Pedro cardoso se manifesta contra pornografia na tv

RIO – Autor do manifesto contra a pornografia na TV e no cinema que tem excitado a classe artística, o ator Pedro Cardoso evita erguer a bandeira da censura. Mas, no dia 8, quando seu texto foi lido no cine Odeon, antes da sessão do filme “Todo mundo tem problemas sexuais”, de Domingos Oliveira (do qual é astro e produtor), no Festival do Rio, a platéia pensou o contrário. Reproduzido e comentado no blog do longa , o discurso de Cardoso ainda foi entendido como referência ao filme “Feliz Natal”, de Selton Mello, no qual a atriz Graziella Moretto (apontada como namorada do ator) tem uma cena de nudez. Nesta entrevista, em que cita todo o tempo o texto do Odeon, Cardoso defende sua crítica ao “simulacro de arte” que se esconde sob a nudez gratuita nas telas.

Há lugar para o nu na arte autoral? Seu discurso na última quarta-feira fez essa resposta parecer urgente. No palco, você falou do ponto de vista profissional – de ator – sobre o assombro que é ser alijado de um papel por se negar a compactuar com a pornografia. Mas eu queria entender a sua opinião como espectador, uma vez que, no blog de “Todo mundo tem problemas…” você diz: “Será difícil encontrar uma atriz (ou espectadora) que não tenha passado ao menos por uma situação onde não tenha se sentido constrangida”. De que maneira a pornografia se manifesta na arte audiovisual hoje? De que maneira essa manifestação te incomoda?
PEDRO CARDOSO: Desculpe, mas eu não compreendi bem a pergunta. Você embaralhou as minhas idéias, tornando confuso o que eu disse. Eu acredito ter sido muito claro no texto do Odeon. Reproduzo: “A meu ver, as empresas que exploram a comunicação em massa (e as que dela fazem uso para divulgar seus produtos) apossaram-se de uma certa liberdade de costumes, obtida por parte da população nos anos 60 e 70, e fazem hoje um uso pervertido dessa liberdade.”

“Uma maior naturalidade quanto a nudez, que àquela época, fora uma conquista contra os excessos da repressão a vida sexual de então, tornou-se agora, na mão dessas empresas, apenas um modo de atrair público. Com a conivência de escritores e diretores (alguns deles, em algum momento, verdadeiros artistas; outros, nunca!) temos visto cenas de nudez, ou semi- nudez, ou roupas sensuais, ou diálogos maliciosos, ou beijos intermináveis, em quase todos os minutos da programaçãos das televisões e nos filmes para cinema, sem falar na publicidade. A constância com que essas cenas aparecem tem colocado em permanente exposição a nudez dos atores, especialmente das mulheres; é sobre as atrizes que a opressão da pornografia é exercida com maior violência, uma vez que ela atende, na imensa maioria das vezes, a um anseio sexual do homem. É raro o convite de trabalho, seja filme ou novela ou programa de humor, que não inclua cenas desse tipo para o elenco feminino.”

Reproduzo agora o trecho que contém a frase que você cita: “Entre a pornografia e a arte há muitas nuances, mas elas não são a questão aqui. O que eu digo é que há pornografia na imensa maioria da produção audiovisual para atender a ambição de ganho financeiro, e que isto está tornando a vida dos atores um tormento. Quase não há ofertas de trabalho onde a pornografia não se insinue. As exceções existem, mas não cabe a mim discutir quais elas seriam, mesmo porque não tenho o monopólio de uma verdade, que é, por sua própria natureza, bastante afetada pela subjetividade de cada um. Agora, a invasão da pornografia é um fato bastante objetivo e facilmente comprovável. Sua presença é tão evidente, e o desconforto que causa já me foi tantas vezes relatado por colegas, que eu me sinto confiante para apontá-la. Será difícil encontrar uma atriz (ou espectadora) que não tenha passado ao menos por uma situação onde não tenha se sentido constrangida.”

Acredito que eu tenha sido bastante claro.

Sou contra a censura externa, mas a favor do super-ego. Quando ele falha, o estado fica tentado a agir. E o estado é sempre o intrumento da facção política que está no poder. É muito perigoso ceder ao estado a censura que deve caber a nós mesmos
No discurso do Odeon você diz: “A minha tese é de que a nudez impede a comédia, e mesmo o próprio ato de representar. Quando estou nu sou sempre eu a estar nu, e nunca o personagem”. Qual é a limitação prática, no plano estético, que a nudez pode trazer à arte de representar? Filmes como “O homem do pau-brasil, de Joaquim Pedro de Andrade, por exemplo, apostam no nu sem que isso tire as filigranas estéticas da atuação de Itala Nândi. Você citou dois filmes de Truffaut estrelados por Gérard Depardieu, um ator que já participou de cenas de nudez inclusive em comédias, como “Os corações loucos”, de Bertrand Blier. Daí vem a questão: como o nu pode travar uma atuação?
CARDOSO: Mas uma vez a sua pergunta me confunde um pouco. Reproduzo o trecho que você cita: ” Eu ambiciono o dia em que os atores e as atrizes saibam que podem e devem dizer não a cenas onde não se sintam confortáveis. O dia em que saibamos que não temos obrigação de tirar a roupa, que esta não é uma exigência do ofício de ator e sim da indústria pornográfica. O dia em que não nos deixaremos convencer por patéticos argumentos do tipo: é fundamental para a história, a luz vai ser linda, você vai estar protegida, é só de lado, a gente vai negociar tudo, se você não gostar, depois eu tiro na edição, e o pior argumento de todos, vai ser de bom gosto. E a conclusão de sempre confie em mim. E há também um argumento criminoso: O programa é popular. Tem que ter calcinha e sutiã. como se a gente brasileira fosse assim medíocre.”

“Claro que somos imperfeitos, pornografia talvez sempre haverá. Mas que ela não seja dominante e absoluta. E, principalmente, que ela não seja irreconhecível, disfarçada de obra dramatúrgica, de entretenimento inocente. Isto é uma perversão de consequências trágicas porque rouba à arte o seu lugar. E a arte, mesmo quando seja entretenimento inocente, é fundamental para a nossa saúde coletiva. E se a pornografia também o for, que ela o seja, mas como pornografia, e não querendo se passar pela nossa vida de todo dia, no ar na novela das sete, ou mesmo das seis, como se aquelas situações fossem a coisa mais normal do mundo. Criam-se cenas de estupro, de banho, de exibicionismo, de adultério, ambientadas em boates, prostíbulos, etc, tudo apenas para proporcionar cenas de nudez.”

“A quem diga que a nudez destas cenas é fundamental para a história, eu sugiro que assista a pelo menos 2 filmes de François Truffaut, Le dernier métro e La femme dà côté e aprendam alguma coisa sobre a narrativa da intimidade de personagens sem haver exposição da intimidade dos atores.”

Quanto a Gérard Depardieu, eu não vi o filme que você citou, mas acho que ele nunca foi visto fazendo graça pelado protegido apenas por uma cerca, nem consumando aflito um ato sexual com uma mutante antes que outro mutante entre pela janela e acabe com tudo, nem desfilando de lingerie enquanto a apresentadora do programa entrevista casualmente a estilista, nem em maliciosos e mal escritos diálogos de novela onde é permanentemente feita a sugestão de que algo muito excitante está na eminência de acontecer. Defender a pornografia citando obras de arte é induzir a um enorme equívoco.

No Odeon você leu: “A quem se afobe em me acusar de exagerado, eu só peço que assista aos filmes recentes e a televisão. Está tudo lá. É só ter liberdade para ver”. De que maneira o seu discurso defende a liberdade?
CARDOSO: Sou contra a censura externa, mas a favor do super-ego. Quando ele falha, o estado fica tentado a agir. E o estado é sempre o intrumento da facção política que está no poder. É muito perigoso ceder ao estado a censura que deve caber a nós mesmos. O empresário que investe em comunicação em massa deve zelar ele mesmo pela adequação do que vende ao público que almeja. E os artistas também! Mas a confusão em que estamos é tanta que a mesma empresa que publica uma revista onde denuncia freqüentemente casos de corrupção clamando pela moralidade na política, também publica uma revista de nudez feminina; ou a mesma empresa que produz uma novela para horário vespertino visando alcançar toda família, vende num site seu fotos das atrizes da mesma novela semi-nuas.

E quanto à liberdade, reproduzo um trecho do texto do Odeon: ” Onde há pornografia, não há liberdade. Há alguém ganhando dinheiro e alguém sofrendo para produzir o dinheiro que este outro está ganhando. Quem se vê submetido a cena pornográfica, sempre sofre, mesmo apesar de seus possíveis comprometimentos subjetivos a tal submissão. O comprometimento eventual de alguns de nós, não legitima o ato agressivo de quem propõe a pornografia.”

Essa discussão sobre a exploração da pornografia aconteceu no exato momento em que um professor de literatura foi afastado da Escola Parque por ser autor de poesia erótica. Comenta-se que você estava entre os pais que reagiram a isso. Qual a sua posição em relação a esse episódio?
CARDOSO: Não sei em quê este assunto tem a ver com o meu. A intenção da sua pergunta me parece ser a de sugerir ao leitor que eu sou um moralista puritano que poderia mesmo ter perseguido esse professor. Boa tentativa, mas a acusação é improcedente. Reproduzo mais um trecho do texto do Odeon: “A quem se afobe em me acusar de moralista, peço antes que procure conhecer o meu trabalho em teatro e que assista ao filme desta noite. Nele, assim como algumas vezes no teatro, tratei, junto com meus colegas, de assuntos bem distantes de uma moralidade puritana. Quem for me acusar, tente primeiro perceber a diferença entre a liberdade para tratar de qualquer assunto e a intenção de usar qualquer assunto para difundir pornografia usando a liberdade de costumes para disfarçá-la de obra dramatúrgica”. Eu não conheço a obra poética do professor, a decisão de demiti-lo foi da escola, e ela não quer se pronunciar. Eu não vou tecer comentários baseados em suposições (“comenta-se”) vagas que você está fazendo. As razões para a demissão dele, assim como para sua contratação, devem ser perguntadas à escola. Agora, acredite, é minha obrigação de pai saber quem diz o que para minha filha dentro da sala de aula e saber que livros escolhe para que ela leia. Caso este assunto verdadeiramente te interesse, informe-se melhor. E acredite (não sei se você tem filhos, mas se tiver vai me entender muito bem): num mundo confuso como este nosso, estamos bem sozinhos para olhar por eles.

A tua experiência no filme “Os bons tempos voltaram… vamos gozar outra vez” pesou no seu discurso? Houve exploração de nudez nesse projeto?
CARDOSO: Reproduzo um trecho que faz parte do texto do Odeon, que eu não disse naquela noite porque ficaria muito longo, mas publiquei no dia seguinte no blog. “Quando eu tinha uns 20 anos, aceitei o convite de Ivan Cardoso para atuar num filme cuja história girava em torno da descoberta do sexo por jovens. Aceitei por ingenuidade. Um dia, fui ao set e encontrei a filmagem de cenas de sexo onde só o que não havia era ereção e penetração. No mais, tudo era igual a um filme pornográfico profissional. Eu disse a ele que não faria cenas daquela natureza, e de fato não fiz, apesar dos protestos do produtor, um tal de Anibal Massaini. Parece que ele agora também é cineasta. Esse produtor colocou um dublê no meu lugar e rodou a continuação da cena de ato sexual que eu havia interrompido no primeiro beijo, ainda totalmente vestido. Diga-se, apenas por amor à verdade, que ele o fez sem o consentimento do próprio diretor”. Desde que sofri essa afronta, ainda tão jovem, a questão da pornografia tem me agredido e interessado.

É prioritário para mim contextualizar o filme. Não quero vendê-lo como comédia erótica, que ele não é, e muito menos pornografia. O filme é uma comédia séria sobre dramas que acontecem na vizinhança da vida sexual dos personagens.
Você citou “A mulher do lado” e “O último metrô”, de Truffaut, como exemplos de um cinema que aborda o desejo sem apelar para a pornografia. Mas onde entram filmes como “Saló”, de Pasolini, ou “A comilança”, de Marco Ferreri, nessa discussão?
CARDOSO: Reproduzo mais um trecho do Odeon. “Para que não digam que eu sou contra a nudez em si, dedico este texto à atriz Clarisse Niskier, que faz de sua nudez em A alma imoral um excelente instrumento para a narrativa do seu espetáculo e não um ato pornográfico. Na televisão não há cena de nudez que eu me lembre de ter considerado justificada, mas no cinema há pelo menos uma: Leila Diniz vestindo a nudez de sua personagem no filme Todas as mulheres do mundo, enquanto o personagem de Paulo José diz um belíssimo poema de Domingos Oliveira”. Há muitos outros exemplos que podem ser dados. Estes, que você citou, são alguns. Repito: minha questão não é a arte, mas a pornografia disfarçada de arte ou entretenimento. Este simulacro de obra de arte é dominante no cenário audiovisual.

Como produtor, você acredita que, de alguma maneira, o seu discurso possa ter ofuscado o filme?
CARDOSO: É prioritário para mim contextualizar o filme. Não quero vendê-lo como comédia erótica, que ele não é, e muito menos pornografia. O filme é uma comédia séria sobre dramas que acontecem na vizinhança da vida sexual dos personagens. Reproduzo mais uma vez o texto do Odeon: “Neste filme de hoje a vida íntima dos personagem é o ambiente onde seus dramas acontecem, apenas isso. Não há intenção de provocar excitação sexual, como há na pornografia. Acredito que a dramaturgia, que é arte de contar histórias, busca oferecer ao público um pensamento, e não uma sensação. Esta pertence a vida. É na vida que sentimos frio e fome; na arte, falamos do frio e da fome, se possível com alguma inspiração. A apresentação da nudez, busca produzir uma sensação erótica e não sugerir um pensamento sobre o erotismo. Neste filme os atores estão vestidos para que os personagens possam estar desnudos. O estímulo ao anseio sexual está esquecido para que o pensamento possa ser provocado.”

De que maneira você vê o discurso do Odeon como uma declaração de amor?
CARDOSO: O limite do que digo sobre a minha vida pessoal já está colocado. Se fiz referência ao fato de estar namorando uma atriz foi apenas por honestidade intelectual, uma vez que percebi minhas preocupações afetadas por ele. Nada mais direi sobre a minha vida particular.

No blog, você diz: “A advertência que faço é a todos (a mim mesmo, inclusive), e não a ninguém em particular. E as acusações de abuso de poder e deslealdade por parte de diretores e escritores, são dirigidas a quem as merece. Eles sabem quem são. Eu não preciso dizer”. No entanto, criou-se uma alusão clara, mesmo que seu discurso não citasse nomes, ao filme “Feliz Natal”, de Selton Mello. Essa alusão tem sido muito explorada pela mídia. Ela procede de alguma maneira? Independentemente de proceder ou não, ela pode criar ruídos de sentido e apontar o filme de Mello como alvo do seu texto. Como você encara essa possibilidade?
CARDOSO: O que eu tinha para dizer sobre esse assunto já foi dito.

Ao fim do seu texto você fala em amestradores de ator. De que maneira esse cinema de preparadores de elenco soa como uma afronta à arte de atuar? Em recente workshop no Brasil, Robert Castle, que foi preparador de atores como Sean Penn e Jane Fonda em produções hollywoodianas, lembrou o episódio do astro de “Ladrões de bicicleta” (Lamberto Maggiorani) que, sem conseguir trabalhos de qualidade após o filme de De Sica, por não ser um ator profissional, acabou entrando em profunda depressão. São epidósios como esse que levam a classe a uma grita contra o “amestramento”?
CARDOSO: Eu não conheço Robert Castle, mas não acredito que Sean Pen precise dele para ser o ator que é, e a filha de Henry Fonda já deve trazer no gene o seu talento. Não conheço nenhum ator que precise de treinador. Reproduzo o texto do Odeon, onde acredito ter sido bem claro sobre esse assunto: “Aqui nesse filme também não houve amestradores de ator. Esse assunto parece nada ter a ver com a pornografia, mas tem sim. O haver agora no mercado esses amestradores de atores faz parte da desautorização do ator como autor do seu próprio trabalho. Quer dizer que nem o seu próprio trabalho é o ator que faz?! Há alguém que o faz fazer como deve ser feito. Isso acontece, na minha opinião, porque os cineastas confundem sua própria perplexidade diante da dramaturgia (que, por vezes, eles desconhecem) com uma suposta incompetência do ator, e resolvem o problema chamando um amestrador de ator. (Melhor fariam se estudassem teatro.) É nocivo para nós. Um ator desautorizado na autoria de seu próprio trabalho irá aceitar, com muito mais subserviência, a pornografia que lhe será exigida logo mais a frente. O que está escondido sob esta prática é a desautorização do ator como líder da arte de representar e senhor do seu ofício. Lembremos-nos de que só há realidade fílmica ou televisiva, e certamente teatral, se um ator a faz existir! Sem o ator não há nada. Este é um poder que podem nos impedir de exercer, mas não nos podem tirar.”

Você disse no Odeon, “As acusações virão certamente daqueles que sempre permanecem vestidos nos estúdios de televisão e nos sets de filmagem ou nem saem das salas de reuniões”. Não sei se você conhece o filme “Senhora Henderson apresenta” (“Mrs. Henderson presents”), de Stephen Frears, que aborda o cotidiano de uma trupe teatral cujas peças se baseiam na nudez. Numa cena, a mecenas do teatro (Judi Dench) exige que o produtor e diretor (Bob Hoskins) tire suas roupas para emprestar veracidade à direção e falar com seu elenco sem véus. Conto esse episódio para perguntar: como você avalia as reações dos cineastas ao teu discurso? Essas reações te surpreenderam?
CARDOSO: Eu não entendi a sua pergunta.

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