Florestas de eucalipto substituem campos

Já desgastado pelas frentes agrícolas que semearam arroz em banhados drenados nos anos 70 e, logo depois, por soja nas coxilhas de terra pobre, o cenário do pampa vai mudar de novo com a plantação de 500 mil hectares de eucaliptos para abastecimento de três grandes indústrias de celulose nos próximos anos.

A transformação alegra políticos à busca de soluções rápidas para a metade sul do Rio Grande do Sul, que vive dificuldades econômicas, e preocupa ambientalistas, que temem mudanças climáticas.

Eles defendem a retomada da pecuária tradicional e clamam pela criação de áreas de proteção para resguardar pelo menos 10% do ambiente nativo. Hoje só 2,7% do bioma está protegido por unidades de conservação federal, de acordo com os Indicadores de Desenvolvimento Sustentável do IBGE.

A chegada dos grandes projetos florestais, anunciados em 2004, coincidiu com o reconhecimento do pampa como bioma pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA). Ao mesmo tempo em que o tema ampliou seu espaço no debate público. “A própria cultura ecológica se traduzia por árvores e não considerava o campo como ecossistema”, diz Carlos Nabinger, do Departamento de Plantas Forrageiras e Agrometeorologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Hoje se reconhece que os campos planos e ondulados, os capões de mato e os banhados do pampa compõem uma rica diversidade biológica, com pelo menos 3 mil espécies da flora, das quais 450 são gramíneas, mais de 400 espécies de aves e perto de cem de mamíferos, entre as quais algumas ameaçadas de extinção, como o cardeal-amarelo e o gato-palheiro.

O mapeamento da cobertura vegetal do pampa, coordenado pelo geógrafo Heinrich Hasenack, da UFRGS, feito em 2004 para o MMA, revelou que menos da metade da área do bioma (41%) apresenta cobertura natural. A transformação começou em 1634 com a criação de bovinos trazidos da Europa pelos jesuítas. Por três séculos, as mudanças se limitaram ao pisoteio do solo pelos animais, consolidando a paisagem dos campos.

Consolidação – No início do século passado, o plantio de capões de eucaliptos, usados como quebra-ventos, alterou a monotonia do horizonte. Nos anos 30 e 40, o arroz irrigado começou a ganhar espaço. Mas foi nos anos 70, com a drenagem de banhados patrocinada pelo governo militar (o projeto Pró-Várzeas) e com o boom da soja, que a agricultura tomou espaço da pecuária, da vegetação e dos animais nativos. Ao mesmo tempo, gramíneas exóticas trazidas da África, como capim anonni e braquiária, revelaram-se pragas capazes de tomar 500 mil hectares.

Nesta década, as empresas de celulose descobriram que o pampa dispunha de terras a preço barato, bom regime pluviométrico e condições de oferecer árvores para corte em apenas sete anos e apostaram numa expansão para a área. Como a economia regional, predominantemente primária, está debilitada por anos de maus resultados, os governos locais viram nos investimentos – estimados em US$ 1 bilhão no plantio de florestas e mais US$ 3 bilhões em fábricas de celulose da Aracruz, Votorantim e Stora Enso – a tábua da salvação.

A decisão do governo gaúcho de retirar as restrições colocadas por técnicos no Zoneamento Ambiental para Atividades de Silvicultura visando facilitar a emissão de licenças para o plantio de florestas revoltou os ambientalistas no ano passado. Com este ato, foram liberados para o plantio 300 mil dos 500 mil hectares programados. Somados aos 500 mil hectares já cultivados, a área florestada corresponderá a 5,6% do bioma.

Em defesa das florestas cultivadas, as empresas dizem que vão reservar áreas de preservação correspondentes ao mesmo tamanho de suas plantações de eucaliptos. Também afirmam que priorizaram a compra de terrenos degradados, indicando que a silvicultura trará ganhos ambientais. Os ecologistas lembram, no entanto, que o zoneamento indicou que as áreas mais propícias ao florestamento estão na metade norte do Estado, onde as terras são mais caras, e não no pampa.

Pesquisadores defendem que a atividade econômica mais adequada ao bioma é a pecuária. “Os 41% de cobertura natural do bioma mostram que o uso tradicional é sustentável”, sugere Hasenack. Em seus estudos, Nabinger constatou que, com ajuste da carga anual de gado sobre o pasto, o criador pode elevar a produtividade de 60 quilos de carne por hectare ao ano para 250 kg/ha/ano. E, se optar pelo azevém, uma gramínea local bastante nutritiva, pode chegar a 1 mil kg/ha/ano. “Uma das formas de agregar valor é alimentar o gado com nossas gramíneas”, diz. (Fonte: Elder Ogliari/ Estadão Online)

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