O brasil ainda sofre do “complexo do berço esplêndido”

Dá satisfação ver o chefe de Estado brasileiro reunido com os colegas chefes de Estado e governo do G-8 (são os ricos industrializados mais a Rússia), no encontro de cúpula no Japão. Somos parte do “G-5” (com Índia, China, México e África do Sul), que discute com o G-8, depois da cúpula deles, assuntos de vital interesse comum, como preço de energia e alimentos.

Qual é a voz do Brasil em eventos desse tipo? A julgar pelo que dizem intelectuais do porte do sociólogo francês Alain Touraine (“O Estado de S. Paulo” de sábado, 05/07) o Brasil pode ser a ponte entre os eixos norte e sul, leste e oeste – por conta, como diz, de 100 milhões de brasileiros que compõem um país moderno e que não tem conflitos com Estados Unidos ou China.

Resumindo o pensamento de Touraine (sob o risco de se cometer injustiças), a posição internacional de um país não é mais determinada pelos seus problemas internos, dos quais a desigualdade é o mais gritante e não resolvido deles. Mas, sim, pelo papel de “ponte” que possa oferecer. No caso, a capacidade de ser ouvido em várias partes.

O “New York Times” de domingo é um pouco mais específico. Opondo o estilo Lula de evitar conflitos ao de Bush de procurar conflitos, a reportagem assinada por Simon Romero e Alexei Barrionuevo afirma que o país “ganhou maior importância” (minha tradução livre para “raised the profile”) na América Latina, em especial em contraste com Hugo Chávez.

É bobagem brigar com a seguinte notícia: o Brasil é, de fato, mais importante no cenário internacional hoje do que há 20 ou 30 anos. Muito mais importante. Não há espaço aqui para se deter em todas as causas, mas duas chamam a atenção. Elas precisam ser vistas, não custa repetir, em termos relativos, ou seja, sempre em comparação a países com os quais o Brasil merece ser comparado (o G-5, por exemplo, mas dificilmente os da América Central, por razões que não vamos discutir aqui).

A primeira delas – e aqui discordo de Touraine – é nosso desenvolvimento institucional. Claro, desigualdade social é uma ferida gritante, mas boa parte da credibilidade internacional de um país está associada, sim, a seu Estado doméstico, ou seja, à solidez do funcionamento de seus três poderes, de sua democracia, de suas liberdades civis e fundamentais. Nenhum governo brasileiro é “partidário”, digamos assim, da desigualdade. Todos os governos desde a redemocratização preservaram a democracia.

A segunda é o extraordinário desenvolvimento da economia mundial, uma maré que levou o barquinho brasileiro a níveis muito altos sem que tivéssemos nos esforçado muito, em termos de reformas e investimentos públicos, para tornar nossa situação permanentemente boa e segura (fora a ortodoxia da político macroeconômica e monetária). O “New York Times” saca um pouco rápido demais e atira já da cintura quando afirma, como o fez no domingo, que o Brasil teria criado uma versão própria da Otan (o pacto militar do Atlântico Norte, o mais importante do planeta) com a proposta de um conselho de defesa da América do Sul – que, na verdade, já nasceu morto.

Vamos ao que me preocupa por detrás da boa notícia: é pouco, gente. Estamos nos contentando com muito pouco. Somos vítimas do complexo do berço esplêndido. Costumo dizer que o fato de não fazermos parte de nenhum conflito internacional importante (religioso, militar, territorial, econômico, comercial) é uma benção – nenhum jovem da idade de meus filhos (24 e 27 anos) no Brasil precisa se preocupar com a possibilidade de defender seu país ou atacar outro.

Mas somos letárgicos, na comparação internacional. A história nos sorri e a vemos passar, deixamos as oportunidades passarem. Não pensamos grande. Somos (nossos governantes, especialmente) influenciáveis por elogios fáceis, salamaleques diplomáticos e tapetes vermelhos. Caímos recorrentemente no erro de atribuir a “outros”, a “eles”, as culpas por nossas misérias.

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