Vegetarianos na briga pela saúde, pelos animais e pelo planeta.

Quer polêmica? Ouça a discussão de um vegetariano com um freqüentador de rodízios, aficionado por picanha malpassada, sobre a necessidade ou não de ser carnívoro. Mas o vegetarianismo não prega apenas a não ingestão de carne – mesmo branca – e de subprodutos como salsicha e presunto. Além dos argumentos ligados à manutenção da saúde, está na lista de preocupação dos vegetarianos o bem-estar dos animais e a preservação do meio ambiente.



Há várias vertentes de vegetarianismo. Os ovo-lacto-vegetarianos são os mais “populares”: eles não comem nada que seja fruto da morte de um animal. Portanto, se abstêm de carne, mas ingerem ovos e laticínios. Os lacto-vegetarianos consomem, além de vegetais, apenas leite e derivados. Já os veganos ou vegan não comem nada de origem animal – incluindo mel, gelatina e muitos outros nutrientes que nem passam pela cabeça dos onívoros – aqueles que consomem todos os tipos de alimentos. O veganismo é mais que um hábito alimentar, é uma filosofia de vida. Eles também evitam o uso de couro, lã, seda e de outros produtos menos óbvios de origem animal, como óleos e secreções presentes em sabonetes, xampus, cosméticos, detergentes e perfumes. Por mais radicais que sejam, os vegans sabem que é impossível evitar completamente os produtos de origem animal: até o cinema seria vetado nesse caso, já que a película tem gelatina. Também fazem parte da corrente vegetariana os crudívoros, que comem apenas alimentos crus por acreditarem que o cozimento destrói suas propriedades e os frugívoros, que só se alimentam com frutas.




De acordo com Marly Winckler, presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), o vegetarianismo no Brasil vai de vento em popa. “A demanda por informações, as visitas a sites especializados e os eventos sobre vegetarianismo estão aumentando muito. Além disso, a oferta de produtos e serviços para esse segmento cresce a olhos vistos”. Marly, que hoje segue dieta vegana, tem seu argumento para a adesão a esse hábito alimentar: “Não temos necessidade alguma de consumirmos carne. Podemos ter uma saúde excelente, com impacto muito menos agressivo sobre os recursos naturais e, ainda por cima, não nos associarmos aos enormes sofrimentos impostos aos animais por causa da alimentação centrada na carne”. Ou seja, na opinião da presidente da SVB, além dos benefícios na alimentação sem carne, os vegetarianos contribuem para um mundo melhor.


 



Não comer carne faz bem à saúde?



Bem, segundo a pesquisadora da Associação Brasileira de Nutrição (ASBRAN) Flávia Schwartzman, qualquer dieta depende da quantidade e variedade de alimentos. “Uma dieta só de batata e banana é vegetariana e ruim, assim como comer só carne e ovo também é ruim”, diz ela. Flávia acredita que quanto mais restrita a dieta, como a dos veganos que excluem todos os alimentos de um grupo, maior a possibilidade de deficiência nutricional. “Nesses casos, é interessante utilizar suplementos alimentares, como, por exemplo, para vitamina B12 que só se encontra em alimentos de origem animal. Também é necessário tomar cuidado com a anemia, porque o ferro encontrado nas carnes é mais abundante e melhor absorvido pelo organismo do que nos vegetais”, afirma.



Flávia Schwartzman explica que as proteínas encontradas na carne são muito importantes e diferentes das vegetais, mas que uma boa variedade na alimentação pode suprir este nutriente: as leguminosas (lentilha, feijão, grão de bico…), os cereais, grãos, sementes, ovo, leite e principalmente a soja e seus derivados contêm bastante proteína. “A dieta só não pode ser monótona porque esses alimentos se completam”, ensina.


A nutricionista alerta que quando gestantes fazem alguma restrição alimentar devem tomar ainda mais cuidado com a dieta. Vegetarianos costumam ingerir menos calorias que o necessário, diminuindo o ganho de peso. Além disso, grávidas, em geral, estão no grupo de risco da anemia, também comum em vegetarianos. “É claro que ganhar peso demais na gravidez não é bom, mas se a mãe ganha pouco peso, isso se reflete no bebê, que pode vir muito pequeno ou prematuro”, alerta Flávia, que recomenda às gestantes a ingestão ao menos de laticínios ou de suplementação alimentar. “Apesar de, muitas vezes, elas se recusarem por valorizar hábitos naturais”, comenta.



A Associação Americana de Pediatria, conforme aponta Flávia, afirma que as dietas vegetarianas podem ser boas para crianças desde que haja um cuidadoso planejamento. Flávia Schwartzman alerta que, além de preocupar-se em incluir proteína na alimentação – não só de crianças, mas também de adultos -, é muito importante não se esquecer das calorias. “Dietas com muitas fibras acabam restringindo a ingestão de carboidratos, por causa da saciedade que vem muito rápido. Na falta de carboidratos, o organismo transforma as proteínas em energia, em vez de utilizá-las em tarefas que chamamos mais nobres, como a reconstrução de tecidos”.



Pesquisas constatam que há vantagens em uma dieta vegetariana, caso ela seja adequada. Esse tipo de alimentação pode proteger o coração, diminuindo o risco de hipertensão e diabetes, e também prevenir certos tipos de câncer e o sobrepeso. Os vegetarianos afirmam ainda que proteína demais sobrecarrega o fígado, no que Flávia concorda. No entanto, ela diz que isso não quer dizer que seja preciso cortar toda uma classe de alimentos. A nutricionista salienta que é importante tirar o foco de um alimento – nesse caso a carne – e pensar na alimentação como um todo. “Se houver equilíbrio, não precisa haver restrição”.


 



Pelos animais e pelo meio ambiente


Além da saúde, muitos vegetarianos não comem carne por respeito aos animais. Esse é o caso de Luiza Cilente, que excluiu completamente o alimento da dieta há quatro anos. “Parei de comer porque comecei a me informar sobre os animais, a crueldade que é a vida e a morte deles. Depois disso não conseguia mais comer. Só por saúde, eu acho que não teria parado naquela época. Hoje eu estou muito mais ligada nessa questão”.



A presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira, Marly Wincker, adotou a dieta ovo-lacto-vegetariana na década de 80 e o veganismo em 1994, segundo ela, por questões éticas. “Eu sou contra a maneira como os animais são criados para fornecer ovos e leite. Acho que a alimentação vegetariana estrita causa menos impacto sobre a saúde das pessoas, dos animais e do planeta”. Ela defende que os benefícios à saúde e ao meio ambiente são enormes, e critica os médicos que são contra o vegetarianismo. “Acredito que muitos profissionais da saúde ainda não se deram ao trabalho de estudar o grande número de artigos científicos que atestam o bem que o vegetarianismo faz para a saúde, a exemplo do parecer da Associação Dietética Americana. Por isso, continuam seguindo os preconceitos da cultura em que estamos imersos. O mesmo acontece com muitos ambientalistas, que ainda comem carne, uma contradição enorme, na minha opinião. Mas isso também começa a mudar”, finaliza Marly Wincker.

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