Crítica: show de bola é visão gringa sobre tráfico, miséria e futebol

Muito já se falou sobre o viés equivocado que os estrangeiros às vezes adotam ao retratar o Brasil no cinema – além dos excessos e dos estereótipos, sempre presentes em obras desse tipo. Pois o filme “Show de bola”, que estreou nesta sexta-feira (15) nos cinemas brasileiros, é mais um dessa leva.


O espectador desavisado pode pensar que a idéia é exportar o longa, chamar a atenção do público internacional com a história, que, para os brasileiros, não tem novidade alguma: o drama de um rapaz da favela que sonha em virar jogador de futebol. Mas as intenções de “Show de bola” são ainda piores. O filme nada mais é do que a aventura com ares hollywoodianos do diretor alemão Alexander Pickl pelas favelas cariocas e, mais infeliz que isso, pela cultura brasileira.

O protagonista do longa é Tiago, menino de favela vivido por Thiago Martins, ele próprio criado no Vidigal, no Rio de Janeiro, e já menino de favela no cinema há não muito tempo, no recém-lançado “Era uma vez…”, de Breno Silveira.


 


O Tiago do filme é craque em futebol e sonha em jogar pelo Fluminense, seu time do coração. Ele mata aulas para ir bater bola na praia, aguardando o dia em que finalmente terá a chance de mostrar seu talento no tricolor carioca.



Enquanto isso não acontece, Pickl volta o foco de sua câmera para a favela, a miséria e o tráfico de drogas. Tubarão (Lui Mendes) é o chefe do morro, que comanda o tráfico e seus soldados –um deles o melhor amigo de Tiago. O protagonista, no entanto, se resguarda da bandidagem (sim, você já viu isso antes).



O traficante, apesar de cruel, tem um lado solícito, solidário e bondoso. Ele ajuda a mãe doente de Tiago apenas para que o menino possa continuar no caminho “do bem” e ter seu talento como boleiro reconhecido. A certa altura, ele faz contato com um alemão, na tentativa de negociar a ida do rapaz para a Europa. Numa mistura de inglês macarrônico, português e mímica, ele resume ao gringo o que todo brasileiro quer: ir embora para a Europa e ganhar em euro.



O diretor ainda se esforça para mostrar um pouco do funk carioca, abusa de Marcelo D2 na trilha sonora, deixa escapar um Racionais em pleno Rio de Janeiro e fecha com chave de ouro, com a romântica “Talvez”, do Revelação, como pano de fundo de uma viagem panorâmica interminável pelos morros cariocas.

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