Você aprendendo um poco mais sobe sua saude! 3

A tradicional psicanálise com longos e profundos tratamentos já não é opção única. Psicanalistas pelo mundo afora estão apostando na possibilidade de tratar alguns casos em curto prazo, focando no que eles chamam de efeitos terapêuticos rápidos – sessões que são oferecidas gratuitamente por profissionais com bastante experiência e muitas horas de divã. A idéia surgiu há seis anos, em Paris, e hoje também é oferecida no Brasil, inclusive em Belo Horizonte, nos chamados Centros Psicanalíticos de Consulta e Tratamento (CPCTs).

Esses efeitos terapêuticos rápidos não são uma novidade e sempre estiveram presentes na psicanálise, como explicou o psicanalista francês Jean-Daniel Matet, que atende no centro em Paris, membro da Ècole de la Cause Freudienne e da Associação Mundial de Psicanálise, em passagem por BH. “Sempre foi comum observar pacientes com melhora sintomática rápida, com poucas sessões. Tenho o caso de um paciente de 10 anos, por exemplo, que, com apenas duas consultas, os sintomas desapareceram, só por falar e ter alguém para ouvir seus problemas.” Ciente dessa possibilidade, os psicanalistas estão também buscando atender uma demanda do que alguns estudiosos chamam de o homem apressado (em tradução livre). “Com as máquinas, tudo vai mais rápido, e as pessoas que sofrem querem acabar com esse sentimento rapidamente. Por isso, estamos buscando atender essa demanda inicial”, avalia.

Matet explica que alguns atendimentos curtos, de terapias breves, vão usar métodos, como os de vivência do medo ou uma reeducação, e essa não é a proposta da psicanálise, que quer que cada paciente encontre a própria solução. “Queríamos poder fazer algo mais rápido, mas que nos parecesse sólido. Sabemos que para mudanças profundas precisamos de mais tempo. Mas, para um problema específico, e pessoas que não queiram ou não possam ir além, é possível trabalhar sobre os efeitos terapêuticos rápidos.”

Nos CPCTs os tratamentos são gratuitos, com no máximo 16 sessões, e realizados por profissionais com muitos anos de profissão. “Trabalhamos com a psicanálise de forma reduzida. Por isso, só profissionais com bastante experiência atuam. Os casos também são discutidos em grupo, estudados com mais tempo, o que também acaba tendo um caráter educativo para os psicanalistas”, explica o psicanalista Sérgio Laia, professor da Universidade Fumec e um dos 60 profissionais que trabalham no centro da capital. Para Sérgio, além dessa demanda pessoal dos pacientes, existe uma outra utilidade para os efeitos terapêuticos rápidos, que é a possibilidade de participar de programas sociais. “Há uma urgência social, mas também institucional, como no caso dos atendimentos dentro de universidades e também em programas amplos, como contra a violência urbana.”

Simone Souto, psicanalista e diretora da seção Minas Gerais da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e coordenadora do CPCT-MG, explica que existe outro centro em Salvador e dois estão em processo de formação, um no Rio de Janeiro e outro em São Paulo. “Todos os pacientes passam por uma ou até três consultas antes de iniciar um tratamento. Nessa consulta, profissionais da EBP vão analisar o caso e orientar a equipe de tratamento”, explica. “Além disso, trabalhamos num sistema de supervisão dos casos e realizamos uma discussão quinzenal de todo o funcionamento. Uma forma de aprendizado para os próprios psicanalistas, que vai se refletir inclusive nos consultórios.”

Simone explica que, a princípio, não há uma regra sobre os pacientes que podem ou não ser atendidos, mas há casos em que a pessoa precisa ser encaminhada para locais onde haja atendimento contínuo. “Se o paciente está em crise, precisando de apoio 24 horas, não podemos estar disponíveis. Além disso, não lidamos com medicação.” Simone explica que são atendidas pessoas com dificuldades variadas, como depressão, problemas no trabalho, vida amorosa, síndrome do pânico, anorexia, bulimia etc. “São casos que provocam efeitos terapêuticos rápidos interessantes. Algumas pessoas fazem os quatro meses, solucionam o problema e ficam satisfeitas. Outras, a partir dessa experiência, sentem vontade de saber um pouco mais da sua própria vida e procuram consultórios.”

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