Quais são os malefícios da bebida alcoólica em excesso.

Em junho do ano passado, pilotando sua moto, a hoteleira Mirian Noveleto, 22 anos, foi a um show em Piracicaba (SP), sua cidade natal. Tomou umas 15 latas de cerveja, duas doses de uísque com energético e uma caipirinha. “Mesmo assim resolvi voltar para casa na moto. Ao tentar fazer uma curva fechada, capotei e só fui acordar dois dias depois, no hospital”, recorda ela. Mirian teve o pé esquerdo esmagado e passou por uma cirurgia com implante de dois pinos, sem garantia de recuperação total dos movimentos. Ficou três meses de cama e mais três meses entre a cadeira de rodas e as muletas.

A estudante Edilene Botelho, de Florianópolis (SC), conta que, em meados dos anos 90, encontrou as amigas numa tarde e, em poucos minutos, tomou três copos de cachaça com refrigerante. Logo depois foram para um shopping, mas Edilene, na época com 14 anos, não se recorda de como chegou até lá nem do que aconteceu no shopping. “Lembro-me apenas de acordar na enfermaria do shopping, suja de vômito, e de ser levada para casa no carro da polícia. Depois tive de ir para o hospital tomar glicose na veia.”

Em dezembro passado, Rodrigo,* 21 anos, estudante de medicina, saiu na noite paulista “para a balada” com um amigo. Na porta da danceteria, entraram na fila e, durante uma hora de espera, beberam juntos uma garrafa de cachaça e mais duas ou três cervejas cada um. “Quando já estávamos quase na porta, passou um cara que eu nunca tinha visto e nos entregou uma garrafa de vodca, com um terço do conteúdo. Viramos a bebida e entramos. Depois disso, não me lembro de mais nada. Meus amigos que estavam na danceteria disseram que sumi. Não sei como voltei para casa, mas acordei no dia seguinte com o braço direito doendo muito. Não tenho idéia do que aconteceu naquela noite, mas tive de ficar com o braço imobilizado por 15 dias”, conta Rodrigo.

Estas são histórias protagonizadas por jovens normais, que estudam ou trabalham, e que em determinada ocasião abusaram do consumo de álcool. Tiveram sorte: todos eles se recuperaram e nenhum ficou com seqüelas permanentes, apesar dos riscos a que uma pessoa embriagada está exposta.

Grande parte dos brasileiros gosta de uma cerveja num dia de calor ou de uma caipirinha com os amigos numa festa. Esse tipo de consumo de álcool em momentos de lazer, em princípio, não apresenta perigo: nesses casos o álcool age apenas como “lubrificante social”, ou seja, facilita a interação entre as pessoas.

Mas beber até perder o controle é diferente. Seja lá o nome que dermos – porre, pileque, bebedeira, “encher a cara”, “enfiar o pé na jaca” -, cinco doses ou mais, para o homem, ou quatro doses ou mais, para a mulher, já podem ser consideradas excesso. A partir daí a bebida passa a afetar a capacidade de julgamento, dificulta a coordenação motora, acaba com inibições e deixa a fala enrolada. Nessas condições a pessoa pode se envolver em situações de grande risco ou de sérias conseqüências e, a longo prazo, sofrer danos cerebrais irreversíveis.

“Um dos maiores problemas relacionados à bebida são as intoxicações graves daqueles que bebem muito mas não são dependentes”, afirma Maristela Monteiro, assessora regional da Organização Pan-americana da Saúde (OPAS/OMS).

As farras com bebida, é claro, não estão restritas a adolescentes ou jovens, nem são fato recente. As pessoas se embriagam desde que as primeiras civilizações descobriram as técnicas de fermentação e criaram a primeira bebida fermentada. Mas algumas pesquisas recentes trazem números preocupantes, mostrando que os jovens começam a se embriagar precocemente, e muitos apresentam prob lemas sérios relacionados à bebida.

“Muitas vezes as pessoas não dão a devida importância a bebedeiras ocasionais”, alerta a Dra. Beatriz Carlini, professora do Instituto de Prevenção e Atenção às Drogas (IPAD) da PUC-Paraná. “Afinal, o álcool não é ilegal como outras drogas, e beber “para descontrair”é um comportamento socialmente aceito”, observa a psicóloga Vera Da Ros, que já trabalhou na Proad/

Unifesp com jovens usuários de álcool e drogas e é diretora da ONG Dínamo, que tem como objetivo difundir informações responsáveis sobre drogas.

A questão é que essa descontração pode muitas vezes fugir do controle, causando problemas muito mais sérios, como os acidentes de trânsito, que já são a segunda principal causa de morte de jovens de 20 a 29 anos no Brasil, só perdendo para os óbitos por arma de fogo.

O levantamento “Comportamentos de saúde entre jovens estudantes das redes pública e privada da área metropolitana do Estado de São Paulo”, realizado pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, no qual foram ouvidos 871 alunos (com idades entre 12 a 18 anos), mostra números impressionantes:


  • 21,5% dos estudantes entrevistados na rede pública e 32,4% da rede particular fizeram uso pesado de álcool (consumiram cinco doses ou mais, em duas horas, nos últimos 30 dias);


  • 47,3% dos bebedores pesados da rede pública já sofreram intoxicações; na rede privada, o índice chega a 76,9%.

    Quando se fala em “abuso de álcool” ou “problemas com bebida”, logo vem à mente a imagem de uma pessoa dependente, com problemas crônicos de alcoolismo. Mas não é bem assim: enquanto no Brasil 5,2% dos jovens são dependentes, mais do que o dobro (11,7%) abusa do álcool com freqüência. “Os adolescentes bebem para se sentir poderosos e fazer parte do grupo. E bebem demais. Eles saem de casa para “entortar”, como dizem, beber até quase cair. Esse tipo de comportamento não caracteriza alcoolismo, mas é extremamente perigoso”, observa a psicóloga Vera Da Ros.

    A possibilidade de desenvolver doenças como a cirrose depende da exposição ao álcool a longo prazo, mas todas as vezes que tomamos um porre aumentamos o risco de sofrer um dano físico – mesmo da primeira vez. “Uma pessoa que abusa do álcool com certa freqüência pode desenvolver problemas nos rins, insuficiência cardíaca ou mesmo alterações neurológicas, ou seja, demência. Às vezes tudo isso acontece sem que haja nada de errado com o fígado”, alerta o Dr. Roberto Henrique Belo Pereira, coordenador do Centro de Toxicologia da UFRJ.

    Em qualquer idade, ao abusar da bebida a pessoa se expõe a um risco muito maior de acidentes de trânsito, quedas, atropelamento, afogamento e outros perigos decorrentes da redução da capacidade de julgamento e da coordenação comprometida. Violência, vandalismo, agressão sexual, relações sexuais sem proteção, com risco de gravidez indesejada ou infecção por doenças sexualmente transmissíveis – todos esses perigos aumentam.

    Além disso, pesquisas recentes mostram que o cérebro dos adolescentes é mais suscetível do que o dos adultos a danos pelo consumo excessivo de álcool. “O excesso de álcool prejudica a formação do cérebro, que ainda está em desenvolvimento nos adolescentes”, explica o Prof. Galduróz. Estudos confirmam que o hipocampo, associado à memória e ao aprendizado, é afetado nos adolescentes pelo uso excessivo de álcool, apresentando-se com menor volume em quem abusa de bebidas alcoólicas. Em outras palavras: quem costuma “encher a cara” perde a memória e a capacidade de aprender.

    Embora raro, o risco de morte não está afastado em casos de intoxicação alcoólica, ou overdose. Quando um indivíduo bebe demais, o enjôo e os vômitos são a forma que o organismo tem de se desintoxicar. “Além de tudo, como o álcool é um sedativo muito forte, a diminuição do controle da musculatura pode levar a pessoa a engasgar, ou mesmo aspirar o vômito, causando uma pneumonia grave”, afirma o Prof. Galduróz. E pior: se a pessoa estiver bêbada demais, até mesmo esse reflexo pode falhar.

    Segundo o Dr. Roberto Henrique Belo Pereira, a intoxicação alcoólica acontece quando a quantidade de bebida no organismo é tão grande que o fígado não consegue mais metabolizar o álcool: “Essa substância, que não foi absorvida pelo fígado, intoxica todo o organismo, causando hipotermia e hipoglicemia, e atacando outros órgãos como os rins ou o coração. Se a pessoa não receber socorro médico sem demora, pode sofrer danos irreversíveis ou mesmo morrer.”

    Pouco habituados ao álcool, os jovens ingerem num curto período grandes quantidades de bebida, o que leva a concentração de álcool no sangue a níveis perigosamente altos. Como essa substância leva cerca de 30 minutos para ser absorvida de todo pelo organismo e entrar na corrente sanguínea, ao beber rápido demais a pessoa aumenta as chances de sofrer uma intoxicação.

    No brasil, a conscientização sobre os perigos do abuso do álcool por adolescentes é relativamente recente. Parte desse esforço pode ser vista na campanha organizada pela Aliança Cidadã Pelo Controle do Álcool, que criou o movimento “Propaganda Sem Bebida” (http://www.propagandasembebida.org.br), por meio do qual uma série de profissionais da área de saúde pede a restrição das propagandas de cervejas e outras bebidas alcoólicas e também o cumprimento das leis que proíbem a venda de álcool a menores de 18 anos, e o aumento da taxação dessas bebidas, entre outras demandas.

    O psiquiatra e coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad/Unifesp), Ronaldo Laranjeira, defende a limitação no horário de funcionamento dos bares e o aumento de preços como duas medidas que podem ajudar a diminuir o consumo. “No Brasil um litro de cachaça custa o equivalente a meio dólar, enquanto nos países desenvolvidos qualquer bebida destilada custa pelo menos 20 vezes mais. Pela experiência, nós sabemos que altos preços têm um grande efeito sobre os jovens, no sentido de desestimular o consumo.”

    “Os jovens devem receber informações sobre como diminuir os riscos, mas é essencial também que eles tenham condições de seguir as recomendações”, explica a psicóloga Vera Da Ros. “É importante, por exemplo, que água, sucos e refrigerantes sejam vendidos a preços baixos nos lugares freqüentados por adolescentes. Isso acontece em outros países, mas aqui não. Então, não adianta explicar que é importante beber água para se hidratar, se a cerveja custa quase o mesmo que a água.”

    Para os pais, a primeira recomendação é que eles prestem atenção à própria relação com a bebida. “Grande parte dos jovens que bebem demais têm em casa os chamados “bons bebedores”, observa Vera. Muitas vezes, mesmo atentos ao comportamento dos filhos, é possível que os pais não percebam o que está acontecendo: “Existe uma preocupação da parte dos jovens em não deixar a família saber que abusaram da bebida. Eles têm medo de que os pais vejam que perderam o controle da situação.”

    Para aqueles que não sabem como lidar com a situação, Vera alerta: “Nós não temos uma fórmula do que funciona, mas sabemos que fazer um “sermão” aos filhos sobre os perigos do álcool não costuma ter efeito”, observa a psicóloga. Se os pais bebem de forma irresponsável, de nada adiantarão suas palavras. “É preciso conversar com o jovem, falar e ouvir o que ele tem a dizer a respeito de sua vida em geral, e também lhes oferecer um modelo.” Em alguns casos, isso implica mudanças profundas no relacionamento entre pais e filhos. Mas sempre é hora de começar.


    A bebida no Brasil

    Beber uma cerveja para fechar o expediente de sexta-feira com os amigos no bar da esquina é uma prática nacional. O consumo per capita da “loura” passou de 22,3 litros, em 1985, para 49 litros no ano passado. Atualmente a cerveja só perde mesmo para o café, cujo consumo anual é de 67 litros por habitante. A brasileiríssima cachaça registrou ano passado a produção (industrial e artesanal) de 1 bilhão e 300 milhões de litros, dos quais 99% destinam-se ao consumo interno, numa média de 7 litros por ano.

    Correndo por fora estão os energéticos: 12% dos estudantes entrevistados no Levantamento Nacional sobre o Consumo de Drogas Psicotrópicas, realizado pelo Cebrid/Unifesp, revelaram já ter feito uso pelo menos uma vez.

    Os efeitos da mistura de bebidas alcoólicas com energéticos foram estudados pela Prof. Maria Lúcia Souza Formigoni, da Unifesp, cujas conclusões constam da edição de abril da revista americana Alcoholism: Clinical and Experimental Research. “Essas bebidas mascaram a intoxicação alcoólica, pois aumentam os efeitos estimulantes do álcool no cérebro (a sensação de prazer) e reduzem a sonolência e o cansaço (efeito depressivo da bebida), dando à pessoa a falsa sensação de que não está embriagada”, alerta a autora do estudo.



    Intoxicação alcoólica

    A intoxicação alcoólica é uma emergência médica, e agir rápido e corretamente nesta situação pode salvar vidas. Os sintomas incluem:


  • sonolência e confusão mental


  • coma alcoólico (inconsciência e falta de resposta a estímulos dolorosos, como um beliscão)


  • palidez, pele fria ou arroxeada, suor frio


  • respiração lenta (mais de 10 segundos entre uma inspiração e outra)


  • vômitos, especialmente quando a pessoa está desacordada.

    Nem todos os sintomas precisam estar presentes. Não deixe sozinha uma pessoa nesse estado, nem a deite de barriga para cima, pois ela poderá se engasgar com o vômito. Coloque-a de lado, na posição indicada na ilustração abaixo. Chame uma ambulância ou leve-a a um hospital ou posto médico imediatamente.

    Lembre-se: a melhor atitude é a prevenção. Para obter informações sobre intoxicação, consulte a Rede Nacional de Centros de Assistência Toxicológica (0800 722 6001).

    O que fazer

  • Erga o braço da pessoa acima da cabeça.

    Vire-a delicadamente, protegendo-lhe a cabeça.

    Apóie o rosto sobre a mão para manter a inclinação da cabeça.

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