A reprodução dos albatrozes

 


 


Reprodução



Os albatrozes são aves marítimas coloniais, que nidificam geralmente em ilhas isoladas. Em territórios de carácter mais continental, encontram-se em promontórios com boa acessibilidade para o mar em praticamente todas as direcções, como na Península de Otago em Dunedin, na Nova Zelândia. As colónias variam desde agregados muito densos, típicas dos albatrozes do género Thalassarche, como nas colónias de albatrozes-de-sobrancelha (nas Malvinas têm uma densidade média de 70 ninhos por 100 m²), até grupos menores e com ninhos individuais mais espaçados, típicos dos piaus e dos grandes albatrozes. Todas as colónias de albatrozes situam-se em ilhas que, em termos históricos, se apresentavam livres de mamíferos. Os albatrozes são muito filopátricos, o que significa que geralmente voltam para a sua colónia natal para procriar. Esta tendência é tão forte que um estudo sobre albatrozes-de-laysan demonstrou que a distância média entre o local de eclosão do ovo e o local onde a ave estabelece o seu próprio território é de 22 metros.[22]


Como muitas outras aves marinhas, apresenta uma estratégia demográfica de tipo selecção “K”, isto é, baixa natalidade, compensada por uma longevidade relativamente grande: atrasam a altura de procriar para mais tarde, investindo maiores esforços no acompanhamento dos mais jovens. Os albatrozes têm um período de vida relativamente prolongado. A maior parte das espécies vive mais de 50 anos. O espécime com maior longevidade registada foi um albatroz-real-setentrional anilhado em adulto e que sobreviveu por mais 51 anos, o que permite estimar que tenha vivido cerca de 61 anos.[23] Dado que a maior parte de projectos científicos de anilhagem de albatrozes é mais recente que neste caso, é provável que se venha a descobrir que outras espécies têm uma maior longevidade.



Apontar para o céu é um dos gestos estereotipados das danças típicas da parada nupcial dos albatrozes-de-laysan.

Apontar para o céu é um dos gestos estereotipados das danças típicas da parada nupcial dos albatrozes-de-laysan.

Os albatrozes atingem a maturidade sexual tardiamente, com cerca de cinco anos de idade, mas mesmo depois de atingirem a maturidade, não acasalam por mais alguns anos (mais de 10, em algumas espécies). Os albatrozes jovens, ainda não preparados para acasalar, retornam por vários anos às colónias apenas para praticar os elaborados rituais de acasalamento e as danças pelas quais esta família de aves é famosa.[24] As aves que voltam pela primeira vez à colónia já apresentam os comportamentos estereotipados que compõem a sua linguagem, mas são ainda incapazes de interpretar esses mesmos comportamentos quando exibidos por outros, nem responder de forma apropriada.[13] Depois de um período de aprendizagem por tentativa e erro, as jovens aves começam a entender a sintaxe própria destes comportamentos e aperfeiçoam as dança. Esta linguagem será dominada mais rapidamente se estiverem em contacto com as aves mais velhas.


O repertório destes comportamentos involve actuações sincronizadas de acções diversas, como gestos de higiene pessoal (catar-se), apontar para determinadas direcções, chamamentos, fazer sons batendo com os bicos, fixar o olhar em determinadas poses e combinações mais ou menos complexas destes comportamentos, como o “chamamento para o céu” (sky-call).[25] Quando um albatroz volta à colónia, dança com vários parceiros, mas, após anos sucessivos, o número de aves com que interage vai decaindo, até que é escolhido apenas um parceiro, formando-se um par monogâmico que se manterá para o resto da vida. Continuam, contudo, a aperfeiçoar a sua linguagem individual, que poderá, eventualmente, tornar-se única para esse par, ainda que parte das danças não voltem a ser, depois, usadas.


Crê-se que os albatrozes efectuam estes cuidadosos e elaborados rituais para assegurar que a escolha feita é a mais correcta e para permitir um melhor reconhecimento do seu parceiro, já que a postura do ovo e o acompanhamento da cria é um investimento importante. Mesmo espécies que conseguem completar um ciclo reprodutivo em menos de um ano raramente efectuam posturas em anos consecutivos.[9] Os grandes albatrozes levam mais de um ano a cuidar da cria desde a postura até que esta aprende a voar. Os albatrozes põem um único ovo durante a estação reprodutiva. Se o ovo for capturado por predadores ou partido acidentalmente, não haverá qualquer tentativa adicional de acasalamento nesse ano. A ocorrência de “divórcios” entre pares de albatrozes é algo de muito raro e, quando acontece, é apenas depois de vários anos de acasalamento falhado.



Uma cria de albatroz no Papahānaumokuākea Marine National Monument, a maior área marinha protegida do mundo.

Uma cria de albatroz no Papahānaumokuākea Marine National Monument, a maior área marinha protegida do mundo.

Todos os albatrozes meridionais fazem grandes ninhos para os seus ovos, enquanto que as três espécies do Pacífico Norte os fazem de forma mais rudimentar. O albatroz-das-galápagos, por seu lado, não faz qualquer ninho, chegando mesmo a deslocar o ovo pelo seu território por distâncias que chegam a atingir os 50 metros, provocando, por vezes, danos irreparáveis neste.[26] Em todas as espécies de albatroz, cabe aos dois progenitores a incubação do ovo em turnos que podem variar desde um dia a três semanas. A incubação dura entre 70 a 80 dias (maior para os grandes albatrozes), o que representa o maior período de incubação de qualquer ave. É um processo que pode ser particularmente exigente em termos de gastos energéticos, podendo os adultos perder cerca de 83 gramas de massa corporal por dia.[27]


Depois da eclosão, a cria é protegida pelos progenitores por três semanas até ter porte suficiente para se defender e para executar termorregulação. Durante este período, os progenitores alimentam a cria com pequenas refeições providenciadas quando rendem os turnos. A cria é alimentada em intervalos regulares pelos dois progenitores que adoptam padrões alternados de viagens curtas e longas, providenciando refeições que representam cerca de 12% do seu peso corporal (cerca de 600 g).



Os albatrozes criam os filhotes até que estes tenham porte suficiente para se defenderem e termorregularem a si mesmos (aqui, um albatroz-de-amsterdão com uma cria).

Os albatrozes criam os filhotes até que estes tenham porte suficiente para se defenderem e termorregularem a si mesmos (aqui, um albatroz-de-amsterdão com uma cria).

As refeições são compostas tanto por lulas, peixe e krill como por óleo estomacal, particularmente rico em energia química e cujo transporte é mais fácil que o de presas não digeridas.[28] Este óleo é produzido pelos Procellariformes num órgão estomacal conhecido como proventrículo a partir do alimento digerido, dando a estas aves um cheiro característico a mofo.


As crias de albatroz levam muito tempo até aprenderem a voar. No caso dos grandes albatrozes, o processo pode levar até 280 dias. Mesmo no caso de albatrozes de menor porte, poderá demorar 140 a 170 dias.[29] Tal como no caso de muitas aves marinhas, as crias de albatroz têm de suplantar o próprio peso dos progenitores, de modo a utilizarem estas reservas suplementares para criarem condições corporais (como o crescimento de uma plumagem de voo adequada), pelo que começam a voar sensivelmente com o mesmo peso dos progenitores. Depois de aprenderem a voar, por si mesmos, deixam os progenitores por iniciativa própria. Estes, ainda assim, voltam ao local de nidificação demorando a aperceber-se que a cria já os abandonou. Estudos sobre a dispersão de aves jovens pelo oceano sugerem que exista um comportamento migratório inato, como uma rota de navegação codificada geneticamente, que as ajuda a orientarem-se no mar

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