Fernando affonso collor de mello

Fernando Affonso Collor de Mello (Rio de Janeiro, 12 de agosto de 1949) é um empresário e político brasileiro, atualmente filiado ao Partido Trabalhista Brasileiro. Foi o primeiro presidente da República eleito por voto direto após o Regime Militar, em 1989, pelo período de 1990 e 1992.


O governo foi marcado pela implementação do Plano Collor, pela abertura do mercado nacional às importações e pelo início do Programa Nacional de Desestatização.


Renunciou ao cargo na tentativa de evitar um processo de impeachment fundamentado em acusações de corrupção. Embora tenha renunciado, Fernando Collor teve seus direitos cassados por oito anos por determinação do Senado Federal, e só foi eleito novamente para cargo público em 2006, tomando posse como senador por Alagoas em 2007.



 Biografia


 

Filho de Arnon Afonso de Farias Melo e Leda Collor, nasceu na então capital da República, mas viveu a infância e juventude entre as cidades de Maceió, Rio de Janeiro e Brasília em razão da carreira política do pai concluindo os estudos secundários na nova capital federal, onde estudou economia e graduando-se pelo UPIS (União Pioneira de Integração Social) retornando a Maceió em 1972 para dirigir o jornal Gazeta de Alagoas tornando-se no ano seguinte superintendente das Organizações Arnon de Mello, de propriedade de sua família. A seguir assumiu a presidência do CSA e contratou Luiz Felipe Scolari como treinador da equipe que se sagrou campeã estadual em 1982 naquela que foi a primeira experiência do gaúcho como técnico de futebol. Antes de voltar ao Nordeste foi estagiário no Jornal do Brasil e corretor de valores. Seu avô materno, Lindolfo Collor, foi eleito deputado federal pelo Rio Grande do Sul nos anos de 1923 e 1927 e foi um dos líderes da Revolução de 1930 sendo nomeado por Getúlio Vargas o primeiro titular do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, de onde se afastou em 1932 ao romper com o presidente, tendo participado da Revolução Constitucionalista daquele ano. Seu pai foi eleito deputado federal em 1950, governou Alagoas entre 1951 e 1956 e foi eleito senador em 1962, 1970 e 1978, falecendo no exercício do mandato.



 “Caçador de marajás”


Fernando Collor iniciou sua carreira política na ARENA e foi nomeado prefeito de Maceió em 1979 pelo então governador Guilherme Palmeira, cargo ao qual renunciou em 1982, ano em que foi eleito deputado federal pelo PDS. Nessa qualidade votou a favor das Diretas Já em 25 de abril de 1984 e com a derrota dessa proposição votou em Paulo Maluf no Colégio Eleitoral em 15 de janeiro de 1985. Filiou-se depois ao PMDB e seria eleito governador de Alagoas em 1986, na esteira do sucesso do Plano Cruzado, quando os candidatos apoiados pelo Presidente José Sarney venceram em 22 dos 23 estados do Brasil, derrotando o candidato do PFL, senador Guilherme Palmeira, o homem que anos antes abrira as portas de sua carreira política.


Durante sua gestão empreendeu estrategicamente um combate a alguns funcionários públicos que recebiam salários altos e desproporcionais. Com vistas a angariar apoios na campanha presidencial que estava por vir, a imprensa o tornou conhecido nacionalmente como “Caçador de Marajás”. Orientado por profissionais de marketing, anunciou com estardalhaço a cobrança de 140 milhões de dólares dos usineiros do estado para com o Banco do Estado de Alagoas, havendo diversas repercussões positivas na imprensa. Entre uma disputa e outra teve seu mandato ameaçado ora por uma ameaça de intervenção federal no estado (fruto de sua recusa em pagar os altos salários aos “marajás” após a vitória destes em julgamento do Supremo Tribunal Federal) ora por um pedido de impeachment devido ao seu programa de enxugamento da máquina administrativa alagoana, feito à base de demissões de funcionários públicos e extinção de cargos, órgãos e empresas públicas.



 Presidenciável


Graças a essa postura de “guardião da moralidade” Collor fez uso de uma elaborada estratégia de marketing com o fito de captar os temas e anseios que permeavam a população. Segundo os jornalistas Mário Sérgio Conti e Cláudio Humberto Rosa e Silva, seu discurso reproduzia o que diziam os institutos de pesquisa variando conforme a necessidade momentânea, fosse o combate à corrupção ou a vertiginosa taxa de inflação, por exemplo. Em 21 de outubro de 1987 foi o único dos governadores peemedebistas a defender um mandato de quatro anos para o presidente Sarney, o que anteciparia as eleições para o ano seguinte, e dentro desse contexto sua intenção de disputar o cargo passou de simples cogitação a intenção real e nisso movimentou-se junto ao PMDB apresentando-se ora como candidato à vice-presidência numa chapa encabeçada pelo senador Mário Covas, ora tencionando a indicação do partido, mesmo que isso significasse enfrentar o vetusto deputado federal Ulysses Guimarães. Em 1988, deu uma entrevista para a Rádio JB afirmando ainda não ser candidato.


Fiel a sua estratégia rumo ao Palácio do Planalto elegeu o governo José Sarney como responsável por todas as mazelas e descalabros político-administrativos que assolavam o país naquele momento, postura que o levaria a deixar o partido e a ingressar no PRN, sucedâneo do minúsculo e irrisório Partido da Juventude (PJ), e que o levou a apresentar-se como candidato ao eleitorado brasileiro em 1989 através de uma série bem elaborada de programas de televisão. Desde então, passou à condição de alternativa conservadora às eleições daquele ano, cujo panorama apontava dois nomes de esquerda como os preferidos do eleitorado: Leonel Brizola e Luiz Inácio Lula da Silva. Exemplo disso pode ser verificado no livro que Pedro Bial lançou a respeito do jornalista Roberto Marinho onde o autor relata que o patriarca das Organizações Globo fixou-se inicialmente em Jânio Quadros como seu candidato a presidente. Contudo, como o veterano político sul-matogrossense radicado no estado de São Paulo vivia o ocaso de sua carreira política, Marinho fez nova opção pelo então governador paulista Orestes Quércia, considerado um nome mais palatável que os de Mário Covas e Ulysses Guimarães. Entretanto, como as articulações em torno de Quércia malograram, e tanto Covas quanto Ulysses lançaram suas candidaturas em um cenário já favorável a Lula (uma “ameaça socialista” aos interesses da sociedade) e Brizola (rejeitado por Roberto Marinho devido a possibilidade de revogar sua concessão de TV caso eleito), não restou outra alternativa a Marinho senão hipotecar seu apoio a Fernando Collor, opção mais que evidente quando do último debate presidencial daquela campanha, editado de modo a favorecer-lhe o desempenho ante o adversário Lula.



 Eleições presidenciais


Renunciou ao Governo de Alagoas em 14 de maio de 1989, transferindo o cargo a Moacir Andrade. Em seguida, iniciou as articulações para a formação de uma chapa viável de modo a compensar a tibieza de sua origem política em um dos menores estados da federação e, nesse contexto, fixou-se na escolha de um candidato a vice-presidente oriundo do segundo maior colégio eleitoral do país, o estado de Minas Gerais, escolha que recaiu sobre o senador Itamar Franco após as recusas de políticos como Hélio Garcia e Júnia Marise.


Discreto ao longo de toda a campanha, seu candidato a vice ameaçaria renunciar à candidatura por mais de uma vez mesmo após a sanção da chapa na convenção nacional do PRN, fato que não chegou a ocorrer. Durante a campanha cerrou seu discurso no combate a corrupção e aos altos índices de inflação apontando ainda o governo Sarney como inepto, chegando até a classificar o presidente como alguém “corrupto, incompetente e safado”, o que lhe custou um direito de resposta no horário eleitoral e um processo por calúnia, injúria e difamação, mas nada que impedisse sua ascensão ao primeiro lugar nas pesquisas de opinião, embora Fernando Collor não tenha comparecido a nenhum debate promovido pelos meios de comunicação durante o primeiro turno da eleição.


Sua performance o credenciou a receber o apoio do espectro político conservador como o do PFL, que aderiu em massa à sua candidatura ainda no começo da campanha, embora o partido tivesse Aureliano Chaves como candidato oficial. Em 15 de novembro recebeu 20 611 011 votos contra 11 622 673 sufrágios dados a Luiz Inácio Lula da Silva e, assim, os dois candidatos passaram ao segundo turno que se realizaria em 17 de dezembro. Além de Leonel Brizola – que perdeu a vaga no segundo turno por uma diferença de aproximadamente 455 mil votos – foram alijados da disputa políticos oriundos do estado de São Paulo como Mário Covas, Paulo Maluf, Ulysses Guimarães e Afif Domingos, dentre outros listados na relação de mais de vinte postulantes ao Planalto, oriundos de diferentes estados do país. Ao longo de um mês de campanha no segundo turno, as forças políticas se reagruparam com vistas ao embate derradeiro e nisso Lula recebe o apoio de Brizola, Covas, Ulysses e Roberto Freire, ao passo que Fernando Collor capitaneou o espólio de Maluf e Afif.


A sociedade civil também se manifestou a respeito de tão renhida disputa: o candidato do PT recebeu o apoio majoritário dos sindicatos, dos movimentos sociais organizados e do MST em contraposição ao suporte maciço dado ao candidato do PRN pelos empresários, meios de comunicação e pelos grandes latifundiários enquanto que a Igreja Católica se dividiu. Com o decorrer da campanha as pesquisas de opinião mostravam uma diferença cada vez menor entre os concorrentes e com isso a postura de Collor recrudesceu e atingiu seu ponto crítico quando o programa eleitoral do PRN exibiu um depoimento de Miriam Cordeiro, ex-namorada de Lula, que acusava o petista de ter urdido o aborto de Lurian, filha do casal. Paralelo a isso associou o adversário ao comunismo ao tempo em que a Cortina de Ferro ruía no leste europeu e a União Soviética dava os primeiros sinais de exaustão. A retórica “collorida” ganhou consistência quando houve a queda do Muro de Berlim em 9 de novembro de 1989 e ainda antes da eleição o seqüestro do empresário Abílio Diniz acabou associado a grupos de esquerda interessados na vitória de Lula. Em meio a essa efervescência o candidato do PRN repetia à exaustão seu plano de governar para os “descamisados” e os “pés descalços” (numa alusão ao eleitorado mais humilde) de modo a fugir do estigma de “candidato da elite”.


Abertas as urnas o candidato do PT chegou a liderar parte da apuração, devido ao fato da apuração das capitais ser mais rápida que a das urnas do interior, mas ao final a vitória coube a Fernando Collor que obteve 35.089.998 votos contra 31.076.364 votos dados a Lula que ainda viria a ser derrotado em primeiro turno nas disputas de 1994 e 1998 pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso antes de vencer, em segundo turno, as eleições presidenciais de 2002 e 2006.


De modo geral, o país votou em Collor. Fernando Collor ganhou em todos os estados com exceção de Pernambuco, do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. O Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro conseguiram transferir os votos de Brizola para Lula, em São Paulo o fenômeno foi a transferência de votos de Covas para Collor, ainda que Covas, pessoalmente, tenha apoiado Lula.


Politicamente o fiel da balança foi São Paulo. Ainda que a vitória dada pelos paulistas não tenha sido tão expressiva quanto o que aconteceu em outros estados, como Goiás, por exemplo, que votou quase 70% a favor de Collor, se a diferença de votos a favor de Collor em São Paulo (2.534.125) fosse convertida para Lula, o PT ganharia a eleição.


Sobre o Governo Collor este teria uma duração de dois anos e meio sendo que seu titular assumiu a presidência aos quarenta anos e sete meses de idade, o mais jovem político a assumir esse cargo em nossa história. Antes de sua posse viajou rumo aos Estados Unidos e à Europa buscando o apoio dos organismos financeiros internacionais à sua proposta de renegociação da dívida externa brasileira, aproveitando também para expor seus planos para a nossa economia. Visando a integração do Brasil aos seus vizinhos sul-americanos viajou também para a Argentina e o Uruguai.



 Governo Collor


Oriundo de um estado onde vieram os dois primeiros presidentes da Republica e filiado a uma legenda pequena logo o novo presidente sentiu a necessidade de compor uma base de sustentação capaz de permitir a implementação de seu programa de governo, ainda que o próprio Collor não fosse afeito a ciceronear os parlamentares em seus contatos políticos com vistas a aprovar os projetos de seu interesse. Tal aversão criou um distanciamento entre o chefe do executivo e a maioria dos parlamentares que lhe hipotecavam apoio, mas em regra seu governo contava com o suporte de políticos do PFL, PDS, PTB, PL, de partidos conservadores de menor vulto e dissidentes ocasionais.


Nas eleições de 1990 seus aliados venceram no Distrito Federal e na maioria dos estados com destaque para o PFL que elegeu nove governadores, seis dos quais no Nordeste. Tal desempenho compensou as derrotas sofridas em grandes colégios eleitorais como São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, por exemplo. O curioso é que embora o PRN (partido de Fernando Collor) tenha elegido dois senadores e quarenta deputados federais não fez nenhum governador. No legislativo o PMDB manteve a maior bancada tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal e com isso conservou o comando do congresso para o biênio seguinte, situação em vigor desde o retorno dos civis ao poder em 1985. Ao longo do ano de 1991 investiu grande parte de seu capital político numa negociação destinada a levar o PSDB a integrar as fileiras situacionistas, negociação malograda, sobretudo, ante as recusas de Mário Covas e Franco Montoro, o então presidente nacional da legenda tucana.


Em maio de 1990 indica seu primo, Marco Aurélio de Mello, para vaga no Supremo Tribunal Federal.


Quanto à sua equipe as mudanças ocorreriam logo nas duas semanas posteriores à posse quando Joaquim Domingos Roriz deixou a pasta da Agricultura e em outubro de 1990 Bernardo Cabral foi substituído no Ministério da Justiça pelo experiente senador Jarbas Passarinho. No entanto, a mudança mais significativa viria em maio de 1991 quando o embaixador Marcílio Marques Moreira assumiu o Ministério da Economia confirmando o apreço de Collor por indivíduos de perfil técnico e acadêmico em detrimento dos “políticos de carreira”, tendência que só seria revertida em 1992 quando realizou duas reformas em sua equipe: uma em abril e outra às vésperas de seu afastamento quando abriu espaço aos quadros políticos conservadores.


O curioso é que ao tomar posse o número de ministros nomeados por Collor era o menor dos trinta anos anteriores a 1990 e dentre os agraciados com um cargo no primeiro escalão estava sua também prima Zélia Cardoso de Mello, nomeada Ministra da Economia. Convidou também o ex-jogador de futebol Artur Antunes Coimbra, o Zico, que logo deixaria o cargo. Com o tempo o insucesso de sua política econômica e as freqüentes denúncias envolvendo seus auxiliares diretos (incluída a primeira-dama Rosane Malta, presidente da Legião Brasileira de Assistência) redundaram em um desgaste progressivo de seu governo.



 Impeachment


A maior crise enfrentada pelo governo Collor tomou forma em junho de 1991 graças a uma disputa envolvendo seu irmão Pedro Collor e o empresário Paulo César Farias a partir da aquisição, por este último, do jornal Tribuna de Alagoas visando montar uma rede de comunicação forte o bastante para eclipsar a Gazeta de Alagoas e as Organizações Arnon de Mello. Contornada em um primeiro instante, a crise tomou vulto ao longo do ano seguinte, possuindo como ápice reportagem da revista IstoÉ trazendo matéria bombástica com o motorista de Collor, Eriberto França. A situação de Collor estava cada vez mais insustentável, até fortes aliados na imprensa, como o grupo Abril (revista Veja) passaram a fazer denúncias. A Veja trouxe uma matéria na qual o caçula do clã carioca-alagoano acusava o empresário PC Farias de enriquecer às custas de sua amizade com o presidente, algo que teve desdobramentos nos meses vindouros: em 10 de maio Pedro Collor apresentou à revista Veja um calhamaço de documentos que apontavam o ex-tesoureiro de seu irmão como o proprietário de empresas no exterior e como as denúncias atingiam um patamar cada vez mais elevado a família interveio e desse modo o irmão denunciante foi removido do comando das empresas da família em 19 de maio por decisão de sua mãe, dona Leda Collor.


Oficialmente afastado por conta de “perturbações psicológicas”, Pedro Collor não tardou a contra-atacar: primeiro apresentou um laudo que atestava sua sanidade mental e a seguir concedeu nova entrevista a Veja em 23 de maio na qual acusou PC Farias de operar uma extensa rede de corrupção e tráfico de influência na qualidade de “testa-de-ferro” do presidente, o qual não reprimia tais condutas por ser um beneficiário direto daquilo que ficou conhecido como “esquema PC”. Quarenta e oito horas depois a Polícia Federal abriu um inquérito destinado a apurar as denúncias de Pedro Collor e no dia seguinte o Congresso Nacional instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar a veracidade das acusações. Presidida pelo deputado Benito Gama do PFL da Bahia e relatada pelo senador Amir Lando do PMDB de Rondônia, a CPI foi recebida com certo desdém pelo governo, a ponto de Jorge Bornhausen, então chefe da Casa Civil, ter declarado que a comissão “não levaria a lugar nenhum”.


Pouco tempo depois Fernando Collor foi à televisão e rechaçou as denúncias feitas contra sua administração e com isso sentiu-se à vontade para conclamar a população a sair de casa vestida em verde e amarelo em protesto contra as “intenções golpistas” de determinados setores políticos e empresariais interessados em apeá-lo do poder. O apelo pareceu ter dado certo: no dia 12 de Agosto, quando completou 43 anos, foi homenageado por empresários, políticos, cantores, artistas e admiradores, parecendo até que tudo seria esquecido, havendo ampla cobertura midiática desse apoio. Entretanto, teve na verdade um efeito inverso ao que originalmente se propunha, pois o que se viu às ruas foram as manifestações de jovens estudantes denominados caras-pintadas, em referência às pinturas de seus rostos que, capitaneados pela União Nacional dos Estudantes exigiam o impeachment do presidente numa cabala resumida no slogan “Fora Collor!” repetida à exaustão em passeatas por todo o país a partir de 16 de agosto. Segundo a opinião de diversos sociólogos e cientistas políticos[carece de fontes?], foi essa mobilização estudantil, (reforçada pela participação da sociedade civil organizada, o que aos poucos fez com que os meios de comunicação fossem abandonando Collor), o fator decisivo para que as investigações da CPI avançassem e não fossem turvadas pela interferência governamental, ou seja, sem essa cobrança por parte da sociedade o afastamento de Collor provavelmente não teria ocorrido, ainda que o “embrião estudantil” da mesma tenha sido taxado inicialmente por setores da imprensa como algo “desprovido de idealismo e coerência política” à mercê da manipulação de grupos políticos de esquerda. Enquanto isso as apurações na CPI colhiam, paulatinamente, uma série de depoimentos e também de documentos escritos que corroboravam os indícios da atuação de Paulo César Farias nos bastidores do poder.


Em 26 de agosto o relatório final da “CPI do PC” foi aprovado e nele constava a informação de que o presidente da República e seus familiares tiveram despesas pessoais pagas pelo dinheiro recolhido ilegalmente pelo “esquema PC” que distribuía tais recursos por meio de uma intrincada rede de “laranjas” e de “contas fantasmas”. Como exemplos materiais desse favorecimento foram citadas a reforma na Casa da Dinda (residência de Fernando Collor em Brasília) e a compra de um automóvel Fiat Elba. Cópias do relatório foram entregues para a Câmara dos Deputados e para a Procuradoria Geral da República, e um pedido de impeachment foi formulado tendo como signatários o jornalista Barbosa Lima Sobrinho, presidente da Associação Brasileira de Imprensa, e o advogado Marcelo Lavenére, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil. Entregue ao deputado Ibsen Pinheiro, presidente da Câmara dos Deputados, o pedido de abertura do processo de impeachment foi aprovado em 29 de setembro por 441 votos a favor e 38 votos contra, com uma abstenção e 23 ausências.


Sobre o dia da votação (transmitida para todo o país pelos meios de comunicação, que já haviam abandonado definitivamente Collor) vale registrar que a mesma transcorreu sob a égide do voto aberto e isso fez com que os deputados pensassem em sua sobrevivência política dada a proximidade das eleições municipais de 1992 e o desejo de reeleição em 1994, assim muitos parlamentares optaram pelo “sim” no momento decisivo apesar de promessas em sentido contrário, ou seja, votos que eram contabilizados para o governo migraram para o bloco do impeachment, dois dos quais merecem destaque o caso do deputado Onaireves Moura (do PTB do Paraná), que dias antes organizara um jantar de desagravo ao presidente e a seguir o voto do alagoano Cleto Falcão, ex-líder do PRN na Câmara e amigo íntimo de Collor, demonstrando assim o total isolamento do presidente. Para aprovar a abertura do processo de impeachment seriam necessários 336 votos e o sufrágio decisivo ficou a cargo do deputado Paulo Romano do PFL mineiro.


Afastado da presidência da República em 2 de outubro, foi julgado pelo Senado Federal em 29 de dezembro de 1992. Como último recurso para preservar seus direitos políticos, Collor renunciou ao mandato antes do início do julgamento, mas a sessão teve continuidade. O julgamento foi polêmico e alguns juristas consideraram que o julgamento, após a renúncia, não deveria ter acontecido. Foi condenado à perda do cargo e a uma inabilitação política de oito anos pelo placar de 76 votos a 5 numa sessão presidida pelo ministro Sidney Sanches, presidente do Supremo Tribunal Federal. Retificando o resultado do julgamento, foi publicada a Resolução nº 101 do Senado Federal, no DCN (Diário do Congresso Nacional), Seção 11, do dia 30/12/1992, Art. 1º, que considerou prejudicado o pedido de aplicação da sanção de perda do cargo de Presidente da República do Brasil, em virtude da renúncia ao mandato. Seu desgosto com o afastamento foi tamanho que ele chegou a pensar em suicídio, conforme entrevista dada ao programa Fantástico da Rede Globo em 2005.


 


 Depois da presidência


Collor foi sucedido pelo vice-presidente Itamar Franco que exercia o cargo interinamente desde seu afastamento em 2 de outubro. Em entrevista coletiva, Collor, declarou que o seu ato, a tentativa de renúncia, se devia ao seu apreço pela democracia, ameaçada, segundo ele, por uma “elite política avessa a necessidade de modernização do país” e de poderio tão avassalador que teria levado Getúlio Vargas ao suicídio em 1954 e Jânio Quadros à renúncia em 1961.


Depois ingressou no Superior Tribunal de Justiça visando reaver seus direitos políticos, preservados, conforme disse, pelo fato de que sua renúncia ocorreu antes de aberta a sessão que decidiu por sua condenação, mas em dezembro de 1993 o STJ manteve-o inelegível e inapto ao exercício de cargos e funções públicas por entender que sua renúncia apresentada à undécima hora não passou de um “ardil jurídico”. Entretanto em julgamento realizado um ano depois o Supremo Tribunal Federal arquivou o processo contra Collor e Paulo César Farias[1], acusados do crime de corrupção passiva (placar de 5 a 3). Uma semana após essa decisão o ex-presidente recebia a notícia da morte de seu irmão Pedro Collor em 19 de dezembro de 1994, vítima de câncer no cérebro, tragédia que seria seguida de outra notícia infausta: o falecimento de sua mãe, dona Leda Collor de Mello, em São Paulo vítima de broncopneumonia em 25 de fevereiro de 1995, ela que havia sido internada durante o curso dos eventos que redundaram no afastamento de Fernando Collor.


Seis meses depois Fernando Collor mudou-se para Miami (EUA), onde permaneceu até 1998 quando retornou ao Brasil. Nesse ínterim um outro episódio rumoroso envolveu outro personagem de seu governo: em 23 de junho de 1996 seu ex-tesoureiro de campanha, Paulo César Farias, foi encontrado morto em Maceió ao lado de sua então namorada Susana Marcolino. Vítima de crime passional cometido por sua namorada que a seguir teria cometido suicídio, segundo laudo pericial divulgado pelas autoridades locais. Mesmo após ter sido negado pelo STF um novo recurso no qual pleiteava a recuperação de seus direitos políticos, retornou ao Brasil e após algum tempo ensaiando um retorno à política escolheu a cidade de São Paulo como domicílio eleitoral e filiou-se ao tíbio Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB) pelo qual ensaiou uma candidatura a prefeito, pretensão infrutífera devido ao fato de que a suspensão de seus direitos políticos perduraria até depois da eleição.


De volta a Alagoas disputou o governo do estado em 2002 sendo derrotado em primeiro turno pelo governador Ronaldo Lessa, reeleito pelo PSB. Quatro anos mais tarde foi eleito senador por Alagoas derrotando a candidatura de Lessa e assim conquistou um mandato de oito anos iniciado em 1 de fevereiro de 2007, ocupando uma cadeira que já pertenceu a outros políticos alagoanos como Teotônio Vilela Guilherme Palmeira e Heloísa Helena, candidata a presidente pelo PSOL. Desde seu retorno ao Brasil, Collor tem feito declarações de apoio a Luiz Inácio Lula da Silva, postura que manteve inclusive em 2006 mesmo após a imensa crise política que se abateu sobre o governo do petista. Perguntado a respeito Collor respondeu que só mudaria seu voto diante de provas irrefutáveis da conivência de Lula com o escândalo. No dia seguinte à sua posse como senador deixou o PRTB e ingressou no PTB a convite de Roberto Jefferson, ex-deputado federal e atual presidente da legenda, um dos poucos parlamentares que lhe hipotecaram fidelidade durante o processo que redundou no seu afastamento. No dia 8 de Junho de 2007 recebeu o título de cidadão da Paraíba, outorgado pela Assembléia Legislativa do Estado.



 Collor em livros


Desde o ano de 1996 mantém uma página na Internet em que é possível ler o primeiro capítulo de um livro de sua autoria intitulado Crônica de um Golpe – A versão de quem viveu o fato. Sobre os seus dias como presidente foi editado Mil Dias de Solidão – Collor bateu e levou, do jornalista Cláudio Humberto Rosa e Silva, seu porta-voz quando presidente e também um livro de autoria de seu irmão, Pedro Collor, intitulado Passando a Limpo – A história de um farsante, com redação da jornalista Dora Kramer. Os bastidores do governo e do escândalo que derrubou Collor foram relatados no livro “Todos os sócios do presidente”, dos jornalistas Gustavo Krieger, Luiz Antônio Novaes e Tales Faria.


Suas relações com a imprensa são o tema de Notícias do Planalto, de Mário Sérgio Conti e o livro “A imprensa faz e desfaz um presidente” de Fernando Lattman-Weltma. Também tem depoimento seu no livro Os Segredos dos Presidentes de Geneton Moraes Neto, produzido pela equipe do Fantástico.



Vida pessoal


Em 1975, Fernando Collor casou-se com Celi Elizabeth Júlia Monteiro de Carvalho, filha de Joaquim Monteiro de Carvalho e herdeira do Grupo Monteiro Aranha, com quem teve dois filhos: Arnon Afonso de Melo Neto (nascido em 1976) e Joaquim Pedro Monteiro de Carvalho Collor de Mello (nascido em 1978).


Em 1980, teve um outro filho com sua ex-companheira Jucineide Braz da Silva, Fernando James Braz Collor de Mello, filho este que se tornou vereador de Rio Largo, uma cidade da região metropolitana de Maceió.


Casou-se pela segunda vez em 1984 com Rosane Brandão Malta, filha de políticos alagoanos. Rosane foi a primeira-dama brasileira enquanto seu então marido estava no poder.


No início de 2006, Collor casou-se com a jovem arquiteta alagoana Caroline Medeiros, com quem teve duas filhas gêmeas, Cecile e Celine.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *