Falece um dos pilares da sociologia brasileira

Na tarde do último dia 4, faleceu o sociólogo Octavio Ianni (77), professor emérito da Unicamp onde ainda lecionava no curso de pós-graduação de Ciências Sociais. A trajetória intelectual de Ianni merece destaque por sua importância para a constituição da moderna sociologia brasileira e faz de sua obra um relevante legado para o pensamento social no Brasil.


Maria Arminda do Nascimento Arruda, professora do departamento de sociologia da USP e secretária executiva da Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (Anpocs), afirma que Ianni desempenhou um papel central na institucionalização da moderna sociologia no Brasil, “uma sociologia que introduziu procedimentos rigorosos no plano da pesquisa sem dispensar uma articulação com a teoria”. A socióloga lembra que o intelectual que concebeu este modelo no Brasil foi Florestan Fernandes, do qual Octavio Ianni foi um discípulo dileto.


Iniciando sua trajetória acadêmica na USP, onde seguiu seus estudos de pós-graduação, Ianni publicou a obra “Cor e Mobilidade Social em Florianópolis: aspectos das relações entre negros e brancos numa comunidade do Brasil Meridional”, em 1960, em parceria com Fernando Henrique Cardoso. Um ano depois, defendeu seu doutorado com a tese “O Negro na Sociedade de Castas”. Estes trabalhos o incluem na chamada Escola Paulista de Sociologia, conhecida pelo desenvolvimento de pesquisas sobre as relações raciais no Brasil a partir de um novo ângulo: o da desigualdade e da discriminação racial, relacionadas à modernização e à situação das classes sociais no país.


“Os trabalhos de Octavio Ianni, juntamente com os de Florestan Fernandes e de Fernando Henrique Cardoso inauguraram uma nova fase dos estudos sobre os negros no Brasil, rompendo com a tendência culturalista que predominava até então”, afirma Carlos Vogt, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).


Ainda no quadro da modernização e dos estudos sobre classes sociais, Ianni desenvolveu pesquisas e análises sobre as questões da industrialização, do fenômeno político do populismo, da luta de classes no campo e da configuração que o capitalismo recebe no país. No que diz respeito a estes temas, pode-se destacar as obras Industrialização e Desenvolvimento Social no Brasil(1963), O Colapso do Populismo no Brasil (1968), A Formação do Estado Populista na América Latina (1975), A Luta pela Terra (1977), A Ditadura do Grande Capital (1981), Dialética e Capitalismo (1987).


Recentemente, o sociólogo dedicava-se à análise dos impasses postos pelo fenômeno da globalização. “É interessante perceber como ele é um autor que se debruça sobre os temas candentes da sociedade brasileira, ao mesmo tempo em que trata, principalmente em anos mais recentes, de questões centrais e mais gerais do mundo contemporâneo”, ressalta Arruda.


Além do legado para o pensamento social brasileiro deixado pelo intelectual, Carlos Vogt ressalta que Ianni “não era um quantitativo que seguisse a tradição da sociologia norte-americana, [mas] era um intelectual que privilegiava a reflexão sobre as grandes questões nacionais e mundiais, tal como vinha fazendo ao tratar das novas relações sociais no ínterim das inovações tecnológicas e do globalismo”. O presidente da Fapesp diz ainda que o sociólogo possuía rigor intelectual e cultivava um estilo militante na defesa das suas convicções. “Acredito que este era o seu lado mais cativante, o que talvez explicasse o fato dele estar sempre rodeado e na companhia dos jovens”, opina.


O fascínio que Ianni exercia sobre a juventude também é lembrado por Maria Arminda do Nascimento Arruda: “Ele tinha uma grande abertura para o diálogo com as novas gerações, para o respeito no debate das idéias, e neste campo específico, ele nunca recuou diante do desafio de colocar o dedo na ferida das questões sociais brasileiras”.


Nascido em 1927, Octavio Ianni recebeu o Prêmio Jabuti, em 1993, pela obra A Sociedade Global (1992), foi premiado pela Academia Brasileira de Letras, em 2001, com a publicação Enigmas da Modernidade-Mundo (2000), e recebeu no mesmo ano o Troféu Juca Pato, de Intelectual do Ano, concedido pela União Brasileira de Escritores.

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