Os primeiros botânicos






































Os primeiros botânicos, na sua procura de plantas úteis para a medicina ou para outros fins, começaram a estudá-las cuidadosamente, dando origem a este ramo da Biologia.


Nuno Leitão


Nas primeiras civilizações humanas, as plantas eram observadas unicamente do ponto de vista da sua utilidade, realizando-se estudos mais profundos referentes apenas ao seu uso medicinal. Mas ao examiná-las cuidadosamente, os primeiros botânicos interessaram-se por estas formas de vida e verificaram a existência de semelhanças entre os seus modos de funcionamento e os dos animais.


EMPEDOCLES (495-435 A.C.) de Akragas é um dos mais ilustres representantes da escola de Filosofia de Pitágoras. Este filósofo explicava que o mundo era composto por quatro elementos eternos – Água; Fogo; Terra; Ar – e que os corpos vivos ou inanimados existiam como resultado da simples atracção e/ou repulsão entre esses elementos. Empedócles pensava que as plantas, assim como os animais, possuíam alma, razão e senso comum. Os ramos e as folhas que se “dirigem” para o Sol pareciam confirmar esta teoria. Nas suas conjecturas teóricas, as plantas não eram consideradas organismos íntegros, mas sim compostas por organismos distintos e independentes.

Cerca de um século e meio depois, ARISTOTLES (384-322 A.C.) realizou uma extensa obra sobre o reino animal, que influenciou toda a percepção sobre o tema nos séculos seguintes. No entanto, apesar de nela fazer referência a diversas plantas, o seu trabalho sobre este reino é pouco conhecido. De qualquer forma, este filósofo tornou possível a classificação da natureza. Aristóteles considerava a existência de uma continua transição entre seres vivos e seres inanimados, ocupando as plantas uma categoria intermédia. Nesta altura, a palavra “alma”, como propriedade dos seres vivos que podia transitar entre diferentes formas, dominava os textos que se escreviam (no renascimento a “alma” passa a ser substituída por “vida”). Aristóteles distingue os seres vivos dos inanimados pelas capacidades de pensar, sentir, crescer e de movimento. Para ele as plantas não tinham qualquer interesse para além da possibilidade de darem frutos e de se propagarem. No entanto, os seus estudos levaram-o a tirar algumas conclusões interessantes, por exemplo que, ao contrário dos animais, nas plantas a fêmea não estava separada do macho, ambos constituindo um único ser.

THEOPHRASTUS (371-286 A.C.) foi o mais importante botânico da Antiguidade, e é mesmo conhecido como o fundador da Botânica. Depois de ter estudado com Platão, tornou-se o pupilo favorito de Aristóteles e teve a oportunidade de continuar o seu trabalho. Este filósofo é conhecido por ter tido mais de 2000 alunos, após ter substituído Aristóteles, quando este foi forçado a sair da escola de filosofia que tinha fundado em Atenas. O filósofo liderou a academia durante 35 anos, enquanto era responsável pelo primeiro Jardim Botânico que se conhece. Das 227 obras que chegaram aos nossos dias, duas delas são sobre Botânica:

– A História Natural das Plantas (De historia plantarum), composta por 9 livros;

– Sobre as Razões do Crescimento das Plantas (De causis plantarum) composta por 6 livros.


Estas obras foram trazidas à luz da cultura ocidental pelo Papa Nicolau V, que ordenou a sua tradução para latim, tendo sido publicadas primeiro em 1483 (com demasiados erros de tradução) e depois em 1497, numa versão rectificada. Estes livros passaram a ser os guias indispensáveis para a compreensão e o ensino da Botânica.


Mas estes livros eram muito gerais – as espécies eram referidas apenas ocasionalmente e em alguns dos casos nem se percebia de que espécie se tratava. No entanto, isto não lhes retira a sua importância, já que dispõem de dados muito interessantes. Por exemplo, além das espécies gregas, são referidas espécies de outras regiões, o que foi proporcionado pelas campanhas de Alexandre o Grande à Índia, Pérsia, Síria, Egipto e Líbia. De qualquer forma, esta obra tem referências de cerca de 500-550 espécies e variedades de plantas e foram estes conceitos básicos de morfologia, classificação e história natural das plantas que foram aceites, sem serem questionados, durante muitos séculos.


Avançado para o seu tempo, Theophrastus introduziu a prática da aclimatização de plantas (nem sempre com sucesso), introduziu novos termos técnicos, distinguiu diferentes formas de reprodução e de inflorescências, e estudou a germinação de sementes de várias espécies.
Já mais tarde, os Romanos demonstraram ser um povo mais prático, o que levou ao grande desenvolvimento da agricultura e da horticultura. Por exemplo, para superar o rigor das estações frias, cultivavam diversas espécies sob a protecção de vidros.


DIOSCORIDES (40-90 D.C.) é o autor mais conhecido da época romana, e foi considerado uma autoridade na farmacologia durante vários séculos após a sua morte. Os seus trabalhos ilustrados foram largamente criticados pelo contemporâneo Plinius, entre outros. Criticavam-se as cores erradas, as diferenças de habilidade entre os artistas, e o ridículo de se representar uma planta através de pinturas, não se tendo em conta as suas transformações ao longo do ano. Só muito mais tarde, com a invenção da imprensa, é que as ilustrações ganharam importância como representação de observações.


Dioscorides era um físico grego, que se tornou no cirurgião militar de Nero, o Imperador Romano. O seu cargo militar permitiu-lhe fazer grandes viagens e assim estudar uma grande variedade de plantas. O físico escreveu a obra De Materia Medica, onde são referidas as propriedades medicinais de mais de 600 plantas com algumas descrições botânicas, mas sem o carácter científico das obras de Theophrastus. Descreveu raízes, caules, folhas e por vezes flores. Na verdade, o seu trabalho é um herbário, o primeiro herbário ilustrado.


Ainda no primeiro milénio depois de Cristo o seu livro era reproduzido (como aconteceu em 512 por Juliana Anicia). A qualidade das tão criticadas das ilustrações só foi superada mais de mil anos depois.

PLINIUS SECUNDUS (23-79 D.C.) foi contemporâneo de Dioscorides e publicou um trabalho de História Natural (Historia naturalis), uma enciclopédia composta por 37 Libri (livros), dos quais 16 eram dedicados às plantas.


Abordou as plantas apenas do ponto de vista utilitário. Tal como Theophrastus, começa por descrever as árvores, não por serem de uma classe superior, mas simplesmente por serem as plantas mais úteis ao homem. Descreveu culturas agrícolas e dos vegetais, mas também de plantas ornamentais. No fim acaba com plantas silvestres, as que são bonitas, cheiram bem ou têm importância medicinal.

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