Soberba dos eua dificulta relação com a rússia

Até Mikhail Gorbachev – vocês se lembram dele? – cerrou fileiras em torno do Kremlin. “O bom senso indica que geografia e história tornam muito íntima a ligação da Rússia com a região do Cáucaso (da qual faz parte a Geórgia)”, afirmou o último presidente soviético.

Até hoje há comunistas que não perdoam Gorbachev pela implosão da União Soviética. Mesmo fazendo publicidade para bagagem de luxo, Gorbachev não perdeu de vista o fato de que geografia e história são responsáveis por boa parte das bases sobre as quais países se relacionam. Teriam os americanos, no caso, esquecido os fundamentos clássicos da geopolítica (como parecem ter feito no Iraque)?

Acusar a Geórgia, como fazem muitos comentaristas (e não só na Rússia), de tentar ser um “satélite” dos Estados Unidos é uma simplificação grosseira. Entre os georgianos há um espírito muito forte de rebeldia e independência em relação a Moscou. Até certo ponto, comparável ao que se dizia antes do México: tão perto dos Estados Unidos e tão longe de Deus.

Volto a um ponto já abordado no post anterior: a noção russa de “império” é tão antiga quanto as lutas que levaram Ivã o Terrível a se impor. E a geografia sempre empurrou os russos para o Sul (a ponto dos britânicos ocuparem o Afeganistão, no século XIX, em parte como medida de precaução para evitar que a Rússia chegasse à Índia).

O difícil é convencer os povos do Cáucaso que eles “pertencem”, pelas leis da geopolítica, ao império dos russos. É uma situação muito mais clara no caso da Europa Central (antigamente chamada Europa do Leste), que só fez parte do império russo durante as décadas em que o Exército Vermelho, como conseqüência da Segunda Guerra Mundial, impôs o comunismo soviético a países como a então Tchecoslováquia, Polônia ou Hungria.

Quando se fala de globalização como expressão da revolução da informação costuma-se esquecer o fato de que idéias e princípios espalharam-se pelo mundo em outras épocas com igual rapidez. Basta lembrar eventos como a Revolução Francesa ou a própria Revolução de Outubro. Por isso é perigoso abordar a transformação política da Geórgia (claramente copiando instituições “ocidentais”) como simplesmente uma provocação a Moscou – embora acabe sendo.

Mas, de novo, teriam os americanos esquecido princípios da geopolítica ao “abraçar” a causa da Geórgia? Um dos episódios mais famosos da Guerra Fria foi a Revolução Húngara de 1956, na qual a resistência à ocupação soviética foi às ruas claramente inspirada por transmissões da Rádio Free Europe (um dos mais eficazes instrumentos de propaganda política naquela época).

Não parece ser o caso da Geórgia. Há um componente de aventura política na conduta do governo de Tblisi, que não precisaria de qualquer incentivo de potências ocidentais, e um comportamento de truculência política por parte de Moscou que, da mesma maneira, não precisava de nenhuma provocação, ocidental ou não.

E há mesmo em Condoleeza Rice, que tem uma sólida carreira acadêmica com especialização em União Soviética, uma surpreendente ignorância dos fatores mais amplos (históricos e culturais) que influenciam diretamente fatos do cotidiano. Há uma certa soberba na idéia, difundida tempos atrás em Washington, de que “eles” perderam e nós “ganhamos” a Guerra Fria.

Pode-se constatar hoje com muita facilidade a pouca capacidade que as potências ocidentais tem de reagir ao urso russo desembestado. Isso é vitória? É vitória depender de Moscou para qualquer acerto com o Irã? Ou para garantir a energia de mais da metade da Europa?

Henry Kissinger e seu grande herói, o príncipe austríaco Klemens von Metternich (que ajudou a reordenar a Europa após a derrota de Napoleão), teriam dado uma lição aos republicanos na Casa Branca. Fatores geográficos e históricos não desaparecem para impérios derrotados. Só interesses comuns, e propostas comuns, tornam mais fácil o convívio entre grandes potências (França e Alemanha são o melhor exemplo) que um dia se enfrentaram.

Recomendados Para Você:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *