Animais políticos

Lição que o pessoal da Idade Média demorou muito para aprender: não é porque o sujeito se chama Aristóteles que ele está livre de falar bobagem. Quer um exemplo? A famosa frase do filósofo que define o homem como “animal político”. Para começar, olha só o etnocentrismo: em grego, a máxima não quer dizer exatamente que somos animais políticos, mas sim animais da polis, ou seja, a instituição da cidade-Estado adotada por todas as comunidades da Grécia Antiga. O pressuposto é que, se você não vive numa cidade-Estado grega, não é exatamente gente, ou pelo menos precisa melhorar suas instituições políticas pra virar gente de verdade. Então tá, Aristóteles.

A afirmação, porém, continua sendo problemática mesmo se for traduzida do jeito usual. A nossa espécie pode ter introduzido um grau extra de sofisticação às lides com a coisa pública (tipo caixa dois e grampos, digamos), mas fazer política é, ao que tudo indica, uma paixão de grande parte dos animais sociais do planeta, de insetos a grandes macacos (dos quais somos apenas uma subdivisão). Duvida? Pois este colunista terá o maior prazer em esmiuçar alguns exemplos, mais do que suficientes para justificar a instauração da CPI da Abelha-Rainha ou garantir o impeachment do chimpanzé-alfa.

Antes de navegarmos nesse mar de lama, no entanto, já posso ouvir os protestos de Vossas Excelências no plenário. Atribuir maracutaias políticas a animais não equivale a cometer o pecado do antropomorfismo, ou seja, de enxergar atitudes e intenções humanas em espécies que não a nossa, falsificando a verdadeira natureza delas? Não, de jeito nenhum.

O antropomorfismo, ouso dizer, é precisamente a maneira mais correta de encarar as manobras políticas entre os animais do ponto de vista evolutivo. É claro que cada espécie tem suas particularidades e capacidades mentais únicas, mas o parentesco comprovado entre nós e todas as formas de vida só pode significar que a diferença entre a política humana e a dos bichos é apenas de grau. Isso vale ainda mais para primos tão próximos quanto os chimpanzés e gorilas, mas se reflete até na evolução convergente (gerada, em paralelo, por condições de vida em sociedade parecidas) com espécies mais distantes. Com os devidos cuidados, faz todo sentido antropomorfizar os bichos.

Após essa palavra de cautela, vamos ao que interessa: política animal.

Nepotismo
Os caras-de-pau que colocam a mãe, a tia, o sobrinho, o tio-avô e o papagaio da família em cargos de confiança definitivamente não inventaram nada. O favorecimento de parentes é uma das práticas mais disseminadas nas sociedades animais, e por uma razão muito simples: quem favorece a um parente favorece a si mesmo. Bem, pelo menos a parte de si mesmo.

É facílimo de explicar. Indivíduos aparentados a nós, como irmãos ou pais, carregam uma fatia considerável do nosso próprio DNA – cerca de 50%, nos casos citados, graças à origem “repartida ao meio” do nosso material genético causada pela reprodução sexuada. (Lembre-se de que metade dos seus genes vêm do seu pai e a outra metade, da sua mãe.) Fazendo as contas, um político que empregar oito primos em seu gabinete está, na prática, garantindo o sustento de outra versão de si mesmo!

A aparentemente disciplinada e altruísta sociedade das formigas não ficou imune a essa lógica implacável. Experimentos feitos com a Formica fusca, uma espécie de formiga européia que tem mais de uma rainha em cada colônia, revelou que as operárias tentam manipular a população do ninho em favor de suas próprias irmãs. As formigas operárias filhas de uma das rainhas cuidam melhor dos ovos e larvas produzidos por sua própria mãe e aparentemente negligenciam a prole da outra rainha (lembre-se de que, entre formigas, só as soberanas costumam se reproduzir). O comportamento só pode ser descrito como uma tentativa nepotista de tomar conta do formigueiro.

Estudos feitos com chimpanzés de Uganda também mostraram que os machos da espécie dão preferência a seus irmãos maternos na hora de catar piolhos ou compartilhar carne obtida em caçadas. Por que apenas os maternos? Ora, porque a monogamia inexiste entre os chimpas, de maneira que só é possível ter certeza de que Fulano é seu irmão se você o viu nascer da sua mãe.

Assassinato político
Outra espécie social normalmente considerada símbolo de vida política ordeira, a abelha doméstica, só vive num reino de paz e harmonia na cabeça dos filósofos. Experimente colocar duas abelhas rainhas lado a lado na mesma colméia. O melhor que pode acontecer é que uma delas lidere um êxodo em massa, levando fração significativa das operárias consigo para fundar outra colônia. Se as duas insistirem em ficar, porém, trava-se um duelo até a morte para decidir quem governará a colméia. Como diria o pessoal da série “Highlander”, só pode haver uma. Os imperadores romanos certamente aprovariam a técnica.

Golpe de Estado
Ainda no mundo das abelhas, é importante lembrar que a rainha não tem exatamente um poder de vida e morte sobre as operárias. Aliás, longe disso. Embora seja paparicada e alimentada por toda a vida com geléia real, a monarca também é lambida – isso mesmo, lambida – constantemente por suas subordinadas. O ritual serve para espalhar pela colônia mensageiros químicos, os chamados feromônios, que trazem informações sobre o vigor e a saúde da rainha. Se as operárias perceberem que o “gostinho” da soberana está ficando capenga, o que indica que sua fertilidade está se esvaindo, a solução é simples: produzir uma nova rainha, alterando a dieta de uma das larvas em “gestação” na colméia.

Dividir para governar
Divide et impera, dizia-se na velha Roma: se quer governar um grupo, tente dividi-lo primeiro e você verá como fica mais fácil. A sucessão de lideranças na colônia de chimpanzés do zoológico de Arnhem, na Holanda, é um dos exemplos mais bem documentados disso no reino animal.

Durante muito tempo, o grupo de quase 30 chimpanzés era governado com muita astúcia por Yeroen, macho de meia-idade. Como as fêmeas adultas eram bem mais numerosas que os machos naquele bando, Yeroen solidificou sua posição paparicando as garotas, em especial a respeitada matriarca Mama. Tudo ia bem até que Luit, macho pouco mais jovem que Yeroen, resolveu se aliar ao jovem e vigoroso Nikkie para destronar o chefão.

A estratégia dos dois foi simples e elegante. Luit dedicou-se a desafiar diretamente Yeroen, que estava perdendo o vigor físico, com demonstrações de força (deixando o pêlo arrepiado, gritando e atirando pedras, entre outras coisas) e partindo para a agressão esporadicamente. Já Nikkie quase nunca atacava Yeroen diretamente, mas se concentrou em minar sua base de poder entre as fêmeas: toda vez que o chefão e Luit chegavam perto das vias de fato, Nikkie impedia que as fêmeas fossem socorrer Yeroen.

Pior ainda: extremamente ágil e forte, o macho recém-adulto era mestre em dar um tapão nas fêmeas adultas, que as fazia cair de ponta-cabeça, e depois saía correndo. A mensagem era clara: com a aliança entre Nikkie e Luit, Yeroen não mais era capaz de evitar agressões contra suas protegidas. O resultado é que, conforme as semanas passavam, as fêmeas passaram a reconhecer Luit como o novo líder, deixando o “partido” de Yeroen, que finalmente foi destronado. Quer saber da maior? Logo depois desse golpe de Estado, Nikkie ficou descontente com a posição de capanga de Luit e se uniu ao ex-monarca para tomar o poder para si mesmo. Isso é que é lealdade…

Arbitragem
Outra história sensacional sobre os chimpanzés de Arnhem envolve uma briga resolvida por um mediador mais respeitado e poderoso – mais ou menos como Júlio César chegando ao Egito e resolvendo o conflito entre Cleópatra e seu irmão Ptolomeu. (Desculpem o excesso de referências imperiais, andei assistindo a minissérie “Roma pela segunda vez.)

O fato é que os filhotes de duas fêmeas subordinadas estavam brigando sem parar, enquanto a matriarca Mama dormia por ali. A pancadaria se tornava cada vez mais ruidosa, até que uma das mães resolveu acordar a fêmea de status mais alto. A mamãe simplesmente apontou para as crianças briguentas; Mama olhou feio para as duas, emitiu um som de desagrado e, na hora, o conflito estancou.

Eis aí um exemplo clássico de por que a liderança política pode ser um instrumento útil, maracutaias à parte. Sozinhas, as duas fêmeas subordinadas teriam de brigar entre si para resolver o conflito entre seus filhotes, com conseqüências imprevisíveis. Delegar a decisão a um árbitro mais poderoso e respeitado evita esse desgaste e, com alguma sorte, o veredicto pode até ser imparcial e benéfico, como nesse caso.

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