A importância de não se errar na dose do remédio.

O Brasil acaba de bater mais um recorde pelo qual não há o que comemorar. Um relatório divulgado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revela que os casos de intoxicações por medicamentos têm crescido de forma preocupante no País. Só em 2006 pelo menos 32,8 mil pessoas foram intoxicadas por uso de remédios. Um dado 30% maior do que o registrado em 2005. Dentro desse universo, São Paulo liderou com mais de 13,4 mil ocorrências. Outra constatação alarmante diz respeito ao perfil das vítimas. De acordo com o estudo, 36% eram crianças com menos de cinco anos. “É um dado surpreendente porque nunca havíamos ultrapassado o limite de 25 mil casos por ano”, afirma a pesquisadora Rosany Bochner, coordenadora do Sistema Nacional de Informações Tóxicofarmacológicas da Fiocruz.


Entre as principais causas de intoxicação identificadas estão o uso acidental, principalmente por crianças pequenas, os erros na administração, ou seja, dose ou via erradas, os efeitos adversos e a automedicação. A assistente de recursos humanos Eliane Monteiro, 28 anos, faz parte dessas estatísticas. Depois de usar um descongestionante nasal por conta própria, ela foi parar no pronto-socorro por causa dos efeitos adversos. “Fiquei com o rosto inchado e o corpo cheio de pequenos caroços. Hoje tomo cuidado porque tive outras ocorrências semelhantes com medicamentos como analgésicos e antitérmicos”, conta.


Para a pesquisadora da Fiocruz, porém, o que está por trás de todo o problema é o consumo exagerado de remédios. “Isso é propiciado pela falta de acesso da população ao sistema de saúde, pelo apelo da indústria farmacêutica com propagandas que induzem ao consumo e pela facilidade com que se compram remédios nas farmácias”, acredita. O que os médicos alertam é que o consumo de medicações sem critérios, além de muitas vezes mascarar um problema de saúde, pode trazer complicações graves e até fatais. Isso acontece principalmente quando ocorre o que os especialistas chamam de interação medicamentosa. “O problema surge porque algumas substâncias, quando associadas, podem interferir uma na ação da outra, potencializando ou reduzindo os efeitos”, explica Raquel Rizzi, presidente do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo. Um exemplo é o resultado de tomar um anticoagulante, medicação que impede a formação de coágulos, com um antibiótico: a combinação pode levar a uma séria hemorragia.


Na opinião do médico Antonio Carlos Lopes, presidente da Associação Médica Brasileira, a ausência de um bom relacionamento entre o médico e o paciente também estimula a automedicação, favorece o uso incorreto do medicamento e até o abandono do tratamento “Em geral as consultas são rápidas e não sobra tempo nem para o paciente dizer se toma ou não algum remédio e nem para o médico explicar como o medicamento deve ser tomado e quais os efeitos colaterais possíveis. Sem orientação, o risco é potencializado”, afirma Lopes.


O problema é mundial. Um estudo nos EUA mostrou que o total de mortes por uso inadequado de medicamentos aumentou mais de 700% nas últimas duas décadas. Os pesquisadores compararam os números de óbitos por intoxicação ocorridos em 1983 e 2004. Há 25 anos, eles foram cerca de 1,1 mil. Quatro anos atrás, a taxa foi de 12,4 mil. Os autores do estudo atribuem essa situação ao aumento desenfreado do consumo de medicamentos como analgésicos e drogas mais potentes que há algum tempo só eram distribuídas dentro dos hospitais. Mas também acreditam que o problema está vinculado ao comportamento dos médicos. “Há uma diminuição da supervisão médica e uma tendência de colocar a responsabilidade nos ombros dos pacientes”, afirma David Phillips, autor do estudo e cientista da Universidade da Califórnia (EUA).


Há ainda outra questão. Especialistas de todo o mundo têm chamado a atenção para o aumento nas prescrições. O que se questiona é se os médicos não estariam receitando remédios demais, ou seja, sem necessidade. Dados do Sistema Nacional de Saúde da Inglaterra, por exemplo, revelam que só em 2007 os médicos fizeram cerca de 796 milhões de prescrições. Um número 57% maior que dez anos antes. Pelo menos dois terços dessas receitas foram para pacientes com idade acima de 60 anos.


Um outro estudo, feito pela empresa Loydspharmacy, em Londres, identifi- cou mais um aspecto preocupante. De acordo com a pesquisa, de cada cinco ingleses, um afirmou tomar o remédio prescrito pelo médico de forma errada. “Sabemos que as pessoas escolhem completar ou não seu tratamento. Mas essa pesquisa revelou um tipo diferente de problema. Por alguma razão, os pacientes estavam tomando seus remédios de maneira incorreta”, explica Andy Murdock, diretor da Loydspharmacy. Segundo ele, o que se descobriu é que faltava orientação para os pacientes. “Muitos não sabiam como usar um inalador ou quais eram os intervalos entre uma dose e outra”, conta Murdock.


Uma das medidas adotadas na Inglaterra para reduzir os casos de intoxicação e de uso incorreto de medicamentos tem se mostrado eficiente: os profissionais de farmácias passaram a atuar como orientadores da população. O resultado apurado é que 25% dos que receberam ajuda do farmacêutico completaram o tratamento e 55% acertaram a forma de tomar o medicamento. “É vital que o doente seja bem orientado”, afirma Steve Field, professor do Royal College de Londres.


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