ruim com o ditador, provavelmente pior sem ele

Durante nove anos, o general Pervez Musharraf segurou o Paquistão com mãos de ditador. Pró-ocidente, em boa parte do caminho. O que não explica que tenha ficado tanto tempo no poder – pelo contrário. Políticos pró-ocidente no Paquistão são odiados por considerável parcela de um país profundamente islâmico.

Leia também: Musharraf renuncia ao cargo de presidente do Paquistão

A situação é extraordinariamente complexa não só para Washington e pode ser resumida, com óbvio sarcasmo, numa só frase: ruim com o ditador, provavelmente bem pior sem ele. Musharraf foi derrubado por uma aliança de partidos notoriamente corruptos e unidos até agora apenas pelo inimigo comum (o general).

Quem vai mandar agora num estado islâmico nuclear? Embora elogiado pelos americanos como um aliado na guerra contra o terror, Musharraf jamais conseguiu dois resultados:

a) erradicar a al-Qaeda do Paquistão

b) controlar o próprio serviço secreto militar, que é o grande articulador do Talibã (o ressurgimento do Talibã no Afeganistão é impensável sem as bases de que dispõe no Paquistão).
Os dois partidos que empurraram porta afora o general (o PPP de Benazir Bhutto, a ex-primeira-ministra assassinada, e o PML-N de Nawaz Sharif, outro ex-premiê) agora podem se dedicar ao que mais os ocupou: atacar-se mutuamente. Tanto Bhutto quanto Sharif estiveram duas vezes no poder – os resultados foram tão ruins a ponto de o golpe militar de Musharraf, em 99, ter tido até apoio popular.

Beira a um milagre a criação, por parte desses dois agrupamentos – descritos pelo “Financial Times” como “populistas e feudais”-, de um governo de união nacional. Os líderes dos dois grupos políticos prometem uma administração apoiada em tecnocratas paquistaneses de reputação internacional, mas até agora não conseguiram nomear nem sequer um ministro da Fazenda, e isso num período de inflação crescente, crescimento caindo, falta de investimento e bagunça fiscal.

Quem vai mandar no Exército? E, principalmente, quem vai mandar no serviço secreto militar? Quem vai, de fato, recuperar a integridade territorial do Paquistão? Quem será capaz de combater o jihadismo islâmico? Quem será capaz de manter uma política de alinhamento ao Ocidente (o termo voltou à moda depois do episódio da Geórgia) sem provocar a repulsa de milhões de paquistaneses?

Nada na biografia política dos participantes do complicado e perigoso jogo paquistanês sugere soluções claras e fáceis. Musharraf combateu o terrorismo islâmico não só por alinhamento ao Ocidente. Entendeu que o jihadismo era um perigo para ele também – e que seu golpe podia representar um esforço para manter a integridade de um país jovem, que se considera cercado de inimigos.

Em termos mais abrangentes, se há um lugar no qual as coisas podem dar horrivelmente mal, é o Paquistão, com sua bomba, seus mísseis, seu território incontrolável, seu radicalismo islâmico, seus generais irresponsáveis, seus vizinhos agressivos, seus aliados americanos, seus políticos corruptos.

Bobagem acreditar que os americanos tenham “escolhido” um novo caminho para o Paquistão. Na verdade, continuam reféns daquilo que não controlam.

Recomendados Para Você:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *