Meio ambiente redireciona pesquisas em institutos públicos

A preocupação com a questão ambiental está ganhando cada vez mais espaço nas pesquisas realizadas pelos Institutos Públicos de Pesquisa (IPPs) brasileiros. Trabalhos que visam recuperar o meio ambiente e minimizar ou prevenir impactos ambientais se tornaram cada vez mais comuns nos IPPs, mas a percepção e divulgação desses trabalhos dentro dos Institutos ainda deixa a desejar.


De acordo com a pesquisadora Adriana Bin, doutoranda do Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) da Unicamp, uma pesquisa não precisa ser necessariamente desenhada com um foco ambiental para que seja voltada, de alguma forma, para o meio ambiente. “Muitas vezes, o próprio pesquisador não percebe a sua pesquisa como tendo um foco ambiental”, afirma Bin, que é autora da dissertação de mestrado Agricultura e Meio Ambiente: contexto e iniciativas da pesquisa pública, defendida no último dia 11, no DPCT.


A internalização e formalização dessa questão ambiental na gestão da pesquisa nos Institutos Públicos de Pesquisa Agrícola (IPPAs), que Bin denomina de “variável ambiental”, acontece e é percebida de diferentes formas nesses institutos: o crescimento da importância da variável ambiental nas pesquisas desenvolvidas nos IPPAs ocorre a partir da década de 80, em contexto mundial. Nesse período, os fortes impactos ambientais causados pelo uso de pesticidas e de fertilizantes, resultado da chamada “revolução verde”, da década de 70, começam a ser percebidos. Nos IPPs brasileiros, a preocupação com o “ambiental” aparece no final da década de 80, época em que esses institutos passam por uma reorganização.


Novo rumo para Pesquisa Pública
A reorganização da pesquisa pública aconteceu em âmbito mundial na década de 80, época em que são observadas importantes mudanças técnico-científicas (com a emergência de novas áreas, como biotecnologia); surgimento de novos padrões concorrenciais e globalização dos mercados (incluindo a inserção de novos atores fazendo pesquisa, como setor privado e as ONGs), e são sinalizadas mudanças no papel do Estado, . No mesmo período, acontece um fortalecimento dos movimentos ambientalistas, inaugurando uma era de “diplomacia ambiental”, repleta de convenções e de tratados ambientais.


“Inserido nesse contexto, o pesquisador começa a redimensionar seu trabalho. A integração da variável ambiental nas trajetórias tecnológicas da agricultura é o ponto de partida para sua internalização formal e instrumental nos Institutos, tornando-se um elemento de peso no planejamento da pesquisa”, afirma Bin.


“O uso de pesticidas e fertilizantes, por exemplo, é negativo do ponto de vista ambiental e, mais do que isso, do ponto de vista econômico, quando se considera o comprometimento, em longo prazo, da capacidade produtiva do agroecossistemas pelo uso intensivo desses insumos. No entanto, a pesquisa agrícola com foco ambiental não se faz apenas via eliminação do uso desses insumos (por exemplo, por meio de práticas agroecológicas), mas também via tecnologias que minimizem seu uso, como é o caso do melhoramento genético, plantio direto, manejo integrado de pragas, fixação biológica de nitrogênio, etc., afirma Bin. “Mais demorado do que a internalização da variável ambiental nas trajetórias tecnológicas da pesquisa agrícola, é sua internalização nas trajetórias organizacionais e a abertura de espaços formais na gestão da pesquisa para inserir meio ambiente”, conclui.


Para o pesquisador João Paulo Feijão Teixeira, do Instituto Agronômico (IAC), os estudos comprometidos com a solução de outros aspectos da problemática ambiental intensificaram-se a partir da década de 90. “No IAC, foram incluídas pesquisas voltadas para a recuperação de áreas degradadas e contaminadas com metais pesados, resíduos, em especial lixo urbano e lodo de esgoto. Nos dois últimos casos, visando eliminá-los, dando-lhes aplicação agrícola”, afirma Teixeira.


Tanto o IAC quanto a Embrapa já tinham, desde o final da década de 80, linhas de pesquisas visando minimizar o uso de insumos químicos, o que, atualmente, culmina nos trabalhos voltados ao melhoramento genético. “As pesquisas de melhoramento genético visam, muitas vezes, impactar o meio ambiente positivamente, com redução de aplicação de alguns agroquímicos, por exemplo. Porém, as plantas melhoradas podem provocar outros desequilíbrios ambientais, como maior dependência de fertilizantes minerais, desequilíbrios em populações de insetos predadores de pragas e conseqüente repercussão ecológica”, diz Teixeira.


Para o Teixeira, é importante que exista uma preocupação com os impactos ambientais na formulação e condução de determinado programa de melhoramento genético, como de resto para qualquer ação de geração de nova tecnologia. Bin acredita que ainda existem pesquisadores reticentes diante dessas novas linhas de pesquisas. “Mas a internalização da variável ambiental só tende a aumentar nas trajetórias organizacionais dos Institutos Públicos de Pesquisa Agrícola”, conclui a pesquisadora.

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