O marco inicial do trovadorismo em portugal

Trovadorismo


O ano de 1189 ou 1198 é o marco inicial do Trovadorismo em Portugal, por ser, uma delas, a data presumível da publicação da canção


A Ribeirinha ou Cantiga de Guarvaia ( Cantiga de Amor ), de Paio Soares de Taveirós, que transcreveremos abaixo:



“No mundo non me sei parelha,


mentre me for como me vai,


ca já moiro por vós – e ai!


mia senhor branca e vermelha,


queredes que vos retraia


quando vos eu en saia!


Mau dia me levantei,


que vos enton non vi fea!


E, mia senhor, dês aquel dia, ai!


me foi a mi mui mal,


e vós, filha de do Paai


Moniz, e ben vos semelha


dhaver eu por vós guarvaia,


pois eu, mia senhor, dalfaia


nunca de vós houve nen hei


valia dua correa. “


O ano de 1418 é o ano que Fernão Lopes, funcionário da Coroa, foi nomeado Guarda- Mor da Torre do Tombo, função que seria hoje equivalente à chefia dos arquivos oficiais. Esse fato define, ao menos oficialmente, o fim do Trovadorismo, tendo em vista que Fernão Lopes viria a ser protagonista de um novo comportamento literário em Portugal, conforme veremos à frente.


CONTEXTO HISTÓRICO


O trovadorismo português é, de certa forma, resultado da influência da cultura provençal. A Provença, região Sul da França atual, por razões históricas e geográficas, já desenvolvera condições para uma arte definida e forte.


Esta influência pode ser percebida na cantiga a seguir:



” Que eu en maneyra de proençal ( 1 )


fazer agora um cantar damor


e querrey muyti loar unha senhor,


a que prez nem fremosura non fal, (…) “


Vocabulário: 1. à maneira provençal


Entretanto, além da Cantiga de Amor, outros tipos de cantiga se desenvolveram já com conotações mais ibéricas, seja no vocabulário, seja no vocabulário, seja nos recursos estruturais e mesmo nas referências culturais. Salientamos, a bem da verdade, que algumas dessas modalidades tiveram origem na própria Cantiga de AMor, ou em alguma outra modalidade também provençal.


A influência provençal se deu na região ibérica em função da própria divulgação da literatura da Provença por quase toda a Europa. A vinda de cavaleiros provençais à região da península, a fim de ajudarem os reis locais nas lutas de expulsão dos árabes dos antigos territórios católicos, foi um veículo de introdução da cultura provençal na Península. Cite-se, inclusive m a presença de D.Henrique, futuro fundador do estado português, a partir do condado portucalense, e rei da primeira dinastia ( Borgonha) lusitana. Na prosa medieval portuguesa, outras influências são notadas, como a greco-latina, a francesa e a inglesa.


O período mais fértil do Trovadorismo português ocorreu, mais ou menos, do século XIII ao início do XVI e sua decadência foi vivida a partir de meados deste último século.


A literatura portuguesa dos primeiros séculos desse período não se diferencia da literatura praticada nas demais regiões da Península Ibérica, até por falta de maior identidade cultural nos espaço português, ocorrendo, inclusive, manifestações literárias em mais de uma língua, além da portuguesa.


Traços Característicos


A poesia do Trovadorismo tem íntima ligação com a música, pois era composta para ser entoada ou cantada e acompanhada de instrumental, como o alaúde, a viola, a flauta, ou mesmo de coro. Então, hoje, classificadas sob os nomes de Amor, Amigo, Escárnio e Maldizer, considerando as diferenças entre elas.


Cantiga de Amor


Este tipo de cantiga tematiza a confissão amorosa do homem em relação a uma mulher geralmente lamentando o seu sofrimento de amor ( coita) diante da indiferença da mesma. Sendo o homem quem fala, costumamos dizer que se trata de um “eu-lírico”masculino.


O amante posiciona-se inferiormente à mulher, divinizando-a, a ponto de se estabelecer uma relação de “senhor”para vassalo. Ela é o seu “senhor”( não existia a palavra “senhora”), dona do destino do apaixonado, o qual busca um a linguagem e atitudes cuidadosas para não ofendê-la, inclusive, omitindo, o nome da amada. Esse comportamento e essa relação caracterizam o amor cortês, em que a mulher é sempre vista como merecedora de todas as atenções, gentilezas e considerações da parte daquele que a deseja.


A posição de inferioridade, em que se coloca o apaixonado, torna quase sempre a sua cantiga um lamento, expressão do sofrimento amoroso. Esse sentimento era chamado de coitas. A insistência com que essa temática aparece nas Cantigas de Amor torna-as repetitivas. Apesar disso, a Cantiga de Amor, foi o tipo de produções mais importante dentre as cantigas. Em primeiro lugar por ter sido produzido por compositores ligados à nobreza, o que, quase sempre, garante maior riqueza vocabular e estruturação técnica de melhor qualidade. Em segundo lugar, por se dirigir a um público mais culto.


Veja o texto abaixo:



“Tam grave dia que vos conhoci,


por quanto mal me vem por vós, senhor!


ca(1) me ven coita, nunca vi mayor,


sen outro ben, por vós, senhor, des i (2)


por este mal que mha mim por vós ven,


come se fosse bem, ven-me por em


gran mal a quem nunca o mereci.


Ca, mha senhor, porque vos eu servi,


sempre digo que sodela(3) milhor


do munde trobo polo (4) vosso amor,


que me fazedes gram ben e assy


veedora(5) mha senhor do bon sen, (6)


este bem tal se compre (7) en mi rrem (8),


senon, se valedes vós mays per y (9).


Mais eu, senhor, en mal dia naci.


del que non tem, nem é conhecedor


do vosso bem, a que non fez valor


Deus de lho dar, que lhy fezo bem y,


per, (10) senhor, assy me venha bem,


deste gram bem, que el (11) por ben non tem,


muy poyco del seria granda mi.


Poys, mha senhor, rrazon é, quandalguen


serve non pede, já que rem lhi den;


eu sservi sempre nunca vos pedi. ”


(D. Afonso Sanches )


Vocabulário: 1-porque; 2-desde então; 3-vós sois; 4-trovo pelo;


5-vede a hora; 6-bom senso; 7-se cumpra; 8-nada; 9-isso; 10-porém; 11-ele.


No texto, temo um típico exemplo do amor cortês, com o trovador confessando o seu amor pela mulher, assumindo-a como superior a ele, afirmando que nada quer, a não ser viver o seu próprio sentimento, sem interesse, mas reclama e sente que ela não corresponda aos seus amores.


Cantiga de Amigo


O emissor nas Cantigas de Amigo é a mulher, por isso dizemos que o “eu -lírico”é feminino. Na verdade, também nas Cantigas de Amigo o autor é um homem, mas que se faz passar pela mulher que namora ou pela qual tem interesse.


Nessas cantigas, a mulher, geralmente pertencente a alguma camada social mais popular e menos culta, lamenta a ausência do “amigo”que está longe ou não se apresentou no tempo esperado ou para o encontro combinado entre dois. O tom é de confidência à mãe ou as amigas ou a algum elemento da natureza ( ramo, flor, árvore, lago… ). Em muitas composições, a água ( ondas, mar, lago, fonte ) assume uma forte conotação erótica, metaforicamente, uma vez que o relacionamento entre os namorados era ou deveria vir a ser íntimo.


Quase sempre, as Cantigas de Amigo apresentam uma elaboração estética diferente, em conseqüência de sua origem popular. Seus compositores não são nobres importantes, suas letras, têm menor riqueza vocabular e costumeiramente utilizam paralelismos e/ou refrões, bem como outros recursos que auxiliam no “prolongamento”da canção, com a estruturação musical tornando-se mais acessível ao autor.


Analisadas sob o ponto de vista temático, as Cantigas de Amigo apresentam razoável variedade graças às diferenças situações descritas ou abordadas.


Quanto a um possível valor histórico, documental, também o saldo é significativamente positivo, pelo registro de vivências cotidianas, de usos e relações caracterizadoras, ao menos em parte, da sociedade da época. Outros aspecto, ainda, a contribuir para o aumento desse valor documental, é a existência de vários modelos de cantigas relacionados com situações ou acontecimentos, como a alva ( matutina ), bailia ( para a dança), romaria ( fato religioso ), marinha ( referência ao mar ), mal – maridada ( crise conjugal ), pastorela ( relativa ao campo, pastoreio ), serena ( noturna ), barcarola ( paisagem marítima ).


Veja o texto:



“Non chegou, madr, o meu amigo,


e ojest (2) o prazo saido (3)!


ai, madre, moiro damor!


Non chegou, madr, o meu amado


e ojest o prazo passado!


ai, madre, moiro damor!


E ojest o prazo saido!


Por que mentiu o desmentido?


ai, madre, moiro damor!


E ojest o prazo passado!


Por que mentiu o perjurado?


ai madre, moiro damor!


Porque mentiu o desmentido


pesa-mi (4), pois per si é falido (5).


ai, madre, moiro damor!


Por que mentiu o perjurado


pesa-mi, pois mentiu a seu grado,


ai, madre, moiro damor! ”


Vocabulário: 1-mãe; 2-hoje está; 3-vencido; 4-pesa-me; 5-liquidado, morto.


Cantiga de Escárnio


Esta cantiga é uma composição satírica em que se critica alguém através da zombaria do sarcasmo, traço típico da sátira. O escárnio é identificado como sátira indireta por não ser muito contundente e por “encobrir” a agressividade através de alguma ambigüidade.



“Ai dona fea! foste-vos queixar


porque vos nunca louven (1) meu trobar (2)


mais ora (3) quero fazer un cantar


en que vos loarei (4) toda via


e vedes como vos quero loar


dona fea, velha e sandia (5)!


Ai dona fea! se Deus me perdon!


e pois havedes (6) tan gran coraçon


que vos eu loe en esta razon,


vos quero já loar toda via;


e vedes qual será a loaçan (7):


dona fea, velha e sandia!


Dona fea! nuna vos eu loei


en meu trobar, pero (8) muito trobei;


mais ora já un bon cantar farei


en que vos loarei toda via;


e direi-vos como vos loarei:


dona fea, velha e sandia! ”


(Joan Garcia de Guilhade )


No escárnio acima, o autor promete falar em sua poesia de uma mulher que reclamou dele por nunca tê-la citado ou elogiado numa de suas cantigas. Mas, visivelmente irritado com isso, ele a chama de feia, velha e louca.


Cantiga de Maldizer


As Cantigas de Maldizer distinguem-se das de Escárnio por apresentar sátira direta. A crítica, sempre contundente e clara, muitas vezes usa o baixo calão ( palavrão ) e dá nome à pessoa criticada ( recurso também utilizado, embora com menos freqüência, nas Cantigas de Escárnio ). As críticas referem-se a comportamentos políticos, sexuais, a nobres traidores, a compositores incapazes, a rivais amorosos, a mulheres de hábitos feios ou imorais, a pessoas, profissionais ou proprietários pretensiosos.


Essas composições satíricas ( Escárnio e Maldizer ) circulavam por lugares públicos como feiras, colheitas, tabernas, periferias urbanas, caracterizando uma literatura marginal, mas, mesmo por isso, de importância histórica bastante razoável, a exemplo das Cantigas de Amigo, pelo registro social feito. Veja o texto:



“Ben me cuidei eu, Maria Garcia,


en outro dia, quando vos fodi,


que me non partisseu de vós assi


como me parti já, mão vazia,


vel (1) por serviço muito que vos fiz;


que me non deste, como xomen diz (2),


sequer um soldo que ceass(3) um dia.


Mais detsa seerei (4) eu escarmentado


de nunca foder já outra tal molher,


se mantalgo (5) na mão non poser,


ca (6) non ei (7) porque foda endoado (8);


sabedes como: ide-o fazer


con quen teverdes (9) vistide (10) calçado.


Ca me non vistides nem me clçades


nem ar (1) seleu eno ( 12 ) vosso casal (13 ),


nen avedes (14) sobre min non pagades;


ante mui ben e mais vos en direi:


nulho (15) medo, grada (16) Deus, e a el-Rei,


non ei de força que me vós façades.


E, mia dona, quen pregunta non erra;


e vós, por Deus, mandade preguntar


polos naturaes deste logar


se foderan nunca en paz nen en guerra,


ergo (17) se foi por algou por amor.


Idadubar vossa prol, ai, senhor,


cavedes, grada Deus, renda na terra. ”


( Afondo Eanes do Coton )


Vocabulário: 1-em troca de; 2- como se diz; 3-suficiente; 4-sairei; 5- antes me algo; 6-pois; 7-hei, há; 8- de graça;


9- tiverdes; 10- vestido; 11-novamente; 12-na; 13- vossa casa; 14- tendes; 15-nenhum; 16-graças; 17- salvo.


O texto, pela presença do refrão e de paralelismos, pode facilmente ser identificado como Cantiga de Amigo. Quanto ao assunto, a moça reclama porque o “amigo”não a procurou no prazo combinado. A mãe é a sua ouvinte.


OBSERVAÇÃO: muitas vezes, a diferenciação entre Escárnio e Maldizer é difícil, por não haver caracteres rígidos.


Outros Aspectos


A- Cancioneiros


Uma quantidade razoável de cantigas chegaram até nosso dias graças às obras que reuniram parte dessas produções. Essas complicações ( ou códices ) são chamadas Cancioneiros.


Existem três dessas compilações do Trovadorismo português: Cancioneiros da Ajuda ( original; cantigas do século XIII ), Cancioneiro da Biblioteca Vaticana ( cópia de cantigas do século XIV, provavelmente ). Cancioneiro da Biblioteca Nacional ( Colocci – Brancutti ) ( cópia de cantigas do século XV, provavelmente ).


Conhecem-se, ainda, as Cantigas de Santa Maria, uma reunião de mais de 400 composições de conteúdo religioso.


B- Tipos de Autores


Os compositores e cantores são definidos por categoria diferentes. As principais são:


Trovador: compositor, cantor e instrumentador pertencente, na maioria das vezes, à nobreza. Pela qualidade cultural, compunha uma categoria superior.


Segrel: nobre ou fidalgo inferior ou em decadência. Era compositor e cantor, geralmente andarilho e profissional, ou seja, vivia desse trabalho.


Jogral: de origem popular e parca cultura. Raramente compunha, às vezes era bailarino e servia a senhores feudais para distrair a corte ou o exército.


Menestral: também de origem popular, limitava-se a apresentar composições alheiras nos castelos ou feudos em que trabalhava.


C- Nomenclatura


Há um pequeno vocabulário relativo à estruturação técnica de cantigas, do qual listamos parte:


Estribilho ou Refrão = verso repetido na íntegra


Paralelismo = verso repetido com alguma alteração de palavras(s).


Cantigas de Maestria = canção


Palavras = verso


Cobra, Cobla ou Talho = estrofe


Palavra Perdula = verso branco.


Leixa-pren ( deixa -prende ) = o último verso de uma estrofe é repetido como o primeiro verso da estrofe seguinte.


D- Alguns Autores


O registro e a lembrança de muitos autores trovadorescos perderam-se na distância do tempo, mas alguns permanecem até nossos dias:


D.Dinis (1261-1325 ): até aqui é o trovador mais importante. Além de incentivador da cultura e das artes, este monarca português configura delicadeza e simplicidade numa gama variada de sentimentos: dor, tristeza, saudade, expectativa, o que faz da coleção de 138 cantigas de sua autoria a obra mais rica e interessante do Trovadorismo peninsular.


João Garcia de Guilhade: Compôs abundantemente e conseguiu, segundo estudiosos, manter uma boa qualidade geral em sua obra.


Martim Codax: Dado como jogral do século XIII, é autor de bom nível. Suas cantogas estão entre as poucas que tiveram a música, além da letra, preservada até nossos dias.


Paio Soares de Taveirós: Autor da canção A Ribeirinha, que, como já dito antes, marca o início do Trovadorismo português.


E – Prosa Medieval


A prosa medieval portuguesa também tem origem em outras regiões européias e a manifestação mais importantes são as Novelas de Cavalaria, originárias das antigas Canções de Gesta, poemas épicos, guerreiros, dos quais o mais famoso é a célebre Chanson de Roland, de origem francesa.


Essas novelas são ricas em aventuras e heróis cavaleirescos valentes, sempre envolvidos numa vida também rica de perigos e malfeitores, que servem para enfatizar a coragem e decisão de heróis como Tristão, Glaaz, Lancelote, Isolda.


As novelas estão dividas em três grupos, chamados ciclos:


Ciclo Bretão ( Arturiano ): originário da Inglaterra, registra os feitos do rei Artur e os seus cavaleiros. ( Os Cavaleiros da Távola Redonda ). A narrativa mais conhecida é A Demanda do Santo Graal de temática religiosa.


Ciclo Carolíngio: narra os trabalhos heróicos do rei Carlos Magno e os Doze Pares de França, especialmente quando na luta contra os saxões.


Ciclo Greco-latino ( Clássico): narrativas relacionadas à cultura helênica ( Grécia e Roma ).


Uma novela independente desses ciclos e que tem um destaque especial é Amadis de Gaula, de autor ibérico, em que se registra o heroísmo do bretão Amadis que, por ser do país de Gales, recebe o complemento Gaula, daí o nome “Amado de Gaula”.


Outras atividades da prosa medieval portuguesa: Livros de Linhagem ( listas gencalógicas de famílias fidalga ); Cronicões ( registro de documentos historiográficos ); Hagiografias ( biografias de santos ).


Fonte: www.profabeatriz.hpg.ig.com.br

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