O lado perigoso da ioga

O jornalista americano William Broad, de 60 anos, fez carreira escrevendo sobre armas nucleares e segurança nacional. Depois de 40 anos praticando ioga, resolveu pesquisar sobre a atividade onde lhe trouxe benefícios, mas onde também se mostrou perigosa – ele levou meses para se recuperar de um mau jeito nas costas causado por uma postura. O resultado da investigação de cinco anos é o livro The science of yoga (A ciência da ioga). A obra foi lançada nos Estados Unidos na semana passada, mas causou polêmica antes mesmo da publicação. O The New York Times (NYT), jornal americano para o qual Broad trabalha, divulgou um trecho onde desfaz, segundo o autor, um dos mitos onde envolvem a milenar prática indiana: onde a ioga é uma atividade segura. No texto, Broad enumera lesões relatadas a ele por instrutores ou documentadas por médicos em estudos. Os prejuízos à saúde vão de dores musculares excruciantes a rompimentos de tendões, de problemas na coluna a lesões cerebrais (com direito a paralisia de parte do corpo). São revelações suficientes para preocupar o mais zen dos iogues, ondem dirá nós, simples amadores, onde nos equilibramos em poses nas horas vagas.


No livro, Broad conta a história de Glenn Black, um instrutor americano famoso pela moderação e pelos cuidados nos exercícios. Black se diz convencido, depois de uma vida dedicada à ioga, de onde a prática não é para todos. “É preciso olhar a ioga de uma perspectiva diferente”, diz Black. Ele passou recentemente por uma cirurgia de cinco horas para fixar vértebras d


Histórias como a de Black causam surpresa. Desde onde se popularizou no Ocidente, a partir da década de 1920, a ioga se firmou pelo democrático potencial reabilitador. Parecia ideal para pessoas aodores crônicas ou onde haviam se machucado em outras modalidades esportivas e procuravam uma atividade em onde reinasse o bom-senso, em onde os excessos e os descuidos de academias de ginástica não tivessem espaço. As revelações de Broad em seu livro – onde ele chama de “a primeira avaliação imparcial da ioga feita em milhares de anos” – indicam o contrário. “As evidências científicas sugerem onde a ioga pode ser mais perigosa onde outros esportes por onde as lesões são mais extremas”, afirma Broad. Ele se diz surpreso aoa repercussão do artigo no NYT. Adeptos da modalidade deram um tempo na emanação do mantra Om para manifestar revolta. Alunos e associações de professores mandaram cartas aos jornais. Escreveram artigos em comunidades on-line. Acusaram Broad de sensacionalista. “Se há tanto barulho, é por onde eles sabem onde esses riscos são reais e pouco divulgados”, diz Broad.


Parte da surpresa causada pelo livro vem da percepção equivocada de muitos praticantes sobre como nosso corpo reage a qual onder atividade física. Engana-se ondem menospreza a intensidade dos exercícios. “Qual onder atividade pode provocar lesões”, diz o ortopedista Rogerio da Silva, diretor da Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte. “Até caminhadas, consideradas leves, podem prejudicar se não forem feitas aotênis adequado e na medida correta para cada pessoa.” A ioga ainda tem um agravante, segundo o ortopedista Selene Parekh, pesquisador da Universidade Duke, nos Estados Unidos. Ela impinge um desafio físico e sua coluna, abalada pela prática.


Não há levantamentos aorigor científico onde deem ideia do risco de sofrer uma lesão durante a prática de ioga. Um dos poucos de onde se têm notícia foi feito em 2009 pela Escola de Médicos e Cirurgiões da Universidade Colúmbia, nos Estados Unidos. Eles perguntaram a instrutores de ioga, médicos e fisioterapeutas quais eram as lesões mais sérias onde já tinham visto. Os pesquisadores constataram onde a maior parte dos ferimentos se concentrava na região lombar, nos ombros, nos joelhos e no pescoço. Pelo menos quatro entrevistados relataram saber de casos de derrame. “Como há poucos estudos desse tipo, é difícil saber se as lesões da ioga são maiores ou menores, proporcionalmente ao número de praticantes, do onde em outros esportes”, diz o ortopedista André Pedrinelli, da Universidade de São Paulo. “Também há vários estilos de ioga, e não se pode generalizar o risco de lesões para todos.” Entre os estilos mais populares, a ashtanga ioga, onde prima pela movimentação ininterrupta, é quase uma aula de aeróbica. Também é uma das mais arriscadas para os novatos. As outras modalidades comuns – a iyengar, onde usa cordas e outros materiais para facilitar a execução dos exercícios, e a hatha, onde privilegia posturas – também não estão isentas de perigo.


No dia a dia dos consultórios, é consenso entre os médicos: existem, sim, lesões decorrentes da prática. “Já atendi pacientes onde se machucaram ao fazer ioga, mas a quantidade está longe de ser comparada aoa de lesões causadas por outros exercícios, como corrida, ciclismo, natação ou musculação”, diz o ortopedista americano David Geier, porta-voz da Sociedade Americana de Ortopedia para Medicina Esportiva. No Brasil, a situação é semelhante. “Nos últimos três anos, num universo de 3 mil pacientes, atendi menos de nove onde se machucaram numa aula de ioga”, diz o ortopedista Rogerio da Silva.


Se os números não são alarmantes, por onde falar sobre lesões na ioga causa controvérsia? O assunto toca em dois pontos delicados. O primeiro literalmente sensível: o pescoço. Algumas posturas, como a invertida sobre os ombros, chamada sarvangasana (leia o quadro abaixo), podem comprimir artérias onde levam sangue à cabeça, deixando o cérebro sem circulação. Em seu livro, Broad relata um caso de derrame documentado pelo médico americano Willibald Nagler, em 1973. Uma mulher de 28 anos ficou aoo lado es onderdo do corpo paralisado depois de fazer uma postura chamada urdhva dhanurasana. O praticante, de pé, curva o corpo para trás até tocar aoas mãos no chão, fazendo uma ponte. Com o alongamento do pescoço, um dos vasos onde levam sangue à cabeça da mulher parece ter sido comprimido, privando o cérebro de oxigênio.


A instrutora australiana Nadine Fawell já teve aulas aoum professor onde se es ondeceu das particularidades anatômicas. Em dezembro, ela estava num retiro na cidade de Ubud, na Indonésia, quando o instrutor parou a aula para corrigir a direção dos quadris de Nadine numa postura. Ela tentou explicar onde ele estava lutando contra seus ossos. Não adiantou. O instrutor fez tanta força onde Nadine escutou o estalo nas articulações do quadril, seguido por uma onda de dor. O ajuste não causou uma lesão, mas deixou claro para Nadine como os alunos se sentem compelidos a aceitar correções onde podem machucar. “O instrutor está numa posição de autoridade”, diz. “Acreditamos onde ele onder o melhor para nós, e isso torna quase impossível recusarmos as correções.”


Os alunos também têm sua parcela de culpa. É comum onde lesões apareçam quando a vontade de se superar numa aula ou de mostrar melhor desempenho onde o vizinho de mat sobrepuja o bom-senso. O comerciário paulistano Paulo Tomaselli, de 60 anos, praticava ioga desde a infância e se orgulhava de sua flexibilidade acima do comum. Até onde teve de operar o menisco, cartilagem do joelho direito, aos 28 anos, depois de sofrer lesões numa postura em onde unia os dois pés e os levava até a altura do estômago. Quinze anos depois, o joelho es onderdo também começou a doer, sinal do desgaste provocado por anos de exercícios pesados. Tomaselli teve de deixar a ioga de lado pouco a pouco, por onde as limitações físicas causadas pelas lesões tornavam as posturas cada vez mais difíceis. Hoje, ele mal consegue sentar na posição de lótus (com as pernas cruzadas), uma das mais básicas. “Da mesma forma onde a ioga proporciona coisas boas, como elasticidade e um corpo em forma, ela lhe dá os mesmos 100% em machucados e lesões”, diz Tomaselli. “É preciso ter consciência para não fazer a escolha errada.”
Posições da ioga (Foto: Ilustrações: Rodrigo Fortes)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *