Derrota do governo sinaliza o fim do kirchnerismo na argentina

Acabou um jeito de governar na Argentina na madrugada de quarta para esta quinta feira (17). A derrota do casal Kirchner não tem precedentes. É o pior revés desde que Néstor chegou ao poder, há cinco anos. E sinaliza de maneira brutal o fim do que o kirchnerismo significou até agora: falta de consenso para governar, busca do confronto, manipulação de dados, intervenção descabida na economia.

Há sempre um toque de drama – ou ópera bufa, como se quiser – em assuntos políticos argentinos. Desta vez foi a participação do vice-presidente da república, Julio Cobos, que é ao mesmo tempo o presidente do Senado. Coube a ele o voto de minerva para desempatar a votação sobre um projeto de lei do governo impondo pesadas taxas ao setor exportador agrícola. Cobos votou contra o governo do qual faz parte, expondo rachaduras profundas no grupo que, até agora, impôs suas vontades políticas – ou, melhor, seus caprichos políticos.

O confronto entre Cristina Kirchner e os produtores rurais apenas superficialmente é uma questão sobre apropriação ou não de ganhos privados. Está claro que um governo como os dos Kirchner precisa fazer caixa para sustentar uma política fiscal frouxa destinada sobretudo a garantir o apoio de chefes políticos regionais. Mas o que está por detrás da briga pelos impostos é um “basta” generalizado de vastos setores sociais argentinos contra um casal dirigente que se acostumou a mandar sem contestação.

O reflexo dos Kirchner ficou bem claro durante toda a crise, que atingiu picos de confronto quando os ruralistas decidiram bloquear estradas, causando desabastecimento de gêneros alimentícios em Buenos Aires, e o casal presidencial lançou mão de piqueteiros para promover “manifestações de apoio” nas ruas da capital. Néstor fez discursos inflamados descrevendo um tipo de luta “povo” contra “oligarquias rurais” – como as discussões no Congresso argentino mostraram, nada está mais longe da realidade.

Uma característica importante do kirchnerismo é a arrogância com que o casal presidencial despreza pontes políticas, numa espécie de tudo ou nada político que chegou a um acerto de contas com a realidade quando apenas na Argentina o dólar se valoriza (um sinal claro de desconfiança dos argentinos na própria economia); quando a crise de energia, causada por sucessivas intervenções no setor, só pode ser disfarçada por fornecimentos vindos do Brasil; quando a fúria arrecadadora é disfarçada como propostas de programas sociais.

Há muitos exemplos de governos que sofreram derrotas fragorosas no Legislativo e se recuperaram. Na Argentina, porém, prevalecem as previsões pessimistas. Cristina Kirchner tem ainda 3 anos e meio pela frente, e na primeira metade do mandato só colecionou derrotas, descrédito pessoal e preside uma atmosfera de franca desagregação política. A julgar pelo que o kirchnerismo mostrou até agora, o casal presidencial não sabe governar a não ser impondo a própria vontade política a sociedade.

Os argentinos enfrentam novamente de uma complicada situação política. O dispositivo que impõe as “retenções” ao setor exportador continua em vigor, e só pode ser revogado por outra resolução do governo. Será que os Kirchner saberão digerir a fragorosa derrota política? Um longo inverno em Buenos Aires está apenas começando.

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