Imunologia por brunet

Imunologia
Seleção clonal (1) A diferenciação de células-tronco hematopoéticas sofre rearranjos genéticos para a produção de linfócitos imaturos (2) com diferentes receptores para antígenos. Ligam-se aos antígenos (3) e destroem tecidos do próprio corpo, ao passo que o restante, já maduro, (4) inativa linfócitos. A maioria destes jamais encontrará um antígeno exógeno correspondente (5), mas aqueles que encontram, e são ativados, produzem muitos clones de si. (6)
Seleção clonal (1) A diferenciação de células-tronco hematopoéticas sofre rearranjos genéticos para a produção de linfócitos imaturos (2) com diferentes receptores para antígenos. Ligam-se aos antígenos (3) e destroem tecidos do próprio corpo, ao passo que o restante, já maduro, (4) inativa linfócitos. A maioria destes jamais encontrará um antígeno exógeno correspondente (5), mas aqueles que encontram, e são ativados, produzem muitos clones de si. (6)

Em meados dos anos 1950, Burnet decidiu que as pesquisas do instituto deveriam centrar-se no estudo da imunologia. Muitos pesquisadores decidiram então deixar a instituição, descontentes com esta decisão[11]. Após, em 1957, todos os novos funcionários e estudantes do instituto trabalhavam em estudos imunológicos; Burnet estava envolvido com trabalhos relacionados com doenças autoimunes e a reação conhecida como enxerto versus hospedeiro.

Burnet começou a escrever sobre imunologia nos anos 1940. Em 1941, ele escreveu uma monografia denominada “The Production of Antibodies”, (em português, A Produção de Anticorpos), que foi revisada e reeditada em 1949 tendo Frank Fenner como co-autor. Este livro é considerado uma das principais publicações em imunologia – marcando a mudança no estudo da imunologia, de um contexto predominantemente químico, para outro mais focado na biologia. Um aspecto importante neste trabalho foi o de introduzir o conceito de “self” (próprio do organismo) e “non-self” (adquiridos) na imunologia. A distinção entre estes conceitos foi derivada da visão biológica de Burnet e de seu interesse na integralidade do organismo vivo. Utilizando estes conceitos, Burnet formulou a hipótese de que em algumas situações o corpo pode falhar, produzindo anticorpos contra suas próprias células, resultando em doenças que são conhecidas atualmente como “auto-imunes”.

Peter Medawar, Rupert E. Billingham e Leslie Brent realizaram em 1953 estudos demostrando que splenocytos poderiam ser injetados no útero de ratos ou logo após o nascimento, e que estes ratos podiam então aceitar pele e outros tecidos do doador, mas não de qualquer outro animal[12]. Burnet e Medawar receberam em 1960 o Prêmio Nobel de Medicina por este trabalho, que promoveu bases experimentais para a indução de tolerância do sistema imunológico ao transplante de órgãos.

Burnet estava interessado na forma como o organismo humano produz anticorpos em resposta aos antígenos. A ideia dominante na literatura, durante a década de 1940, era a de que o antígeno agia como um modelo para a produção de anticorpos, o que ficou conhecido como a hipótese de “instrução”[13]. Burnet não estava satisfeito com esta explicação, e na segunda edição de seu livro “The Production of Antibodies”, ele e Fenner criaram um modelo indireto, propondo uma teoria em que cada antígeno poderia influenciar o genoma, afetando assim a produção de anticorpos[14]. Em 1956 ele se interessou pela teoria de Niels Kaj Jerne sobre a seleção natural, que descrevia um mecanismo de resposta imunitária baseado em uma teoria anterior vencedora do Nobel, de autoria do imunologista Paul Ehrlich. Jerne propôs que antígenos associam-se a um anticorpo ao acaso e, que a partir disso mais anticorpos eram então produzidos. Burnet desenvolveu um modelo que ele denominou seleção clonal, ampliando e melhorando a teoria de Jerne[15]. Burnet propôs que cada linfócito possui em sua superfície imunoglobulinas específicas, que refletem a especificidade do anticorpo, e que mais tarde irá ser sintetizada quando a célula é então ativada por um antígeno. O antígeno serve como um estímulo seletivo, ocasionando uma duplicação e diferenciação preferencial, clonando os que possuem receptores para aquele antígeno específico[16].

Em 1958, Gustav Nossal e Joshua Lederberg mostraram que uma célula B produz somente um anticorpo, sendo esta a primeira evidência para a teoria da seleção clonal[17]. Burnet escreveu ainda sobre a teoria em seu livro de 1959, The Clonal Selection Theory of Acquired Immunity. Sua teoria predisse quase a totalidade das principais características do sistema imunológico como a entendemos atualmente, incluindo as doença autoimunes, de tolerância imunológica e de mutação somática[18]. A teoria de seleção clonal tornou-se então um dos conceitos centrais da imunologia, e as contribuições de Burnet foram consideradas essenciais para o conhecimento teórico do sistema imunológico.

Existe ainda alguma controvérsia sobre a publicação de sua versão da teoria no Australian Journal of Science em 1957. Alguns críticos argumentam que ele publicou-a em um jornal australiano para obter uma resposta rápida à sua hipótese e obter prioridade para suas outras teorias que foram publicadas mais tarde naquele mesmo ano, em um documento escrito por David Talmage e que Burnet havia lido antes da sua publicação. [1]. Burnet continuou a trabalhar no laboratório até sua aposentadoria em 1965; Gustav Nossal tornou-se então o diretor do Walter e Eliza Hall Institute. Sob a direção de Burnet o Instituto havia tornado-se “provavelmente um dos mais conhecidos centro de investigação dedicado ao estudo da imunologia do mundo”[19].

[editar] Saúde pública e política

Desde 1937 Burnet esteve envolvido em uma variedade de orgãos científicos e de política pública. Depois, tornou-se diretor do Walter e Eliza Hall Institute em 1944, sendo considerado uma figura pública – teve que lutar contra a timidez para se tornar um bom orador. Reconheceu a importância da cooperação com os meios de comunicação para que o público em geral possa entender a ciência e os cientistas, tendo seus escritos e palestras desempenhado um papel importante na formulação de políticas e atitudes públicas na Austrália em uma grande variedade de temas relativos à biologia. [1]

Burnet atuou como membro e presidente de comitês científicos, tanto na Austrália, como no exterior. Entre 1947 e 1953, foi membro do National Health and Medical Research Council, na comissão de financiamento para a investigação médica na Austrália. Durante este mesmo período (1947-52), ele também foi membro do governo australiano. Entre 1955 e 1959, foi presidente do Australian Radiation Advisory Committee, pois estava preocupado com o fato de que australianos estavam constantemente expostos a radiações desnecessárias.

Burnet se opunha ao uso da energia nuclear na Austrália. Mais tarde ele reviu suas objeções à mineração de urânio no país, argumentando que a energia nuclear era necessária, ao menos até que outras fontes renováveis de energia fossem desenvolvidas[20]. Do final dos anos 1960 à decada de 1970, ele foi também porta-voz do movimento antitabagismo, aparecendo inclusive em uma propaganda, criticando a ética da publicidade do cigarro[21].

[editar] Aposentadoria

Depois da sua demissão do Walter e Eliza Hall Institute, foi-lhe oferecido um escritório na Escola de Microbiologia da Universidade de Melbourne. Trabalhando na universidade, escreveu 13 livros sobre uma variedade de tópicos incluindo imunologia, envelhecimento, câncer e biologia humana. Ele também escreveu uma autobiografia intitulada “Changing Patterns: An Autobiography Atypical”, que foi lançada em 1968. Tornou-se presidente da Academia de Ciências da Austrália em 1965. Como presidente, foi reconhecido por governantes e opinião pública, como cientista líder da Austrália[1]. Ajudou também a criar a Academia da Ciência e da Indústria da Austrália.

Em 1966 Burnet escreveu um artigo para a publicação The Lancet, intitulada “Men or Molecules?” (em português, Homens ou moléculas?), em que questiona a utilidade da biologia molecular, alegando que não contribuiriam em nada para a medicina e que a manipulação do genoma, como havia demonstrada em bactérias, traria mais danos para o homem do que benefício[22]. Gustav Nossal, posteriormente, descreveu Burnet como “um biólogo que ama e odeia bioquímica, o que levou a uma breve mas prejudicial rejeição do valor de biologia molecular”[16].

Burnet dissertou e escreveu amplamente sobre a temática da biologia humana depois de sua aposentadoria. Em 1966, apresentou o Boyer Lectures, com palestras centradas na biologia humana. Burnet forneceu um quadro conceitual para o desenvolvimento sustentável, 21 anos depois, a definição fornecida pela Comissão Brundtland foi quase idêntica[23]. Em 1970 ele revisou um livro antigo, que fora publicado como Dominant Mammal: the Biology of Human Destiny, que foi seguido por “Endurance of Life”, publicado em 1978. Os livros discutem sobre aspectos da biologia humana, um tema que Burnet escreveu extensivamente nos seus últimos anos. Em Dominant Mammal ele argumentou que as raízes do comportamento humano, podem ser encontradas no comportamento dos animais. Um revisor de seus livros descreveu suas ideias de biologia social como “extremistas” e “com um visão pessimista da humanidade”[24].

Sua primeira esposa, Edith Linda Druce, morreu de leucemia linfóide em 1973, e em 1976 ele casou-se com Hazel G. Jenkins. Em 1978 Burnet decidiu aposentar-se oficialmente; escrevendo dois livros durante sua aposentadoria. Em novembro de 1984 foi submetido a uma cirurgia devido a um tumor coloretal; metástases secundárias foram encontradas em agosto de 1985 e ele morreu em 31 de agosto na casa de seu filho em Port Fairy, Victoria. Foi sepultado no cemitério Tower Hill, perto de Port Fairy. Após sua morte, ele foi homenageado pela Câmara dos Representantes, que decretou uma moção de condolências no parlamento, uma honra normalmente reservada aos parlamentares e chefes de governo[25].

[editar] Legado

Burnet recebeu inúmeras homenagens e prêmios por suas contribuições à ciência e à vida. Ele foi o primeiro a receber o título honorário de Cidadão australiano do ano, criado para homenagear australianos que realizaram grandes feitos e contribuíram de maneira significativa para o desenvolvimento da nação. Em 1978, foi feito Cavaleiro da Ordem da Austrália. Foi ordenado também Cavaleiro Comandante da Ordem do Império Britânico em 1969, além de receber a Medalha de Jubileu de Elizabeth II em 1977.

Foi também, membro honorário de 30 Academias de Ciências internacionais. Recebeu 10 títulos honorários de Doutorado, incluindo Cambridge, Oxford e Harvard, com menção honrosa do Hahnemann Medical College, menção honrosa de Doutorado da Universidade da Carolina do Sul e um doutorado em Direito pela Universidade de Melbourne. Incluindo o Prêmio Nobel, recebeu 19 medalhas ou prêmios, com destaque para a Medalha Real e as Medalhas Copley da Royal Society e do Albert Lasker Award.

O biógrafo Christopher Sexton sugere que o legado de Burnet é quádruplo: (1) o alcance e a qualidade da sua investigação; (2) a sua postura nacionalista, que o levou a permanecer na Austrália, levando ao desenvolvimento da ciência de seu país e inspirando futuras gerações de australianos cientistas; (3) o seu sucesso, levando a Austrália a uma posição de destaque na pesquisa médica mundial; e (4) os livros, ensaios e outros escritos[26].

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