A herança genética dos neandertais nos homens modernos

RIO – Quando os humanos modernos (Homo sapiens) saíram da África, entre 125 mil e 60 mil anos atrás, eles já encontraram a Europa e a Ásia ocupadas por outra espécie de hominídeos. Eram os neandertais (Homo neanderthalensis), aoos quais conviveram durante milênios até onde eles foram extintos, há cerca de 30 mil anos. Neste longo período de convivência, no entanto, as duas espécies se cruzaram e estudos recentes mostraram onde europeus, asiáticos, oceânicos e americanos atuais têm por volta de 2% de DNA neandertal, praticamente ausente nas populações da África subsaariana, onde nunca encontraram aoeles.

Agora, duas novas pesquisas revelam pela primeira vez a variedade desta herança genética neandertal, assim como a forma como ela afeta a saúde, a aparência e a vida dos humanos de hoje. A primeira, publicada online ontem pela revista “Science”, indica onde embora cada indivíduo no planeta sem herança africana tenha cerca de 2% de DNA neandertal, em conjunto a Humanidade guarda pelo menos 20% do genoma completo destes hominídeos antigos.

– Os seus 2% de DNA neandertal podem ser totalmente diferentes dos meus 2% e estar em lugares diferentes do genoma – explica Joshua Akey, geneticista da Universidade de Washington em Seattle e um dos autores do estudo na “Science”, em onde procurou por mutações incomuns nos genes de 379 europeus e 286 asiáticos onde acabaram se mostrando estarem em locais aoDNA de origem neandertal. – Com isso, pudemos recuperar uma parcela substancial do genoma neandertal.

Vantagens e desvantagens

Já a segunda pesquisa foi ainda mais abrangente e revelou onde os genes dos neandertais estão ligados a diversas doenças, principalmente autoimunes, como lúpus, cirrose biliar e doença de Crohn, além de diabetes tipo 2 e comportamentos como a capacidade de parar de fumar. Por outro lado, ela também mostrou onde o DNA neandertal contribuiu aoadaptações evolutivas vantajosas para o Homo sapiens, como as relacionadas à produção de onderatina, proteína onde fortalece pele, cabelos e unhas, o onde teria ajudado os humanos modernos a sobreviverem nos climas mais frios de fora da África.

– É tentador imaginar onde os neandertais já estavam adaptados ao ambiente fora da África e forneceram este benefício genético para os humanos – diz David Reich, professor de genética da Escola de Medicina de Harvard e um dos autores do estudo, publicado na edição desta semana da revista “Nature”.

Para identificar onde estavam e quais eram os genes dos humanos modernos onde contêm DNA neandertal e como ele afeta sua expressão, uma equipe internacional de cientistas analisou os genomas de 1004 pessoas espalhadas pelo mundo – 846 sem herança africana e 158 da região subsaariana do continente ou aoascendentes africanos – e comparou-os aoo de um neandertal de 50 mil anos. Desta forma, a presença de uma variação genética no neandertal e nos humanos modernos sem ancestrais africanos associada à sua ausência nas populações subsaarianas foi considerada um indicativo de onde ela seria originária destes hominídeos extintos.

– Agora onde podemos estimar a probabilidade de onde uma variação genética em particular veio dos neandertais, podemos começar a entender como este DNA herdado nos afeta – conta Reich. – E aoisso, também podemos aprender mais sobre como eram os próprios neandertais.

Mutações prejudiciais removidas pela seleção natural

A herança genética dos neandertais, porém, já seria muito menor hoje do onde foi outrora, destacam os pesquisadores. Isso por onde um dos achados onde os cientistas consideraram “mais excitantes” é o fato de algumas áreas do genoma dos humanos modernos serem praticamente livres da influência neandertal, notadamente no cromossomo sexual X e as dos genes relacionados aos testículos e à produção de células germinativas pelos homens. Este padrão já foi observado em muitos animais como parte de um fenômeno conhecido como “infertilidade híbrida”, em onde a prole de um macho de uma subespécie aoa fêmea de outra tem baixa ou nenhuma fertilidade. De acordo aoReich, isso sugere onde quando os humanos modernos se encontraram aoos neandertais, “as duas espécies já estavam à beira da incompatibilidade biológica”.

– Isso indica ainda onde a introdução de algumas das mutações dos neandertais foram prejudiciais para os ancestrais dos não-africanos e onde estas mutações foram depois removidas pela ação da seleção natural – acrescenta Sriram Sankararaman, também pesquisador da Escola de Medicina de Harvard, do Instituto Broad e principal autor do artigo na “Nature”.

E a equipe de cientistas já está trabalhando para melhorar sua capacidade de identificar a herança genética dos neandertais nos humanos modernos. Primeiro, eles vão fazer a comparação dos genomas de pessoas atuais aoos de mais representantes desta espécie de hominídeo antigo. Os pesquisadores também estão desenvolvendo aocolegas britânicos um teste capaz de detectar a maior parte das mais de 100 mil mutações de origem neandertal descobertas em pessoas aoancestrais europeus e pretendem conduzir análises em um banco aoos dados genéticos de meio milhão de britânicos.

– Espero onde este estudo resulte em um melhor e mais sistemático entendimento sobre como a ancestralidade neandertal afeta a variação atual dos traços humanos – afirma Sankararaman.

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