Nos cemitérios solidão e tradição








Nos cemitérios, solidão e tradição






Em Jundiaí há pessoas que ainda mantêm a tradição de visitar os túmulos e cuidar deles. Alguns túmulos, no entanto, aparentam abandono e estão fadados a dias solitários

Em Jundiaí há pessoas que ainda mantêm a tradição de visitar os túmulos e cuidar deles. Alguns túmulos, no entanto, aparentam abandono e estão fadados a dias solitários


Era uma tarde de quarta-feira. Um dia comum, frio e de céu encoberto. Em alguns túmulos, flores frescas. Em outros, flores secas ou ausência delas. Pelos corredores do cemitério, não se viam pessoas. Apenas um gato branco passeava por entre as milhares de sepulturas.



Após um certo tempo, foi possível encontrar Damião Luiz Soares, de 48 anos de idade. Ele andava entre os túmulos e, poucos minutos antes, havia trabalhado para mais um enterro. Pedreiro e coveiro há sete anos, Damião está acostumado à solidão do cemitério Nossa Senhora do Desterro, no Centro de Jundiaí. “Eu percebo que as pessoas vêm cada vez menos ao cemitério. No início do meu trabalho aqui, vinha muito mais gente”, relatou. “Até em dia de Finados vem menos gente do que antigamente. Não sei o porquê.”



Antes de trabalhar no cemitério, Damião foi pedreiro e ajudante em empresa de bebidas. Ele mora em Jundiaí e tem quatro filhos. Católico, afirma temer a morte. “Medo a gente tem, mas ninguém passa sem ela. Um dia ela vem.”



A profissão para ele é como outra qualquer, apesar de a tristeza de familiares e amigos dos mortos também o entristecer. “Eu fico triste, mas, se eu não fizer esse trabalho, alguém terá que fazer”. Damião acredita que, após a morte do corpo, o espírito permanece. Ao imaginar como seria o seu próprio enterro, Damião disse, sem hesitar: “Ah, sem nada demais. Vou para a gavetona mesmo, como todo o mundo. Não tem jeito!”



Tradição e fé – Outras várias voltas pelo cemitério Nossa Senhora do Desterro, sem ver ninguém. As únicas companhias eram lápides, túmulos e vasos. Até que foi possível avistar, lá longe, duas mulheres. Vera Lúcia de Camargo e Leonor de Camargo estavam próximas ao túmulo de João Ignacio Leite de Camargo, pai de Vera e esposo de Leonor, falecido em 24 de março de 1995, vítima de pneumonia, aos 76 anos de idade.



“Sempre que venho para o Centro da cidade passo pelo cemitério para visitar o túmulo do meu pai. Venho para colocar flores novas, apesar de elas serem artificiais, e para ver se o túmulo está bem cuidado”, contou Vera. “Somos testemunhas de Jeová e acreditamos na ressurreição. A gente acredita que o espírito do meu esposo está com Deus e temos a esperança de vê-lo de novo um dia”, comentou Leonor.



Vera afirma que, antigamente, costumava ver mais pessoas no cemitério. E, aos se lembrar do pai, não conseguiu conter as lágrimas, que invadiram seus olhos azuis. “Sabe, tem túmulo que está abandonado. Muitas vezes, eu trazia flores para o túmulo do meu pai, mas colocava flores em outros túmulos também.”



Vera acredita que, independentemente da religião, as pessoas precisam ter fé. “Não adianta vir para o cemitério só em dia de Finados. Meu pai está no meu pensamento e todo o dia é dia dele, não só no dia dos mortos. Hoje, faltam amor no coração das pessoas, amor pelo próximo e fé”, resumiu. “Acho que, também como forma de respeito, as pessoas deveriam visitar mais os túmulos.”



Sem falta – Outra tarde um pouco fria. O sol estava indeciso entre esconder-se por entre alguma nuvens e desaparecer de vez. Do alto, na entrada do cemitério Nossa Senhora do Monte Negro, também em Jundiaí, viam-se corredores vazios entre os inúmeros túmulos. O som era de vários bem-te-vis cantando ao mesmo tempo.



De repente, com passos suaves, Hélio Aparecido da Silva, de 50 anos, apareceu, vindo de visita ao túmulo dos pais, localizado na parte mais baixa do terreno do cemitério. Apesar de morar em Várzea Paulista, Hélio vai ao cemitério uma vez por mês. O pai dele morreu em 1977 e a mãe, em 2002. “Eu venho sempre uma vez por mês. É uma coisa minha. Não aprendi isso com ninguém da família, é algo meu mesmo”, explicou. Hélio, que trabalha como vigia, gosta de colocar velas sobre o túmulo e de fazer orações. “Geralmente eu venho sempre no dia 14. Minha mãe morreu em 14 de setembro e eu escolhi esse dia, em todos os meses, para repetir as visitas.”



Hélio observa que nem todas as pessoas fazem visitas freqüentes ao cemitério. “Algumas pessoas têm receio, não gostam de vir e outras costumam vir só em dia de Finados. Eu mantenho minha freqüência, apesar de achar que de quem a gente gosta, a gente sempre lembra, sem precisar vir ao cemitério”, resumiu. Hélio foi embora – para voltar ao cemitério em 14 de setembro –  e o local ficou novamente só, até que apareceram cerca de 20 pessoas em cortejo. Era mais um enterro.



 


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