque estas pessoas recorrem a tais expedientes supostamente parapsicológicos ou fraudulentos, e não a outros, nem sabemos porque tais mecanismos não seriam empregados por mais que uma inexpressiva quantidade de pessoas. Perguntas que apenas a pesquisa sistemática poderá responder.

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