Conta aquela sem graça

Eu não gosto de piada. Pronto, falei. Admito, no entanto, que antes de registrar publicamente esta polêmica e, porque não dizer, previsível declaração, ponderei em busca das palavras mais apropriadas. Contra a decisão de externar esta minha antiga opinião pesava a já reconhecida e crescente fama de rabugento, citada com freqüência por alguns leitores. Parece então que, mais uma vez, irei fornecer argumentos aos detratores,
confirmando assim a vocação deste blog como sítio ideal para meus acertos de conta com tudo e com todos.

Cabe mencionar que não tenho nem nunca tive a intenção de ofender os que curtem uma boa anedota, afinal se incluem neste grupo amigos e parentes queridos. Também não se trata de ser contra ou a favor das piadas propriamente ditas, mas sim uma questão de gosto, ou, se preferirem, de mau gosto. Pode parecer contraditório, mas me considero um entusiasta de “causos” e estórias engraçadas, muitas vezes até parte de mim a iniciativa
de trazer humor a uma determinada conversa, mas nunca o faço através de uma
piada.

A chamada “piada de salão” feneceu em algum lugar dos anos 80, provavelmente
desgastada pela ação predatória de figuras como Ari Toledo e seus seguidores. A tradição de se contar piadas no rádio ou na TV se difundiu com tamanha popularidade que o filão se exauriu por completo. Trocando em miúdos a fonte secou, a graça acabou, e hoje é difícil ouvir uma piada que não seja a reprodução literal ou parcial daquelas mesmas de sempre. Portugueses, bichinhas, papagaios, loiras, vovozinhas surdas e garotinhos desbocados já há muito são merecedores de aposentadoria compulsória, mas é claro que tem sempre um engraçadinho tentando inventar uma forma de recrutá-los para novas
aventuras.

Socialmente, a piada funciona mais ou menos como um seqüestro; numa festa o piadista se aproxima de uma roda, interrompe o assunto e rapta para si a atenção dos presentes. Caso alguém já conheça a anedota ­o que quase sempre acontece – por educação se manterá calado, aturando aquela velha ladainha a fim de permitir que o pobre infeliz faça sua graça. Quando a piada é longa pior, pois, não bastasse ouvi-la, ainda é preciso permanecer com aquele semi-sorriso estampado no rosto, encorajando o piadista a seguir até o final.

O fim finalmente chega, e lá está o sujeito com os olhos arregalados, naquela comovente situação, implorando por uma migalha de sorriso que seja. E então todos riem, de fingimento ou de nervoso, tentando evitar o inevitável constrangimento. É mais ou menos aquele mesmo sentimento que nos faz mudar de canal quando, num programa de auditório, alguém da platéia faz um comentário embaraçoso e todo mundo grita e vaia.

Reparem que rir de uma piada sem graça pode passar de ato generoso a martírio, dependendo apenas de quanto o piadista se sinta estimulado a contar outra. Tenho um amigo que ao menor sinal de “vocês conhecem aquela do…” evita aborrecimentos posteriores avisando, de antemão, que não irá rir. Eu, infelizmente, ainda não atingi esse nível de evolução, portanto ainda sofro as conseqüências.

Durante a faculdade um outro amigo resolveu estampar a frase “conta aquela sem graça” numa blusa, e com isso se livrou ­ de forma bastante diplomática, inclusive- de ouvir poucas e boas. Neste caso o engraçadão evitava se expor à toa. Não alimento esperança alguma de que este texto me livre das piadas, posso até cogitar um efeito colateral, de pessoas querendo me contar anedotas apenas por saberem que não gosto delas. E o que mais pode se esperar de um bom piadista?

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