Mudanças estruturais na educação

A educação como um todo precisa de mudanças estruturais. A inadequação é de tal ordem que não bastam aperfeiçoamentos, ajustes, remendos. Um estudante que termina uma Faculdade dedica à aprendizagem mais de 20.000 horas, desde que começou a ir à escola. É incrível que depois de tantos anos de aprendizado tantos alunos não saibam quase nada; que não gostem de ler, que tenham dificuldades em interpretar textos, que não consigam entender as mudanças do mundo em que vivem. Vinte mil horas com resultados tão decepcionantes. Se cada estudante, hipoteticamente, trocasse o estudo pelas mesmas horas trabalhadas, ganhando dez reais a hora, no fim da Faculdade acumularia mais de 200 mil reais. O importante aqui não é o possível ganho econômico, mas a constatação da ineficiência da organização escolar, que tem uma máquina gigantesca, para resultados, na sua maior parte, ridículos (mesmo com indicadores quantitativos melhores). Isso gera enorme frustração dos resultados, frustração pessoal e social, ao dar oportunidade só de forma aparente para milhões de brasileiros, cuja maior parte fica relegada ao desemprego ou subemprego.


Mantemos estruturas pesadas, custosas, em todos os níveis de ensino, para conseguir resultados tão medíocres. O que estamos fazendo é um grande engano. Milhões de alunos despreparados, candidatos ao desemprego, aprofundando a distância que separa os que freqüentam bons colégios dos que estudam em instituições medíocres.


Em um curso de graduação de quatro anos em Pedagogia de uma das melhores universidades paulistas, alguns alunos me confirmaram que mais da metade das aulas era de temas, autores e pesquisas repetidos. Havia superposição de conteúdo, de textos para leitura, de trabalhos a serem realizados pelos alunos. Dois anos seriam suficientes, na visão deles, para aprender o que o curso propunha.


Bons professores são as peças-chave na mudança educacional. Os professores têm muito mais liberdade e opções do que parece. A educação não evolui com professores mal preparados. Muitos professores começam a lecionar sem uma formação adequada, principalmente do ponto de vista pedagógico. Conhecem o conteúdo, mas não sabem como gerenciar uma classe, como motivar diferentes alunos, que dinâmicas utilizar para facilitar a aprendizagem, como avaliar o processo de ensino-aprendizagem além das tradicionais provas. Como costumam assumir, por necessidade, um número de aulas cada vez maior, tendem a reproduzir rotinas e modelos; procuram poupar-se para não sucumbir, dão o mínimo de atividades possíveis para diminuir o tempo de correção. Preparam superficialmente as aulas e vão incorporando esses modelos como os possíveis, que se tornam hábitos, cada vez mais enraizados.


Hoje aproveitamos efetivamente, em média, menos da metade do tempo na sala de aula, pela percepção de que os cursos são muito longos e de que muitas das informações que acontecem na sala de aula poderiam ser acessadas ou recuperadas em outro momento. Muitos alunos e professores estão desmotivados com o ensino uniforme, padronizado, que não se adapta ao ritmo de cada um. Criticam o confinamento do processo de ensino-aprendizagem à sala de aula, sempre com as mesmas turmas, com a mesma programação, nos mesmos horários. São complicados os deslocamentos diários de professores e alunos de lugares distantes para poder estar todos juntos na mesma sala, ao mesmo tempo, principalmente no nível superior.


Muitos professores costumam culpar os alunos, a escola, o salário, a jornada pela não mudança. Costumam conhecer superficialmente seus alunos, subestimando suas potencialidades.


Mantêm uma postura generalista: a mesma proposta de aula vale para todos. Não avaliam de verdade. Dão trabalhos em grupo, sabendo que serão feitos por um ou dois alunos, e fazem vista grossa, porque preferem o pacto da mediocridade, do faz-de-conta. Tem professores “monocordes”, “unitemáticos”, previsíveis. São professores de uma nota só. Sempre dão aulas do mesmo jeito, o mesmo tipo de exercícios, de atividades, de avaliação. Filtram tudo em perspectivas dualistas, maniqueístas, estereotipadas.


Tem professores-mosaico, que fazem colagens. Atiram em todas as direções.  Misturam sem critério autores, tendências, idéias. Não organizam, hierarquizam, sintetizam. Tudo para eles tem o mesmo peso, o mesmo valor, em geral, o que está na moda.


Tem professores “papagaios”. Lêem e repetem o que lêem, reduzindo e simplificando o seu alcance, encurtando o sentido. Reduzem textos complexos a interpretações empobrecedoras. Citam autores, através de resumos, interpretações de terceiros, sem lê-los nem conhecê-los. Acomodam-se nas exigências mínimas de cada instituição onde lecionam.


A maior parte reproduz modelos, receitas, esquemas. Corre atrás de novidades, de fórmulas. Precisa delas para sentir-se seguros ao ensinar. São professores-receita. Mesmo querendo mudar, buscam a receita do novo.  Não se renovam, inovam ou exploram as possibilidades. São repetidores, condensadores de textos, tarefeiros.


Muitos têm dificuldade em saber relacionar, em criar conexões, em integrar o cotidiano com o conteúdo didático, em fazer a ponte entre a experiência dos alunos e o tema da aula. Como podem ensinar se não sabem aprender?


São muitos os professores que não gostam de ler, que lêem só por obrigação. Que não se atualizam. Que não freqüentam cinema, teatro, exposições, museus. Que não lêem poesia, literatura. Que se alimentam dos programas da TV aberta, das telenovelas, dos “bigbrothers”, dos telejornais sensacionalistas.


Há professores desesperançadores. Só vêem o negativo: no conteúdo, nos alunos, nas condições de trabalho, na vida.


Ganham mal e, para compensar, multiplicam as atividades profissionais. Sentem-se pouco valorizados, incentivados, reconhecidos, motivados. Recebem muitos pacotes prontos, projetos decididos sem consulta. Todos conhecemos grupos esforçados, motivados, interessados, mas que são minoria no conjunto dos profissionais.


Os currículos são excessivamente rígidos, com disciplinas isoladas, sem interação. Há pouca flexibilidade de espaço, tempo, de organização de matérias.


 Com a explosiva privatização do ensino superior nos últimos dez anos, aumentou exponencialmente o número de alunos que trabalha e estuda a noite e que tem pouco tempo para pesquisar. Muitos desses alunos acreditam que basta ouvir o que o professor fala durante as aulas para acompanhar um curso universitário, com a conseqüente deterioração dos resultados. Constata-se uma falta de conhecimentos fundamentais para um universitário: capacidade avançada de ler, de compreender, de trabalhar autonomamente, o que dificulta sobremaneira o avanço das classes como um todo.


A educação avança menos do que o esperado porque enfrenta uma mentalidade predominante individualista, materialista, que busca as soluções isoladamente. É difícil para a escola trabalhar com valores comunitários diante dessa avalanche de propostas individuais que acontecem a todo momento em todos os espaços sociais. Os meios de comunicação são os porta-vozes mais diretos e eficientes dessa mentalidade individualista, principalmente através da publicidade. Ao mesmo tempo a educação cada vez mais  se torna commoditie, um bem em mercadológico, um negócio, sem dúvida em expansão, mas com grandes interesses e investimentos, que buscam a lucratividade, a maior rentabilidade possível, o que significa, na maioria das situações de ensino privado, uma busca mais da eficiência do que da cidadania.


As mudanças demorarão mais do que alguns pensam, porque nos encontramos em processos desiguais de aprendizagem e evolução pessoal e social. Não temos muitas instituições e pessoas que desenvolvam formas avançadas de compreensão e integração, que possam servir como referência. Predomina a média, a ênfase no intelectual, a separação entre a teoria e a prática.


Temos grandes dificuldades no gerenciamento emocional, tanto no pessoal como no organizacional, o que dificulta o aprendizado rápido. São poucos os modelos vivos de aprendizagem integradora, que junta teoria e prática, que aproxima o pensar do viver.


A ética permanece contraditória entre a teoria e a prática. Os meios de comunicação mostram com freqüência como alguns governantes, empresários, políticos e outros grupos de elite agem impunemente. Muitos adultos falam uma coisa – respeitar as leis – e praticam outra, deixando confusos os alunos e levando-os a imitar mais tarde esses modelos.


O autoritarismo da maior parte das relações humanas inter-pessoais, grupais e organizacionais espelha o estágio atrasado em que nos encontramos individual e coletivamente de desenvolvimento humano, de equilíbrio pessoal, de amadurecimento social. E somente podemos educar para a autonomia, para a liberdade com processos fundamentalmente participativos, interativos, libertadores, que respeitem as diferenças, que incentivem, que apóiem, orientados por pessoas e organizações livres.


Há uma defasagem evidente entre o avanço nos métodos de gestão nas empresas e nas escolas. Os métodos de organização da aprendizagem precisam ser urgentemente repensados, modificados, com coragem e efetividade, porque sua inadequação às possibilidades, tipos de alunos e necessidades torna-se cada vez mais dramática. Os métodos de racionalização administrativa são precários. Há muito desperdício, falta de profissionalismo nas decisões econômicas. Umas instituições só pensam em marketing e lucros e banalizam a qualidade didática. Outras mantêm estruturas administrativas pesadas, caras e ineficientes.


A escola e a universidade precisam reaprender a aprender, a serem mais úteis, a prestar serviços mais relevantes à sociedade, a saírem do casulo em que se encontram. A maioria das escolas e universidades se distancia velozmente da sociedade, das demandas atuais. Sobrevivem porque são os espaços obrigatórios e legitimados pelo Estado. Mas, a maior parte do tempo, freqüentamos as aulas porque somos obrigados, não por escolha real, por interesse, por motivação, por aproveitamento. As escolas conservadoras e deficientes atrasam o desenvolvimento da sociedade, retardam as mudanças.

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