Um panorama da regência

Um calhamaço de mais de 800 páginas agora nas livrarias condensa as décadas de pesquisa e estudo dedicadas por Sylvio Lago à arte da regência orquestral.

Advogado e jurista de atuação internacional desde cedo mergulhado no mundo das artes e particularmente da música, Lago relança pela Algol Editora o seu minucioso Arte da regência, ampliando a primeira edição (2002) com perfis de maior número de regentes e novas ou mais aprofundadas investigações temáticas (as mulheres regentes, o movimento dos “autenticistas” de época, histórias de morte no pódio e alguns casos interessantes de diferenças na minutagem de gravações de obras centrais do repertório).

É a paixão que move esse elegante humanista à antiga em suas empreitadas, que já viram a publicação de uma Arte do piano e levarão ainda a outros volumes, um deles sobre a composição musical, tratando dos gêneros e formas musicais.

Lago começou a escrever Arte da regência na década de 1990, mas o cultivo do tema pode-se dizer que teve início na infância, na convivência em casa com a música clássica e os primeiros estudos de piano, que seriam sucedidos, na juventude, por uma experiência de aprendizado da regência com Rafael Batista.

O que ele nos oferece nesse excelente instrumento de pesquisa e consulta — tanto mais útil por conter, além de índice onomástico e dos maestros referenciados, uma bibliografia alentada e um sumário de preferências discográficas — é um panorama histórico da evolução dessa arte, seguido de discussão pormenorizada de seus diferentes elementos técnicos e expressivos e uma coleção de perfis e estudos sobre os maestros que fizeram evoluir a prática e a teoria, na qual o autor deixa transparecer sua generosidade de amateur no melhor sentido: o admirador cultivado que reflete e incita à reflexão.

Um dos aspectos mais valiosos do livro é sua abundante e mesmo insistente abonação em fontes as mais diversas, seja na discussão dos elementos da arte propriamente e de sua história, seja nos relatos — históricos, minuciosos, divertidos, polêmicos ou reveladores — da individualidade e da ação dos grandes regentes. Outro é a preocupação quase exaustiva de inclusão de todos ou quase todos os nomes de efetiva relevância no panorama antigo, recente ou atual. Um autêntico dicionário da regência e dos regentes no Brasil, seguido de um texto de Francisco Mignone, encerra o volume.

A seguir, uma entrevista com Sylvio Lago.

Clóvis Marques: A arte da regência mudou em alguma direção coletivamente identificável nas últimas décadas?
Sylvio Lago: Mudou no estilo e na forma de relacionamento do maestro com os músicos, em termos menos autocráticos, mais pautados no diálogo, na paciência da condução dos ensaios, das palavras menos contundentes, diferentes da época de Toscanini, Fritz Reiner, Georg Szell, Charles Dutoit, Mravinsky e Carlos Kleiber. Na realidade, foi um longo processo de relações mais suaves que teve início ainda na década de 60. É de lembrar que Abbado, Giulini, Solti, Wand, Bernstein e até mesmo Celibidache exerciam suas prerrogativas de maestro com muita habilidade, sem renunciarem ao extremo rigor na busca da perfeição interpretativa. Acho também que os níveis técnico e profissional dos músicos atuais continuam com os mesmos padrões de excelência artística. Entendo ainda que a percepção dos músicos é mais completa do ponto de vista da partitura e da cultura musical, tornando o trabalho do maestro rico de possibilidades na recriação.

C.M.: Considera que a tendência recente para a predominância das gravações ao vivo tem algum impacto na maneira de fazer e/ou ouvir música orquestral?

S.L.: Na minha opinião, esta é uma questão de menor importância, do ponto de vista do maestro, dos músicos e da percepção do ouvinte. Não esqueça que desde tempos bem remotos das gravações, muitos discos foram gravados ao vivo, e lembraria aqui os registros históricos de Mengelberg com a Concertgebouw, de Furtwängler com a Filarmônica de Berlim, de Toscanini com a NBC, de Mitropoulos com Nova York, de Karajan com Viena e Berlim. Relembrem-se ainda as gravações live de Fritz Reiner com Chicago e de Mravinsky, quase sempre ao vivo com São Petersburgo, e cito somente alguns exemplos importantíssimos.

Lembro como me encantavam as gravações transmitidas pela Rádio MEC, do Festival de Salzburgo, em fins dos anos 50, tudo ao vivo. Recordo-me das primeiras gravações que ouvi do então lendário Celibidache, em transmissões ao vivo da RAI de Turim e de Milão, além das gravações piratas do mesmo Celibidache regendo Tchaikovsky, Ravel e Bruckner. Importa lembrar, por último, que um dos maiores milagres da história do disco, a Suite Quebra-Nozes regida pelo grande Mravinsky, foi gravada ao vivo.

C.M.: Tem seus favoritos entre os grandes (ou nem tão grandes) maestros?

S.L.: Diria que meus favoritos absolutos são Ievgueni Mravinsky, Sergiu Celibidache, Bruno Walter e Wilhelm Furtwängler. Amo igualmente as direções de Karajan regendo Richard Strauss, as óperas italianas e o primeiro ciclo das Sinfonias de Beethoven com a Filarmônica de Viena.

Gosto imensamente de Bruno Walter e de Josef Krips dirigindo Mozart, de Antal Dorati dirigindo Haydn, de Kemplerer regendo Brahms e Mahler, de Bernstein e Mravinsky com interpretações de Chostakovitch e de Carlos Kleiber regendo tudo, isto é, o pouco que gravou, infelizmente. Gosto muito das versões de Fritz Reiner (Mozart, Beethoven e os espanhóis), de Georg Szell (regendo as sinfonias de Dvorak), de Karl Böhm (com Mozart, Richard Strauss e Wagner), de Georg Solti no lendário Anel de Wagner. Lembro ainda as admiráveis versões de Rudolf Kempe na direção das obras de Richard Strauss e Beethoven, de Eugen Jochum dirigindo as Sinfonias de Bruckner, de István Kertész numa inesquecível 6ª de Dvorak ou então regendo Brahms.

Devo ainda confessar que sou admirador incondicional da escola húngara de regência (Ormandy, Solti, Reiner, Kertész e Szell) e da escola tcheca, que teve como grandes ícones Kubelik, Smetacek, Neuman e o venerável Vaclav Talich, este último o mentor de toda a tradição.

Recordo a bela versão de Jascha Horenstein na célebre gravação da Noite transfigurada de Schönberg, de Charles Münch na Sinfonia em ré menor de César Franck, de Toscanini na inigualável La Mer de Debussy. Relembrem-se também Adrian Boult nas Sinfonias de Elgar e Eduard Van Beinum com a Concertgebouw na inolvidável 4ª Sinfonia de Gustav Mahler.

A relação seria extensíssima, inclusive com Zubin Metha no Trovador e quase tudo regido por Philippe Herreweghe ou por Marcus Creed.

C.M.: E aqueles que consideraria subestimados ou superestimados?

S.L.: Posso afirmar que existem muitos maestros geniais e relativamente pouco conhecidos, como Václav Smetacek, Kurt Sanderling, Václav Neumann, Marcus Creed, Reinhardt Goebel e até mesmo Ievgueni Mravinsky. Poucos conhecem o notável trabalho do maestro japonês Masaaki Suzuki ou de outro grande diretor da tradição japonesa, Takashi Asahina, o primeiro, grande especialista em Bach e o segundo, venerável bruckneriano.

Quanto aos maestros não subestimados, mas de escassa popularidade, citaria alguns de minha preferência: Franz Konwitschny, István Kertész, Otmar Suitner, Michael Gielen, Edo de Waart, Karel Ancerl, Alexander Gibson e Bernard Haitink.

Dos brasileiros, admiro muito o trabalho de Eleazar de Carvalho, John Neschling, Roberto Minczuk, David Machado, Roberto Duarte. Um dos maestros brasileiros que aprecio, e que tem sido um pouco esquecido injustamente, não obstante enorme musicalidade, é Norton Morozowicz , que fez um notável trabalho à frente da Orquestra de Blumenal.

Devo dizer que prefiro muito mais André Previn e Vladimir Ashkenazy como pianistas do que como regentes, e Yehudi Menuhin infinitamente mais como violinista do que como diretor de orquestra.

C.M.: No eterno (e às vezes inútil) debate entre rigoristas da pauta e os “românticos” da interpretação, ou entre adeptos de Toscanini e os fãs de Furtwängler, seu coração pende para algum lado?

S.L.: Diria que não pende para nenhum lado. Com efeito, amo as concepções “românticas” de Furtwängler e de Eugen Jochum, as visões interpretativas “objetivas” de Toscanini, as concepções autenticistas de Kuijken, William Christie, Philippe Herreweghe, Suzuki ou Goebel ou mesmo de Jordi Savall.

Amo também, e muitíssimo, as concepções artesanais, de ourives, de Celibidache e Ievgeni Mravinsky ou de Svetlanov. Amo o rigor “romântico” de Georg Solti em Wagner, gosto, e muito, das visões ortodoxas da velha escola alemã de Hermann Abendroth, Gunther Wand ou Kurt Masur, adoro a “finesse” de Charles Münch e André Cluytens e o rigor flexível da regência de Eduard Van Beinum, grande mestre da escola holandesa. Não será demais afirmar que me maravilham as versões de Charles Dutoit da ópera Penélope, de Fauré, e das quatro sinfonias de Albert Roussel.

Devo fazer aqui uma modesta profissão de fé artística e intelectual: Não gosto da rigidez perceptiva, do pensamento único, das monomanias de alguns críticos e ouvintes, das visões estreitas e redutoras dos que não admitem interpretações “românticas”, só imaginando que existe a verdade revelada de uma improvável certeza das concepções “de época”. Acho que essas posições correspondem a uma espécie de “moral dos tristes”, ou de masoquismo de quem não sabe usufruir das maravilhas da interpretação musical em sua fascinante variedade. Acho que é nesta variedade que reside um dos fenômenos mais estupendos do mundo da música. Essas convicções, de resto, se aplicam não só à arte musical como também ao mundo do pensamento.

C.M.: No capítulo da interpretação autenticista, em seu livro, estou enganado ao ter a impressão de um possível preferência sua pelos argumentos contrários (pelo menos no espaço que ocupam?)

S.L.: Sem sofismar, afirmaria que foi apenas uma ilusão de ótica… Se fizerem um exame do número de maestros autenticistas que analisei no livro, poder-se-á verificar o quanto considero importante a emergência de novos maestros identificados com essa corrente: Monica Hugget, René Jacobs, Chiara Banchini, Paul Van Nevel, Paul Hillier, Gabriel Garrido, Hervé Niquet, Christophe Coin, Rinaldo Alessandrini, Fabio Biondi, etc. Se observarem bem, na página 171, quando analiso o legado do autenticismo, faço uma enumeração de dez itens relativos às suas contribuições para a musicologia interpretativa contemporânea.

C.M.: Você tem alguma experiência de um maestro de gestual tão “gráfico” que era como se estivesse “vendo” a música, ou a interpretação, sair de suas mãos (foi o caso, para mim, de um concerto de Ievgueni Svetlanov no Rio de Janeiro)?

S.L.: Essa questão dos maestros de gestual “gráfico” é relativa, quando se pensa que a maioria dos diretores não primava pela estética do gesto. Veja-se, por exemplo, o gestual econômico e imperioso de Celibidache, as técnicas de direção mínima de Mravinsky, o gestual quase descoordenado de Carlos Kleiber, os movimentos bruscos de Solti, a direção obscura de Furtwängler ou a regência desengonçada de Serguei Koussewitzky. Devo dizer que aprecio imensamente também os maestros que primaram pela clareza e elegância, como é o caso de Karajan, Abbado, Riccardo Muti, além da elegância gestual de Lorin Maazel e do próprio Svetlanov e de Paul Kletzki, que assisti nos anos 50 (creio), dirigindo no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

C.M.: Em suas andanças de estudioso e freqüentador de concertos em grandes centros musicais, que regentes hoje indicaria como excepcionais ou grandes?

S.L.: Cito principalmente Paris e Londres, que são as cidades em que passo parte do ano, sendo Londres, provavelmente, a cidade mais rica em programação musical. Em Londres, menciono os maestros que têm tido maior presença artística nas temporadas dos últimos anos: Esa Pekka Salonen, em grande evidência; Bernard Haitink; Antonio Pappano (excelente diretor de ópera); Valery Gergiev (um dos melhores maestros da atualidade, sobretudo no repertório russo); Tugan Sokhiev (excelente no repertório russo); Mariss Janssons; Simone Young (uma das melhores regentes da atualidade – ótima na regência do repertório de Wagner e Richard Strauss); Vladimir Jurowski (maestro notável que mescla técnica com personalidade).

Grandes e ainda em atividade aqui em Londres são os maestros Sir Colin Davis (regendo agora óperas de Mozart), Sir Charles Mackerras, Christoph von Dohnanyi, Richard Hickox, Charles Dutoit (sempre maravilhoso no repertório francês) e eventualmente Franz Welser-Möst. Lembro que as apresentações de Colin Davis e de Charles Mackerras possuem, até hoje, a força de um grande acontecimento.

C.M.: Algum maestro cujo trabalho de ensaios o tenha impressionado particularmente?

S.L.: Vi em vídeo alguns ensaios de orquestra inesquecíveis, como Karajan preparando a difícil 4ª Sinfonia de Schumann, Celibidache no ensaio da Sinfonia Clássica de Prokofiev e na Missa nº 3 de Anton Bruckner. Vi Mravinsky (em vídeo) no ensaio da 5ª Sinfonia de Tchaikovsky ou em CD ensaiando a 3ª Sinfonia de Brahms – uma lição eterna de regência e de concepção interpretativa. Admirável é ver Pierre Monteux ensaiando a 9ª Sinfonia de Beethoven e Bruno Walter numa antológica preparação da melhor versão que conheço da Sinfonia Linz de Mozart. Inesquecível é também o ensaio minucioso e transfigurador do Moldávia com o grande Ferenc Fricsay, poucos meses antes de sua morte. Recentemente fiquei impressionado com o ensaio do Mandarim maravilhoso de Bartok com Maris Janssons em trabalho complexo, minucioso e exigente de controle, disciplina, comunicação, clareza e domínio instrumental e das sonoridades.

Presenciei em Milão, na década de 90, um ensaio de Riccardo Muti no Rigoleto, de uma precisão, habilidade, bom gosto e profundo conhecimento da arte vocal e orquestral. Impressionaram-me, sobretudo, os métodos e processos de comunicação de Muti, a objetividade de suas intervenções e a paciência no fazer e refazer cada passagem da partitura.

Recomendados Para Você:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *