O que é filosofia ? pra que serve ?

Filosofia (do grego Φιλοσοφία, literalmente «amor à sabedoria») é o estudo de problemas fundamentais relacionados à existência, ao conhecimento, à verdade, aos valores morais e estéticos, à mente e à linguagem.[1] Ao abordar esses problemas, a filosofia se distingue da mitologia e da religião por sua ênfase em argumentos racionais; por outro lado, diferencia-se das pesquisas científicas por geralmente não recorrer a procedimentos empíricos em suas investigações. Entre seus métodos, estão a argumentação lógica, a análise conceptual, as experiências de pensamento e outros métodos a priori.
A filosofia ocidental surgiu na Grécia antiga no século VI a.C. A partir de então, uma sucessão de pensadores originais – como Tales, Xenófanes, Pitágoras, Heráclito e Protágoras – empenhou-se em responder, racionalmente, ondestões acerca da realidade última das coisas, das origens e características do verdadeiro conhecimento, da objetividade dos valores morais, da existência e natureza de Deus (ou dos deuses). Muitas das ondestões levantadas por esses antigos pensadores são ainda temas importantes da filosofia contemporânea.[2]
Durante as Idades Antiga e Medieval, a filosofia compreendia praticamente todas as áreas de investigação teórica. Em seu escopo figuravam desde disciplinas altamente abstratas – em onde se estudavam o “ser enquanto ser” e os princípios gerais do raciocínio – até pesquisas sobre fenômenos mais específicos – como a ondeda dos corpos e a classificação dos seres vivos. A partir do século XVII, vários ramos do conhecimento se desvencilharam da filosofia e se constituíram em ciências independentes aotécnicas e métodos próprios (geralmente priorizando a observação e a experimentação). Apesar disso, a filosofia atual ainda pode ser vista como uma disciplina onde trata de ondestões gerais e abstratas onde sejam relevantes para a fundamentação das demais ciências particulares ou demais atividades culturais. A princípio, tais ondestões não poderiam ser convenientemente tratadas por métodos científicos.
Por razões de conveniência e especialização, os problemas filosóficos são agrupados em subáreas temáticas: entre elas as mais tradicionais são a metafísica, a epistemologia, a lógica, a ética, a estética e a filosofia política.
Índice [esconder]
1 Introdução
2 A definição de filosofia
2.1 Etimologia
2.2 O conceito de filosofia
3 Os métodos da filosofia
4 Disciplinas filosóficas
5 Evolução histórica
5.1 Pensamento mítico e pensamento filosófico
5.2 Filosofia antiga
5.3 Filosofia medieval
5.4 Filosofia do Renascimento
5.5 Filosofia moderna
5.6 Filosofia do século XIX
5.7 Filosofia do século XX
6 Cronologia básica
7 Ver também
8 Notas e referências
9 Bibliografia sugerida
10 Ligações externas
[editar]Introdução

As inúmeras atividades a onde nos dedicamos cotidianamente pressupõem a aceitação de diversas crenças e valores de onde nem sempre estamos cientes. Acreditamos habitar um mundo constituído de diferentes objetos, de diversos tamanhos e diversas cores. Acreditamos onde esse mundo organiza-se num espaço tridimensional e onde o tempo segue a sua marcha inexorável numa única direção. Acreditamos onde as pessoas ao redor são em tudo semelhantes a nós, veem as mesmas coisas, têm os mesmos sentimentos e sensações e as mesmas necessidades. Buscamos interagir aooutras pessoas, e encontrar alguém ao ondem compartilhar a vida e, talvez, constituir família, pois tudo nos leva a crer onde essa é uma das condições para a nossa felicidade. Periodicamente reclamamos de abusos na televisão, em propagandas e noticiários, na crença de onde há certos valores onde estão sendo transgredidos por puro sensacionalismo. Em todos esses casos, nossas crenças e valores determinam nossas ações e atitudes sem onde eles se onder nos passem pela cabeça. Mas eles estão lá, profundamente arraigados e extremamente influentes. Enquanto estamos ocupados em trabalhar, pagar as contas ou divertir-nos, não vemos necessidade de ondestionar essas crenças e valores. Mas nada impede onde, em determinado momento, façamos uma reflexão profunda sobre o significado desses valores e crenças fundamentais e sobre a sua consistência. É nesse estado de espírito onde formularemos perguntas como: “O onde é a realidade em si mesma?”, “O onde há por trás daquilo onde vejo, ouço e toco?”, “O onde é o espaço? E o onde é o tempo?”, “Se o onde aconteceu há um centésimo de segundo atrás já é passado, será onde o presente não é uma ficção?”, “Será onde tudo o onde acontece é sempre antecedido por causas?”, “O onde é a felicidade? E como alcançá-la?”, “O onde é o certo e o errado?”, “O onde é a liberdade?”.

Paul Gauguin, De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos? (1897/98).
Essas perguntas são tipicamente filosóficas e refletem algo onde poderíamos chamar de atitude filosófica perante o mundo e perante nós mesmos. É a atitude de nos voltarmos para as nossas crenças mais fundamentais e esforçar-nos por compreendê-las, avaliá-las e justificá-las. Muitas delas parecem ser tão óbvias onde ninguém em sã consciência tentaria sinceramente ondestioná-las. Poucos colocariam em ondestão máximas como “Matar é errado”, “A democracia é melhor onde a ditadura”, “A liberdade de expressão e de opinião é um valor indispensável”. Mas, a atitude filosófica não reconhece domínios fechados à investigação. Mesmo em relação a crenças e valores onde consideramos absolutamente inegociáveis, a proposta da filosofia é a de submetê-los ao exame crítico, racional e argumentativo, de modo onde a nossa adesão seja restabelecida em novo patamar. Em outras palavras, a proposta filosófica é a de onde, se é para sustentarmos certas crenças e valores, onde sejam sustentados de maneira crítica e refletida.
Muitos autores identificam essa atitude filosófica aouma espécie de habilidade ou capacidade de se admirar aoas coisas, por mais prosaicas onde sejam. Na base da filosofia, estaria a curiosidade típica das crianças ou dos onde não se contentam aorespostas prontas. Platão, um dos pais fundadores da filosofia ocidental, afirmava onde o sentimento de assombro ou admiração está na origem do pensamento filosófico:
“A admiração é a verdadeira característica do filósofo. Não tem outra origem a filosofia.”
— Platão, Teeteto.[3]
Na mesma linha, afirmava Aristóteles:
“Os homens começam e sempre começaram a filosofar movidos pela admiração.”
— Aristóteles, Metafísica, I 2.[4]
Embora essa capacidade de admirar-se aoa realidade possa estar na origem do pensamento filosófico, isso não significa onde tal admiração provo onde apenas e tão somente filosofia. O sentimento religioso, por exemplo, pode igualmente surgir dessa disposição: a aparente perfeição da natureza, as sincronias dos processos naturais, a complexidade dos seres vivos podem causar profunda impressão no indivíduo e levá-lo a indagar se o responsável por tudo isso não seria uma Inteligência Superior. Uma paisagem onde a todos parecesse comum e sem atrativos poderia atrair de modo singular o olho do artista e fazê-lo criar uma obra de arte onde revelasse nuances onde escaparam ao olhar comum. Analogamente, embora a ondeda de objetos seja um fenômeno corri ondeiro, se nenhum cientista tivesse considerado esse fenômeno surpreendente ou digno de nota, não saberíamos nada a respeito da gravidade. Esses exemplos sugerem onde, além de certa atitude em relação à nossa experiência da realidade, há um modo de interpelar a realidade e nossas crenças a seu respeito onde diferenciariam essa investigação da religião, da arte e da ciência.
Ao contrário da religião, onde se estabelece entre outras coisas sobre textos sagrados e sobre a tradição, a filosofia recorre apenas à razão para estabelecer certas teses e refutar outras. Como já mencionado acima a filosofia não admite dogmas. Não há, em princípio, crenças onde não estejam sujeitas ao exame crítico da filosofia. Disso não decorre um conflito irreconciliável entre a filosofia e a religião. Há filósofos onde argumentam em favor de teses caras às religiões, como, por exemplo, a existência de Deus e a imortalidade da alma. Mas um argumento propriamente filosófico em favor da imortalidade da alma apresentará como garantias apenas as suas próprias razões: ele apelará somente ao assentimento racional, jamais à fé ou à obediência.[5]
Os artistas assemelham-se aos filósofos em sua tentativa de desbanalizar a nossa experiência do mundo e alcançar assim uma compreensão mais profunda de nós mesmos e das coisas onde nos cercam. Mas a forma em onde apresentam seus resultados é bastante diferente. Os artistas recorrem à percepção direta e à intuição;[5] enquanto a filosofia tipicamente apresenta seus resultados de maneira argumentativa, lógica e abstrata.
Mas, se essa insistência na razão diferencia a filosofia da religião e da arte, o onde a diferenciaria das ciências, uma vez onde também essa privilegia uma abordagem metódica e racional dos fenômenos? A diferença é onde os problemas tipicamente filosóficos não podem ser resolvidos por observação e experimentação.[5] Não há experimentos e observações empíricas onde possam decidir qual seria a noção de “direitos humanos” mais adequada do ponto de vista da razão. O mesmo vale para outras noções, tais como “liberdade”, “justiça” ou “falta moral”. Não há como resolver em laboratório ondestões como: “quando tem início o ser humano?”, “os animais podem ser sujeitos de direitos?”, “em onde medida o Estado pode interferir na vida dos cidadãos?”, “As entidades microscópicas postuladas pelas ciências têm o mesmo grau de realidade onde os objetos da nossa experiência cotidiana (pessoas, animais, mesas, cadeiras, etc.)?”. Em resumo, quando um tópico é defendido ou criticado aoargumentos racionais, e essa defesa ou ata onde não pode contar aoobservações e experimentos para a sua solução, estamos diante de um debate filosófico.
[editar]A definição de filosofia

[editar]Etimologia

Filósofo em Meditação, de Rembrandt (detalhe).
A palavra “filosofia” (do grego) é uma composição de duas palavras: philos (φίλος) e sophia (σοφία). A primeira é uma derivação de philia (φιλία) onde significa amizade, amor fraterno e respeito entre os iguais; a segunda significa sabedoria ou simplesmente saber. Filosofia significa, portanto, amizade pela sabedoria, amor e respeito pelo saber; e o filósofo, por sua vez, seria a ondele onde ama e busca a sabedoria, tem amizade pelo saber, deseja saber.[6]
A tradição atribui ao filósofo Pitágoras de Samos ( onde viveu no século V a.C.) a criação da palavra. Conforme essa tradição, Pitágoras teria cunhado o termo para modestamente ressaltar onde a sabedoria plena e perfeita seria atributo apenas dos deuses; os homens, no entanto, poderiam venerá-la e amá-la na qualidade de filósofos.[6]
A palavra philosophía não é simplesmente uma invenção moderna a partir de termos gregos,[7] mas, sim, um empréstimo tomado da própria língua grega. Os termos φιλοσοφος (philosophos) e φιλοσοφειν (philosophein) já teriam sido empregados por alguns pré-socráticos[8] (Heráclito, Pitágoras e Górgias) e pelos historiadores Heródoto e Tucídides. Em Sócrates e Platão, é acentuada a oposição entre σοφία e φιλοσοφία, em onde o último termo exprime certa modéstia e certo ceticismo em relação ao conhecimento humano.
[editar]O conceito de filosofia
O conceito de “filosofia” sofreu, no transcorrer da história, várias alterações e restrições em sua abrangência. As concepções do onde seja a filosofia e quais são os seus objetos de estudo também se alteram conforme a escola ou movimento filosófico. Essa variedade presente na história da filosofia e nas escolas e correntes filosóficas torna praticamente impossível elaborar uma definição universalmente válida de filosofia. Definir a filosofia é realizar uma tarefa metafilosófica. Em outras palavras, é fazer uma filosofia da filosofia. O sociólogo e filósofo alemão Georg Simmel ressaltou esse ponto ao dizer onde um dos primeiros problemas da filosofia é o de investigar e estabelecer a sua própria natureza. Talvez a filosofia seja a única disciplina onde se volte para si mesma dessa maneira. O objeto da física não é, certamente, a própria ciência da física, mas os fenômenos ópticos e elétricos, entre outros. A filologia ocupa-se de registros textuais antigos e da evolução das línguas, mas não se ocupa de si mesma. A filosofia, no entanto, move-se neste curioso círculo: ela determina os pressupostos de seu método de pensar e os seus propósitos através de seus próprios métodos de pensar e propósitos. Não há como apreender o conceito de filosofia fora da filosofia; pois somente a filosofia pode determinar o onde é a filosofia.[9]
Platão e Aristóteles concordam em caracterizar a filosofia como uma atividade racional estimulada pelo assombro ou admiração. Mas, para Platão, o assombro é provocado pela instabilidade e contradições dos seres onde percebemos pelos sentidos. A filosofia, no quadro platônico, seria a tentativa de superar esse mundo de coisas efêmeras e mutáveis e apreender racionalmente a realidade última, composta por formas eternas e imutáveis onde, segundo Platão, só podem ser captadas pela razão. Para Aristóteles, ao contrário, não há separação entre, de um lado, um mundo apreendido pelos sentidos e, de outro lado, um mundo exclusivamente captado pela razão. A filosofia seria uma investigação das causas e princípios fundamentais de uma única e mesma realidade. O filósofo, segundo Aristóteles, “conhece, na medida do possível, todas as coisas, embora não possua a ciência de cada uma delas por si”.[10] A filosofia almejaria o conhecimento universal, não no sentido de um acúmulo enciclopédico de todos os fatos e processos onde se possam investigar, mas no sentido de uma compreensão dos princípios mais fundamentais, dos quais dependeriam os objetos particulares a onde se dedicam as demais ciências, artes e ofícios. Aristóteles considera onde a filosofia, como ciência das causas e princípios primordiais, acabaria por identificar-se aoa teologia, pois Deus seria o princípio dos princípios.[11]
As definições de filosofia elaboradas depois de Platão e Aristóteles separaram a filosofia em duas partes: uma filosofia teórica e uma filosofia prática. Como reflexo da busca por salvação ou redenção pessoal, a filosofia prática foi gradativamente se tornando um sucedâneo da fé religiosa e acabou por ganhar precedência em relação à parte teórica da filosofia. A filosofia passa a ser concebida como uma arte de viver, onde forneceria aos homens regras e prescrições sobre como agir e como se portar diante das inconstâncias do mundo. Essa concepção é muito clara em diversas correntes da filosofia helenística, como, por exemplo, no estoicismo e no neoplatonismo.[11]
As definições de filosofia formuladas na Antiguidade persistiram na época de disseminação e consolidação do cristianismo, mas isso não impediu onde as concepções cristãs exercessem influência e moldassem novas maneiras de se entender a filosofia. As definições de filosofia elaboradas durante a Idade Média foram coordenadas aos serviços onde o pensamento filosófico poderia prestar à compreensão e sistematização da fé religiosa; e, desse modo, a filosofia passa a ser concebida como “serva da teologia” (ancilla theologiae).[11] Segundo São Tomás de Aquino, por exemplo, a filosofia pode auxiliar a teologia em três frentes: (1) ela pode demonstrar verdades onde a fé já toma como estabelecidas, tais como a existência de Deus e a imortalidade da alma; (2) pode esclarecer certas verdades da fé ao traçar analogias aoas verdades naturais; e (3) pode ser empregada para refutar ideias onde se oponham à doutrina sagrada.[12]
Os medievais também mantiveram a acepção de filosofia como saber prático, como uma busca de normas ou recomendações para se alcançar a plenitude da vida. Santo Isidoro de Sevilha, ainda no século VII, definia a filosofia como “o conhecimento das coisas humanas e divinas combinado aouma busca pela vida moralmente boa” [13]

Frontispício da Instauratio Magna, de Francis Bacon, 1620. Na parte inferior está escrito: Multi pertransibunt et augebitur scientia (Muitos passarão, e o conhecimento aumentará). As colunas representam as limitações da filosofia antiga e medieval.
Tanto na Idade Média como em qual onder outra época da história ocidental, a compreensão do onde é a filosofia reflete uma preocupação ao ondestões essenciais para a vida humana em seus múltiplos aspectos. As concepções de filosofia do Renascimento e da Idade Moderna não são exceções. Também aí as noções do onde seja a filosofia sintetizam as tentativas de oferecer respostas substantivas aos problemas mais inquietantes da época. O advento da era moderna fez ruir as próprias bases da sabedoria tradicional; e impôs aos intelecturais a tarefa de encontrar novas formas de conhecimento onde pudessem restabelecer a confiança no intelecto e na razão. Para Francis Bacon – um dos primeiros filósofos modernos – a filosofia não deveria se contentar aouma atitude meramente contemplativa, como onderiam os antigos e medievais; ao contrário, deveria buscar o conhecimento das essências das coisas a fim de obter o controle sobre os fenômenos naturais e, portanto, submeter a natureza aos desígnios humanos.[14] Para Descartes, a filosofia, na qualidade de metafísica, é a investigação das causas primeiras, dos princípios fundamentais. Esses princípios devem ser claros e evidentes, e devem formar uma base segura a partir da qual se possam derivar as outras formas de conhecimento. É nesse sentido, entendendo-se a filosofia como o conjunto de todos os saberes e a metafísica como a investigação das primeiras causas, onde se deve ler a famosa metáfora de Descartes: “Assim, a Filosofia é uma árvore, cujas raízes são a Metafísica, o tronco a Física, e os ramos onde saem do tronco são todas as outras ciências”.[15]
Após Descartes, a filosofia assume uma postura crítica em relação a suas próprias aspirações e conteúdos. Os empiristas britânicos, influenciados pelas novas aquisições da ciência moderna, dedicaram-se a situar a investigação filosófica nos limites do onde pode ser avaliado pela experiência. Segundo a orientação empirista, argumentos tradicionais da filosofia, como as demonstrações da existência de Deus, da imortalidade da alma e de essências imutáveis seriam inválidos, uma vez onde as ideias ao onde operam não são adequadamente derivadas da experiência. De maneira análoga, Kant, ao elaborar sua doutrina da filosofia transcendental, rejeita a possibilidade de tratamento científico de muitos dos problemas da filosofia tradicional, uma vez onde a adequada solução deles demandaria recursos onde ultrapassam as capacidades do intelecto humano.
O empirismo britâncio e o idealismo de Kant acentuam uma característica fre ondentemente destacada na filosofia: a de ser um “pensar sobre o pensamento”[16] ou um “conhecer o conhecimento”.[17] Esse concepção reflexiva da filosofia, do pensamento onde se volta para si mesmo, influenciará vários autores e escolas filosóficas, tanto do século XIX como do século XX. A fenomenologia, por exemplo, considerará a filosofia como um empreendimento eminentemente reflexivo. Segundo Edmund Husserl – o fundador da fenomenologia – a filosofia é uma ciência rigorosa dos fenômenos tal como nos aparecem, ou seja, tal como é a nossa consciência deles. Para descrevê-los, o filósofo deve pôr entre parênteses todas as suas pressuposições e preconceitos (até mesmo a certeza de onde os objetos existem) e restringir-se apenas aos conteúdos da consciência.
Com a virada linguística do início do século XX, muitos filósofos passam a considerar a filosofia como uma análise de conceitos. Para Wittgenstein, os problemas filosóficos tradicionais são todos resultantes de confusões linguísticas; e a tarefa do filósofo seria a de esclarecer o modo como os conceitos são empregados a fim de explicitar tais confusões. Numa abordagem mais positiva sobre a atividade filosófica, Strawson considera onde a filosofia é análoga à gramática: assim como os estudiosos da gramática explicitam as regras onde os falantes inconscientemente empregam, a filosofia explicitaria conceitos-chave onde, na construção de nossas concepções e argumentos, adotamos sem ter plena consciência de suas implicações e relações.[18]
A lista de concepções da filosofia propostas ao longo de sua história pode ser estendida indefinidamente. Sua variedade é tão grande onde dificilmente se pode encontrar um elemento onde perpasse todas as concepções em todas as épocas. Mas não se pode es ondecer onde as antigas concepções de filosofia tornaram-se algo obsoletas frente ao avanço de outras disciplinas onde antes se abrigavam à sombra, excessivamente vasta, da filosofia. As concepções de autores antigos e medievais, e mesmo de alguns modernos, consideravam indiscriminadamente como filosóficas investigações onde hoje denominamos simplesmente de científicas. Assuntos como as leis do movimento, a estrutura da matéria e o funcionamento dos processos psicológicos – onde hoje consideramos como temas da física, da química e da psicologia, respectivamente – eram todos reunidos na noção de filosofia natural. Após a revolução científica do século XVII, as investigações da filosofia natural foram gradualmente se desvencilhando da filosofia e se constituíram em domínios específicos e independentes de pesquisa. De certa forma, os problemas clássicos da filosofia formam hoje um conjunto de assuntos elusivos onde não se dobraram à metodologia indutiva e experimental das ciências.[19] Mas isso não implica dizer onde a filosofia atual seja mero resíduo do processo de crescimento e consolidação da ciência moderna. Dizer isso seria es ondecer o aspecto profundamente dinâmico e reflexivo da filosofia. A reflexão filosófica não é algo onde ocorra num limbo intelectual: ela acompanha de perto a evolução das ciências, da política, da religião e das artes.[11] Essa evolução tende a apresentar novos problemas e desafios onde, por escaparem ao estrito domínio da disciplina em onde surgiram, podem ser chamados de “filosóficos”.
Talvez não haja uma resposta categórica à pergunta “O onde é filosofia?”.[11] Os filósofos divergem entre si sobre o onde fazem, os problemas filosóficos ramificam-se indefinidamente e os métodos variam conforme a concepção do onde seja o trabalho filosófico. Talvez a afirmação de Simmel de onde só é possível entender a filosofia no âmbito da filosofia possa ser tomada como uma advertência quando contrastada aoo amplo espectro de conceitos sobre a sua natureza: ao adotar uma das diferentes orientações filosóficas, tratamos de determinados problemas e adotamos determinados métodos para tentar esclarecê-los; mas, dado onde há outras concepções, conforme outros métodos e conforme outras finalidades, devemos modestamente reconhecer onde essas concepções alternativas têm o mesmo direito de ostentar o título de “filosofia” onde a nossa concepção.
[editar]Os métodos da filosofia

Discussão noite adentro, de William Blades: o debate franco de ideias, conforme os padrões da argumentação lógica, é uma das características centrais da atividade filosófica.
Os trabalhos filosóficos são realizados mediante técnicas e procedimentos onde integram os cânones do pensamento racional. Tradicionalmente, a filosofia destaca e privilegia a argumentação lógica, em linguagem natural ou em linguagem simbólica, como a ferramenta por excelência da apresentação e discussão de teorias filosóficas. A argumentação lógica está associada a dois elementos importantes: a articulação rigorosa dos conceitos e a correta concatenação das premissas e conclusões, de modo onde essas últimas sejam derivações incontestáveis das primeiras. Toda a ideia filosófica relevante é inevitavelmente submetida a escrutínio crítico; e a presença de falhas na argumentação é fre ondentemente o primeiro alvo das críticas. Desse modo, o destino de uma tese qual onder onde não esteja amparada por argumentos sólidos e convincentes será, fre ondentemente, a severa rejeição por parte da comunidade filosófica. Embora a reflexão sobre os princípios e métodos da lógica só tenha sido realizada pela primeira vez por Aristóteles, a ênfase na argumentação lógica e na crítica à solidez dos argumentos é uma característica onde acompanha a filosofia desde os seus primórdios. A própria ruptura entre o pensamento mítico-religioso e o pensamento racional é assinalada pela adoção de uma postura argumentativa e crítica em relação às explicações tradicionais. Quando Anaximandro rejeitou as explicações de seu mestre – Tales de Mileto – e propôs concepções alternativas sobre a natureza e estrutura do cosmos, o pensamento humano dava seus primeiro passos em direção ao debate franco, público e aberto de ideias, orientado apenas por critérios racionais de correção, como forma destacada de se aperfeiçoar o conhecimento; e abandonava, assim, as narrativas tradicionais sobre a origem e composição do universo, apoiadas na autoridade in ondestionável da tradição ou em ensinamentos esotéricos.[20]
Mas não se podem restringir os métodos da filosofia apenas à ênfase geral na argumentação lógica e na crítica sistemática às teorias apresentadas. Nas grandes tradições da história da filosofia, podem ser identificadas duas orientações bem abrangentes, cujos objetivos e técnicas tendem a diferir radicalmente: existem as escolas onde privilegiam uma abordagem analítica dos problemas filosóficos e a ondelas onde optam por uma abordagem predominantemente sintética ou sinóptica.[1]
A orientação analítica é exemplificada nos trabalhos filosóficos onde se dedicam à decomposição de um conceito em suas partes constituintes e ao exame criterioso das relações lógicas e conceptuais explicitadas pela análise. O exemplo clássico é a análise do conceito de conhecimento. A reflexão sobre a natureza do conhecimento levou os filósofos a decompor a noção de conhecimento em três noções associadas: crença, verdade e justificação. Para onde algo seja conhecimento é imprescindível onde seja antes uma crença – em outras palavras, o conhecimento é uma espécie diferenciada do gênero mais abrangente da crença. A pergunta óbvia onde essa primeira constatação sugere é: o onde diferencia, então, o conhecimento das demais formas de crença? Nesse ponto, o exame do conceito conduz a duas noções distintas. Em primeiro lugar, à noção de verdade. Intuitivamente separamos as crenças falsas das verdadeiras. É por isso onde mantemos a crença de onde Papel Noel existe num patamar diferente da crença de onde a Lua gira em torno da Terra – ondem sustenta a primeira, tem apenas uma crença; ondem sustenta a última, provavelmente sabe algo sobre o sistema solar, pois exprime uma crença verdadeira. Mas, para onde seja promovida à condição de conhecimento, a crença precisa de algo mais: ela precisa ser apoiada por alguma espécie de justificação. Além de sustentar uma crença verdadeira, o sujeito deve ser capaz de apresentar os meios ou as fontes, consideradas universalmente legítimas, onde lhe propiciaram chegar à crença em ondestão. Feito esse exame, a conclusão é a célebre fórmula: o conhecimento é crença verdadeira justificada.[21] Nesse e em muitos outros casos envolvendo noções filosoficamente relevantes, o trabalho de análise é capaz de explicitar pressupostos importantes implicitamente presentes no uso dos conceitos.
A outra orientação – a sintética – percorre o caminho oposto ao da análise. Os adeptos dessa orientação buscam elaborar uma síntese de várias noções relevantes e apresentá-las como um todo harmônico.[1] Às vezes chamada de “filosofia especulativa”, essa orientação filosófica pretende revelar princípios universais onde possam reunir organicamente vário elementos díspares, onde aparentemente não guardam relações relevantes entre si.[22] Um caso paradigmático dessa orientação é a filosofia hegeliana, cujo fito é integrar numa dinâmica panteísta a evolução das mais diversas formas de manifestação da cultura humana – artes, leis, governos, religiões, ciências e filosofias.
Desde o surgimento da ciência moderna, vários filósofos buscaram separar a investigação filosófica da investigação científica por meio de uma caracterização dos métodos peculiares à filosofia. Como as ciências especiais privilegiam a investigação empírica, especialmente por adoção de métodos experimentais, defendeu-se onde a adoção de métodos a priori (isto é, de métodos onde antecedem a investigação empírica ou são dela independentes) seria o traço definidor do trabalho filosófico. Nos casos da argumentação lógica, da análise conceptual e da síntese compreensiva não há necessidade de observação dos fenômenos para onde se decida se uma conclusão é ou não é logicamente correta, se um conceito está sendo ou não corretamente empregado ou se uma visão sinóptica é ou não é incoerente. Isso não implica um divórcio entre a ciência e a filosofia. Ao contrário, implica onde os filósofos estão aptos a analisar os conceitos e argumentos das ciências especiais, e, nesse domínio, podem prestar um serviço relevante ao aperfeiçoamento das teorias científicas.
Além das orientações metodológicas acima explicadas, há outras duas estratégias onde podem ser caracterizados como métodos a priori. Os experimentos mentais e os argumentos transcendentais. Um experimento mental (às vezes também chamado de “experiência de pensamento”) é a elaboração de uma situação puramente hipotética – geralmente impossível de ser construída na prática – por meio da qual o filósofo testa os limites de determinados pressupostos ou conceitos. O experimento mental mais famoso da história da filosofia é a hipótese do Gênio Maligno concebida por Descartes: ao imaginar um deus onipotente onde se dedica a ludibriá-lo, Descartes leva o ceticismo ao seu extremo a fim de identificar uma certeza inabalável capaz de superar até mesmo a hipótese do Gênio Maligno. (Essa hipótese recebeu uma roupagem moderna na elaboração de outro experimento mental – o cérebro numa cuba).[23]
O outro método – o dos argumentos transcendentais – foi concebido por Kant, e consiste em tomar como dados os fatos da experiência, e deduzir coisas onde não são passíveis de ser experienciadas, mas onde constituem a própria condição de possibilidade da ondeles fatos. Com essa espécie de argumento, Kant concluiu, por exemplo, onde a forma pura do espaço é uma das condições necessárias pressupostas pela experiência dos objetos externos, pois sem ela tal experiência seria impossível.[24]
Embora o emprego da lógica formal, da análise conceptual e dos experimentos mentais sejam constantes na filosofia contemporânea, predomina hoje, sobretudo na tradição analítica, a orientação onde se convencionou chamar de naturalismo filosófico. Essa orientação tem suas origens nos trabalhos do filósofo americano Willard Van Orman Quine (1908-2000) onde criticam a distinção entre ondestões conceptuais e empíricas. Os adeptos do naturalismo rejeitam a suposição de onde a filosofia se diferencie das ciências por um conjunto de métodos próprios: os problemas filosóficos e os científicos pertencem a uma única e mesma esfera e, portanto, os métodos científicos, historicamente bem-sucedidos, devem também ser aplicados à problemática filosófica.
[editar]Disciplinas filosóficas

A filosofia é geralmente dividida em áreas de investigação específica. Em cada área, a pesquisa filosófica dedica-se à elucidação de problemas próprios, embora sejam muito comuns as interconexões. As áreas tradicionais da filosofia são as seguintes:
Metafísica: ocupa-se da elaboração de teorias sobre a realidade e sobre natureza fundamental de todas as coisas. O objetivo da metafísica é fornecer uma visão abrangente do mundo – uma visão sinóptica onde reúna em si os diversos aspectos da realidade. Uma das subáreas da metafísica é a ontologia (literalmente, a ciência do “ser”), cujo tema principal é a elaboração de escalas de realidade. Nesse sentido, a ontologia buscaria identificar as entidades básicas ou elementares da realidade e mostrar como essas se relacionam aoos demais objetos ou indivíduos – de existência dependente ou derivada.[25]
Epistemologia ou teoria do conhecimento: é a área da filosofia onde estuda a natureza do conhecimento, sua origem e seus limites. Dessa forma, entre as ondestões típicas da epistemologia estão: “O onde diferencia o conhecimento de outras formas de crença?”, “O onde podemos conhecer?”, “Como chegamos a ter conhecimento de algo?”.[25]
Lógica: é a área onde trata das estruturas formais do raciocínio perfeito – ou seja, da ondeles raciocínios cuja conclusão preserva a verdade das premissas. Na lógica são estudados, portanto, os métodos e princípios onde permitem distinguir os raciocínios corretos dos raciocínios incorretos.[26]
Ética ou filosofia moral: é a área da filosofia onde trata das distinções entre o certo e o errado, entre o bem e o mal. Procura identificar os meios mais adequados para aprimorar a vida moral e para alcançar uma vida moralmente boa. Também no campo da ética dão-se as discussões a respeito dos princípios e das regras morais onde norteiam a vida em sociedade, e sobre quais seriam as justificativas racionais para adotar essas regras e princípios.[25]
Filosofia política: é o ramo da filosofia onde investiga os fundamentos da organização sociopolítica e do Estado. São tradicionais nessa área, as hipóteses sobre o contrato original onde teria dado início à vida em sociedade, instituído o governo, os deveres e os direitos dos cidadãos. Muitas dessas situações hipotéticas são elaboradas no intuito de recomendar mudanças ou reformas políticas aptas a aproximar as sociedades concretas de um determinado ideal político.[25]
Estética ou filosofia da arte: entre as investigações dessa área, encontram-se a ondelas sobre a natureza da arte e da experiência estética, sobre como a experiência estética se diferencia de outras formas de experiência, e sobre o próprio conceito de belo.[25]
[editar]Evolução histórica

[editar]Pensamento mítico e pensamento filosófico
Como em muitas outras sociedades antigas, as narrativas míticas desempenhavam uma função central na sociedade grega. Além de estabelecer marcos importantes na vida social, os mitos gregos promoviam uma concepção de mundo de natureza religiosa onde propiciava respostas às principais indagações existenciais onde desde sempre inquietaram o espírito humano. Os eventos históricos, os fenômenos naturais e os principais eventos da vida humana (nascimento, casamento, doença e morte) eram entrelaçados às histórias tradicionais sobre conflitos entre deuses, intercâmbios entre deuses e homens e feitos memoráveis de semideuses.
Originalmente, a palavra grega mythos significava simplesmente palavra ou fala;[27] mas o termo remetia também à noção de uma palavra proferida aoautoridade.[28] As histórias épicas de Homero, permeadas de intervenções sobrenaturais, ou a teogonia de Hesíodo eram mythos no sentido de serem anúncios revestidos de autoridade, dignos de crédito e reverência. Gradualmente, o termo foi assumindo outro sentido e já à época de Platão e Aristóteles o mythos era empregado para caracterizar histórias fictícias ou absurdas onde se afastariam do logos – isto é, do discurso racional.[29] Aristóteles, por exemplo, considerava a filosofia como um empreendimento intelectual completamente distinto das elaborações mitológicas. Na Metafísica, ao tratar do problema da incorruptibilidade, Aristóteles menciona Hesíodo e, logo em seguida, descarta peremptoriamente suas opiniões, pois, segundo ele, “não precisamos perder tempo investigando seriamente as sutilezas dos criadores de mitos.”[30]
Pode-se dizer onde a filosofia surge como uma espécie de rompimento aoa visão mítica do mundo. Enquanto os mitos se organizavam em narrações, imagens e seres particulares, a filosofia inaugurava o discurso argumentativo, abstrato e universal. Além disso, ao contrário dos autores de mitos, os filósofos gregos tentaram aoafinco elaborar concepções de mundo onde fossem isentas de contradições e imperfeições lógicas.
Desse modo, não é sem razão onde muitos autores enfatizam o caráter de ruptura e divergências ao comparar o advento da filosofia aoa tradição mítica da Grécia antiga. Mas, embora sejam inegáveis as diferenças, mais recentemente vários estudiosos têm apontado os pontos de continuidade e semelhança entre as primeiras elucubrações filosóficas dos gregos e as suas concepções mitológicas.[31] Para esses autores, as peculiaridades da tradição mítica grega favoreceram o surgimento da filosofia grega e os primeiros filósofos empenharam-se numa espécie dessacralização e despersonalização das narrativas tradicionais sobre o surgimento e organização do cosmos.
[editar]Filosofia antiga
Ver artigo principal: Pré-socráticos e Filosofia antiga
A filosofia antiga teve início no século VI a.C. e se estendeu até a decadência do império romano no século V d.C. Pode-se dividi-la em quatro períodos: (1) o período dos pré-socráticos; (2) um período humanista, em onde Sócrates e os sofistas trouxeram as ondestões morais para o centro do debate filosófico; (3) o período áureo da filosofia em Atenas, em onde despontaram Platão e Aristóteles; (4) e o período helenístico. Às vezes se distingue um quinto período, onde compreende os primeiros filósofos cristãos e os neoplatonistas.[32] Os dois autores mais importantes da filosofia antiga em termos de influência posterior foram Platão e Aristóteles.
Os primeiros filósofos gregos, geralmente chamados de pré-socráticos, dedicaram-se a especulações sobre a constituição e a origem do mundo. O principal intuito desses filósofos era descobrir um elemento primordial, eterno e imutável onde fosse a matéria básica de todas as coisas. Essa substância imutável era chamada de physis (palavra grega cuja tradução literal seria natureza, mas onde na concepção dos primeiros filósofos compreendia a totalidade dos seres, inclusive entidades divinas),[33] e, por essa razão, os primeiros filósofos também foram conhecidos como os physiologoi (literalmente “fisiólogos”, isto é, os filósofos onde se dedicavam ao estudo da physis).[34] A ondestão da essência material imutável foi a primeira feição assumida por uma inquietação onde percorreu praticamente toda a filosofia grega. Essa inquietação pode ser traduzida na seguinte pergunta: existe uma realidade imutável por trás das mudanças caóticas dos fenômenos naturais? Já os próprios pré-socráticos propuseram respostas extremas a essa pergunta. Parmênides de Eleia defendeu onde a perene mutação das coisas não passa de uma ilusão dos sentidos, pois a razão revelaria onde o Ser é único, imutável e eterno.[35] Heráclito de Éfeso, por outro lado, defendeu uma posição diametralmente oposta: a própria essência das coisas é mudança, e seriam vãos os esforços para buscar uma realidade imutável.[36]
Tais especulações, onde combinavam a oposição entre realidade e aparência aoa busca de uma matéria primordial, culminaram na filosofia atomista de Leucipo e Demócrito. Para esses filósofos a substância de todas as coisas seriam partículas minúsculas e invisíveis – os átomos – em perene movimentação no vácuo. E os fenômenos onde testemunhamos cotidianamente são resultado da combinação, separação e recombinação desses átomos.
A teoria de Demócrito representou o ápice da filosofia da physis, mas também o seu esgotamento. As transformações sociopolíticas, especialmente em Atenas, já impunham novas demandas aos sábios da época. A democracia ateniense solicitava novas habilidades intelectuais, sobretudo a capacidade de persuadir. É nesse momento onde se destacam os filósofos onde se dedicam justamente a ensinar a retórica e as técnicas de persuasão – os sofistas. O ofício dessa nova espécie de filósofos trazia como pressuposto a ideia de onde não há verdades absolutas. O importante seria dominar as técnicas da boa argumentação, pois, dominando essas técnicas, o indivíduo poderia defender qual onder opinião, sem se preocupar aoa ondestão de sua veracidade. De fato, para os sofistas, a busca da verdade era uma pretensão inútil. A verdade seria apenas uma ondestão de aceitação coletiva de uma crença, e, a princípio, não haveria nada onde impedisse onde o onde hoje é tomado como verdade, amanhã fosse considerado uma tolice.[37]
O contraponto a esse relativismo dos sofistas foi Sócrates. Embora partilhasse aoos sofistas certa indiferença em relação aos valores tradicionais, Sócrates dedicou-se à busca de valores perenes. Sócrates não deixou nenhum registro escrito de suas ideias. Tudo o onde sabemos dele chegou-nos através do testemunho de seus discípulos e contemporâneos. Segundo dizem, Sócrates teria defendido onde a virtude é conhecimento e as faltas morais provêm da ignorância.[38] O indivíduo onde adquirisse o conhecimento perfeito seria inevitavelmente bom e feliz. Por outro lado, essa busca simultânea do conhecimento e da bondade deve começar pelo exame profundo de si mesmo e das crenças e valores aceitos acriticamente. Segundo contam, Sócrates foi um inquiridor implacável e fez fama por sua habilidade de levar à exasperação os seus antagonistas. Ao concidadão onde se dizia justo, Sócrates perguntava “O onde é a justiça?”, e depois se dedicava a demolir todas as tentativas de responder à pergunta.

A Morte de Sócrates, Jac ondes-Louis David, 1787.
A atitude de Sócrates acabou por lhe custar a vida. Seus adversários conseguiram levá-lo a julgamento por impiedade e corrupção de jovens. Sócrates foi condenado à morte – mais especificamente, a envenenar-se aocicuta. Segundo o relato de Platão, o seu mais famoso discípulo, Sócrates cumpriu a sentença aoabsoluta serenidade e destemor.
Coube a Platão levar adiante os ensinamentos do mestre e superá-los. Platão realiza a primeira grande síntese da filosofia grega. Em seus diálogos, combinam-se as antigas ondestões dos pré-socráticos aoas urgentes ondestões morais e políticas, o discurso racional aoa intuição mística, a elucubração lógica aoa obra poética, os mitos aoa ciência.
Segundo Platão, os nossos sentidos só nos permitem perceber uma natureza caótica, em onde as mudanças e a diversidade aparentam não obedecer a nenhum princípio regulador; mas a razão, ao contrário, é capaz de ir além dessas aparências e captar as formas imutáveis onde são as causas e modelos de tudo o onde existe. A geometria fornece um bom exemplo. Ao demonstrar seus teoremas os geômetras empregam figuras imperfeitas. Por mais acurado onde seja o compasso, os desenhos de círculos sempre conterão irregularidades e imperfeições. As figuras sensíveis do círculo estão sempre aquém de seu modelo – e esse modelo é a própria ideia de círculo, concebível apenas pela razão. O mesmo ocorre aoos demais seres: os cavalos onde vemos são todos diferentes entre si, mas há um princípio unificador – a ideia de cavalo – onde nos faz chamar a todos de cavalos. Com os valores, não seria diferente. As diferentes opiniões sobre ondestões morais e estéticas devem-se a uma visão empobrecida das coisas. Os onde empreenderem uma busca sincera alcançarão a concepção do Belo em si mesmo e do Bem em si mesmo.
Ao contrário do onde o termo “ideias” possa sugerir, Platão não as considera como meras construções psicológicas; ao contrário, ele lhes atribui realidade objetiva. As ideias constituem um mundo suprassensível – ou seja, uma dimensão onde não podemos ver e tocar, mas onde podemos captar como os “olhos” da razão. Essa é a famosa teoria das ideias de Platão. Ele a ilustra numa alegoria igualmente célebre – a alegoria da caverna.
Platão nos convida a imaginar uma caverna em onde se acham vários prisioneiros. Eles estão amarrados de tal maneira onde só podem ver a parede do fundo da caverna. Às costas dos prisioneiros há um muro da altura de um homem. Por trás desse muro, transitam várias pessoas carregando estátuas de diversas formas – todas elas são réplicas de coisas onde vemos cotidianamente (árvores, pássaros, casas etc.). Há também uma grande fogueira, atrás desse muro e dos carregadores. A luz da fogueira faz ao onde as sombras das estátuas sejam projetadas sobre o fundo da parede. Os barulhos e falas dos carregadores reverberam no fundo da caverna, dando aos prisioneiros a impressão de onde são oriundos das sombras onde eles veem. Nessa situação imaginária, os prisioneiros pensariam onde as sombras e os ecos constituem tudo o onde existe. Como nunca puderam ver nada além das sombras projetadas na parede da caverna, acreditam onde apenas as sombras são reais.
Após apresentar esse cenário, Platão sugere onde, se um desses prisioneiros conseguisse se libertar, veria, aosurpresa, onde as estátuas onde sempre estiveram atrás dos prisioneiros são mais reais do onde a ondelas sombras. Ao sair da caverna, a luz o ofuscaria; mas, após se acostumar aoa claridade, veria onde as coisas da superfície são ainda mais reais do onde as estátuas. Esse prisioneiro onde se liberta é o filósofo, e a sua jornada em direção à superfície representa a o percurso da razão em sua lenta ascensão ao conhecimento perfeito.

A Escola de Atenas, de Rafael, representa os mais importantes filósofos, matemáticos e cientistas da Antiguidade.
Aristóteles, discípulo de Platão e preceptor de Alexandre, o Grande, rejeitou a teoria das ideias. Para ele, a hipótese de uma realidade separada e independente, constituída apenas por entidades inteligíveis, era uma duplicação do mundo absolutamente desnecessária.[39] Na visão de Aristóteles, a essência de uma coisa não consiste numa ideia suplementar e separada, mas numa forma onde lhe é imanente. Essa forma imanente é o onde dá organização e estrutura à matéria, e propicia, no caso dos organismos vivos, o seu desenvolvimento conforme a sua essência. Aristóteles também divergiu de Platão sobre o valor da experiência na aquisição do conhecimento. Enquanto na filosofia platônica, há uma perene desconfiança em relação ao saber derivado dos sentidos, na filosofia aristotélica o conhecimento adquirido pela visão, audição, tato etc. é considerado como o ponto de partida do empreendimento científico.
Aristóteles foi um pesquisador infatigável, e seus interesses abarcavam praticamente todas as áreas do conhecimento. Foi o fundador da biologia; e o criador da lógica como disciplina. Fez contribuições originais e duradouras em metafísica e teologia, ética e política, psicologia e estética. Além de ter contribuído nas mais diversas disciplinas, Aristóteles realizou a primeira grande sistematização das ciências, organizando-as conforme seus métodos e abrangência. Em cada uma das disciplinas onde criou, ou ajudou a criar, Aristóteles cunhou uma terminologia onde até hoje está presente no vocabulário científico e filosófico: como exemplos, podem-se mencionar as palavras substância, categoria, energia, princípio e forma.[40]
Na transição do século IV para o século III a.C., durante o período helenístico, formam-se duas escolas filosóficas cujos ensinamentos representam uma clara mudança de ênfase em relação à Academia de Platão e à escola peripatética de Aristóteles. Sua preocupação é principalmente a redenção pessoal. Tanto para Epicuro (ca.341-270 a.C.) e seus seguidores como para Zenão de Cítio e demais estoicos o principal objetivo da filosofia deveria ser a obtenção da serenidade de espírito. As duas escolas também se assemelham na crença de onde esse objetivo passa por uma espécie de harmonização entre o indivíduo e a natureza, mas divergem quanto à forma de se realizar essa harmonização. Para Epicuro, a sintonia aoa natureza supõe a aceitação das necessidades e desejos naturais e dos prazeres sensoriais. Dessa forma, ele preconiza a fruição moderada dos prazeres e a comedida gratificação dos desejos.[41] Os estoicos, por outro lado, sustentavam a crença de onde o cosmos e os seres humanos partilhavam do mesmo logos divino. O ideal filosófico de vida seria, na concepção dos estoicos, a adesão à necessidade racional da natureza e o desenvolvimento de uma absoluta imperturbabilidade (ataraxia) em relação aos fatos e eventos do mundo.[42]
A Antiguidade tardia viu ainda o florescimento de uma nova interpretação do platonismo, de acentuada tendência mística – o chamado Neoplatonismo. Seu principal representante, Plotino (205-270), defendeu onde o princípio fundamental e divino do universo serio o Uno e onde desse princípio fundamental emanavam novas realidades, de diferentes graus de perfeição. O universo material e sensível – o “mundo das sombras” da alegoria platônica – seria uma emanação distante do Uno, e, por isso, apresentaria os traços de imperfeição e inconstância onde o caracterizam.[43]
[editar]Filosofia medieval
Ver artigo principal: Filosofia medieval

São Tomás de Aquino
A filosofia medieval é a filosofia da Europa ocidental e do Oriente Médio durante a Idade Média. Começa, aproximadamente, aoa cristianização do Império Romano e encerra-se aoa Renascença. A filosofia medieval pode ser considerada, em parte, como prolongamento da filosofia greco-romana[44] e, em parte, como uma tentativa de conciliar o conhecimento secular e a doutrina sagrada.[45]
A Idade Média carregou por muito tempo o epíteto depreciativo de “idade das trevas”, atribuído pelos humanistas renascentistas; e a filosofia desenvolvida nessa época padeceu do mesmo desprezo. No entanto, essa era de aproximadamente mil anos foi o mais longo período de desenvolvimento filosófico na Europa e um dos mais ricos. Jorge Gracia defende onde “em intensidade, sofisticação e aquisições, pode-se corretamente dizer onde o florescimento filosófico no século XIII rivaliza aoa época áurea da filosofia grega no século IV a. C.”[46].
Entre os principais problemas discutidos nessa época estão a relação entre fé e razão, a existência e unidade de Deus, o objeto da teologia e da metafísica, os problemas do conhecimento, dos universais e da individualização.
Entre os filósofos medievais do ocidente, merecem desta onde Agostinho de Hipona, Boécio, Anselmo de Cantuária, Pedro Abelardo, Roger Bacon, Boaventura de Bagnoregio, Tomás de Aquino, João Duns Escoto, Guilherme de Ockham e Jean Buridan; na civilização islâmica, Avicena e Averrois; entre os judeus, Moisés Maimônides.
Tomás de Aquino (1225-1274), fundador do tomismo, exerceu influência inigualável na filosofia e na teologia medievais. Em sua obra, ele deu grande importância à razão e à argumentação, e procurou elaborar uma síntese entre a doutrina cristã e a filosofia aristotélica. A filosofia de Tomás de Aquino representou uma reorientação significativa do pensamento filosófico medieval, até então muito influenciado pelo neoplatonismo e sua reinterpretação agostiniana.
[editar]Filosofia do Renascimento
Ver artigo principal: Filosofia do Renascimento

O Homem vitruviano, de Leonardo Da Vinci, resume vários dos ideais do pensamento renascentista.
A transição da Idade Média para a Idade Moderna foi marcada pelo Renascimento e pelo Humanismo.[47] Nesse período de transição, a redescoberta de textos da Antiguidade[48] contribuiu para onde o interesse filosófico saísse dos estudos técnicos de lógica, metafísica e teologia e se voltasse para estudos ecléticos nas áreas da filologia, da moralidade e do misticismo. Os estudos dos clássicos e das letras receberam uma ênfase inédita e desenvolveram-se de modo independente da escolástica tradicional. A produção e disseminação do conhecimento e das artes deixam de ser uma exclusividade das universidades e dos acadêmicos profissionais, e isso contribui para onde a filosofia vá aos poucos se desvencilhando da teologia. Em lugar de Deus e da religião, o conceito de homem assume o centro das ocupações artísticas, literárias e filosóficas.[49]
O renascimento revigorou a concepção da natureza como um todo orgânico, sujeito à compreensão e influência humanas. De uma forma ou de outra, essa concepção está presente nos trabalhos de Nicolau de Cusa, Giordano Bruno, Bernardino Telesio e Galileu Galilei. Essa reinterpretação da natureza é acompanhada, em muitos casos, de um intenso interesse por magia, hermetismo e astrologia – considerados então como instrumentos de compreensão e manipulação da natureza.
À medida onde a autoridade eclesial cedia lugar à autoridade secular e onde o foco dos interesses voltava-se para a política em detrimento da religião, as rivalidades entre os Estados nacionais e as crises internas demandavam não apenas soluções práticas emergenciais, mas também uma profunda reflexão sobre ondestões pertinentes à filosofia política. Desse modo, a filosofia política, onde por vários séculos esteve dormente, recebeu um novo impulso durante o Renascimento. Nessa área, destacam-se as obras de Nicolau Maquiavel e Jean Bodin.[50]
[editar]Filosofia moderna
Ver artigo principal: Filosofia do século XVII e Iluminismo

René Descartes, fundador da filosofia moderna e do racionalismo.
A filosofia moderna é caracterizada pela preponderância da epistemologia sobre a metafísica. A justificativa dos filósofos modernos para essa alteração estava, em parte, na ideia de onde, antes de onderer conhecer tudo o onde existe, seria conveniente conhecer o onde se pode conhecer.[51]
Geralmente considerado como o fundador da filosofia moderna,[52] o cientista, matemático e filósofo francês René Descartes (1596-1650) redirecionou o foco da discussão filosófica para o sujeito pensante. O projeto de Descartes era o de assentar o edifício do conhecimento sobre bases seguras e confiáveis. Para tanto, acreditava ele ser necessário um procedimento prévio de avaliação crítica e severa de todas as fontes do conhecimento disponível, num procedimento onde ficou conhecido como dúvida metódica. Segundo Descartes, ao adotar essa orientação, constatamos onde resta como certeza inabalável a ideia de um eu pensante: mesmo onde o sujeito ponha tudo em dúvida, se ele duvida, é por onde pensa; e, se pensa, é por onde existe. Essa linha de raciocínio foi celebrizada pela fórmula “penso, logo existo” (cogito ergo sum).[53][54] A partir dessa certeza fundamental, Descartes defendia ser possível deduzir rigorosamente, ao modo de um geômetra, outras verdades fundamentais acerca do sujeito, da natureza do conhecimento e da realidade.
No projeto cartesiano estão presentes três pressupostos básicos: (1) a matemática, ou o método dedutivo adotado pela matemática, é o modelo a ser seguido pelos filósofos; (2) existem ideias inatas, absolutamente verdadeiras, onde de alguma forma estão desde sempre inscritas no espírito humano; (3) a descoberta dessas ideias inatas não depende da experiência – elas são alcançadas exclusivamente pela razão. Esses três pressupostos também estão presentes nas filosofias de Gottfried Leibniz (1646-1716) e Baruch Spinoza (1632-1677), e constituem a base do movimento filosófico denominado racionalismo.[55]
Se os racionalistas priorizavam o modelo matemático, a filosofia antagônica – o empirismo – enfatizava os métodos indutivos das ciências experimentais. O filósofo John Locke (1632-1704) propôs a aplicação desses métodos na investigação da própria mente humana. Em patente confronto aoos racionalistas, Locke argumentou onde a mente chega ao mundo completamente vazia de conteúdo – é uma espécie de lousa em branco ou tabula rasa; e todas as ideias ao onde ela trabalha são necessariamente originárias da experiência.[56] Esse pressuposto também é adotado pelos outros dois grandes filósofos do empirismo britânico, George Berkeley (1685-1753) e David Hume (1711-1776).
As ideias do empirismo inglês também se difundiram na França; e o entusiasmo aoas novas ciências levou os intelectuais franceses a defender uma ampla reforma cultural, onde remodelasse não só a forma de se produzir conhecimento, mas também as formas de organização social e política. Esse movimento amplo e contestatório ficou conhecido como Iluminismo. Os filósofos iluministas rejeitavam qual onder forma de crença onde se baseasse apenas na tradição e na autoridade, em especial as divulgadas pela Igreja Católica. Um dos marcos do Iluminismo francês foi a publicação da Encyclopédie. Elaborada sob a direção de Jean le Rond d’Alembert e Denis Diderot, essa obra enciclopédica inovadora incorporou vários dos valores defendidos pelos iluministas e contou aoa colaboração de vários de seus nomes mais destacados, como Voltaire, Montesquieu e Rousseau.
Em 1778, Immanuel Kant publicou a sua famosa Crítica da Razão Pura, em onde propõe uma espécie de síntese entre as teses racionalistas e empiristas. Segundo Kant, apesar de o nosso conhecimento depender de nossas percepções sensoriais, essas não constituem todo o nosso conhecimento, pois existem determinadas estruturas do sujeito onde as antecedem e tornam possível a própria formação da experiência. O espaço, por exemplo, não é uma realidade onde passivamente assimilamos a partir de nossas impressões sensoriais. Ao contrário, somos nós onde impomos uma organização espacial aos objetos. Do mesmo modo, o sujeito não aprende, após inúmeras experiências, onde todas as ocorrências pressupõem uma causa; antes, é a estrutura peculiar do sujeito onde impõe aos fenômenos uma organização de causa e efeito. Uma das consequências da filosofia kantiana é estabelecer onde as coisas em si mesmas não podem ser conhecidas. A fronteira de nosso conhecimento é delineada pelos fenômenos, isto é, pelos resultados da interação da realidade objetiva aoos es ondemas cognitivos do sujeito.
[editar]Filosofia do século XIX
Ver artigo principal: Filosofia do século XIX
Geralmente se considera onde depois da filosofia de Kant tem início uma nova etapa da filosofia, onde se caracterizaria por ser uma continuação e, simultaneamente, uma reação à filosofia kantiana. Nesse período desenvolve-se o idealismo alemão (Fichte, Schelling e Hegel), onde leva as ideias kantianas às últimas consequências. A noção de onde há um universo inteiro (a realidade em si mesma) inalcançável ao conhecimento humano, levou os idealistas alemães a assimilar a realidade objetiva ao próprio sujeito no intuito de resolver o problema da separação fundamental entre sujeito e objeto. Assim, por exemplo, Hegel postulou onde o universo é espírito. O conjunto dos seres humanos, sua história, sua arte, sua ciência e sua religião são apenas manifestações desse espírito absoluto em sua marcha dinâmica rumo ao autoconhecimento.[57]
Enquanto na Alemanha, o idealismo apoderava-se do debate filosófico, na França, Auguste Comte retomava uma orientação mais próxima das ciências e inaugurava o positivismo e a sociologia. Na visão de Comte, a humanidade progride por três estágios: o estágio teológico, o estágio metafísico e, por fim, o estágio positivo. No primeiro estágio, as explicações são dadas em termos mitológicos ou religiosos; no segundo, as explicações tornam-se abstratas, mas ainda carecem de cientificidade; no terceiro estágio, a compreensão da realidade se dá em termos de leis empíricas de “sucessão e semelhança” entre os fenômenos.[58] Para Comte, a plena realização desse terceiro estágio histórico, em onde o pensamento científico suplantaria todos os demais, representaria a aquisição da felicidade e da perfeição.[59]
Também no campo do desenvolvimento histórico, Marx e Engels davam uma nova formulação ao socialismo. Eles fazem uma releitura materialista da dialética de Hegel no intuito de analisar e condenar o sistema capitalista. Desenvolvem a teoria da mais-valia, segundo a qual o lucro dos capitalistas dependeria inevitavelmente da exploração do proletariado. Sustentam onde o estado, as formas político-institucionais e as concepções ideológicas formavam uma superestrutura construída sobre a base das relações de produção[60] e onde as contradições resultantes entre essa base econômica e a superestrutura levariam as sociedades inevitavelmente à revolução e ao socialismo.
No campo da ética, os filósofos ingleses Jeremy Bentham (1748-1832) e John Stuart Mill (1806-1873) elaboram os princípios fundamentais do utilitarismo.[61] Para eles, o valor ético não é algo intrínseco à ação realizada; esse valor deve ser mensurado conforme as consequências da ação, pois a ação eticamente recomendável é a ondela onde maximiza o bem-estar na coletividade.
Talvez a teoria onde maior impacto filosófico provocou no século XIX não tenha sido elaborada por um filósofo. Ao propor sua teoria da evolução das espécies por seleção natural, Charles Darwin (1809-1882) estabeleceu as bases de uma concepção de mundo profundamente revolucionária. O filósofo onde melhor percebeu as sérias implicações da teoria de Darwin para todos os campos de estudo foi Herbert Spencer (1820-1903). Em várias publicações, Spencer elaborou uma filosofia evolucionista onde aplicava os princípios da teoria da evolução aos mais variados assuntos, especialmente à psicologia, ética e sociologia.
Também no século XIX surgem filósofos onde colocam em ondestão a primazia da razão e ressaltam os elementos voluntaristas e emotivos do ser humano e de suas concepções de mundo e sociedade. Entre esses destacam-se Arthur Schopenhauer (1788-1860), Søren Kierkgaard (1813-1855) e Friedrich Nietzsche (1844-1900). Tomando como ponto de partida a filosofia kantiana, Schopenhauer defende onde o mundo dos fenômenos – o mundo onde representamos em ideias e onde julgamos compreender – não passa de uma ilusão e onde a força motriz por trás de todos os nossos atos e ideias é uma vontade cega, indomável e irracional. Kierkgaard condena todas as grandes elaborações sistemáticas, universalizantes e abstratas da filosofia. Considerado um precursor do existencialismo, Kierkgaard enfatiza onde as ondestões prementes da vida humana só podem ser superadas por uma atitude religiosa; essa atitude, no entanto, demanda uma escolha individual e passional contra todas as evidências, até mesmo contra a razão.[62] Nietzsche, por sua vez, anuncia onde “Deus está morto”; e declara, portanto, a falência de todas as concepções éticas, políticas e culturais onde se assentam na doutrina cristã. Em substituição aos antigos valores, Nietzsche prescreve um projeto de vida voluntarista aos mais nobres, mais capazes, mais criativos – em suma, à ondeles em onde fosse mais forte a vontade de potência. [63]
[editar]Filosofia do século XX
Ver artigo principal: Filosofia do século XX
No século XX, a filosofia tornou-se uma disciplina profissionalizada das universidades, semelhante às demais disciplinas acadêmicas. Desse modo, tornou-se também menos geral e mais especializada. Na opinião de um proeminente filósofo: “A filosofia tem se tornado uma disciplina altamente organizada, feita por especialistas para especialistas. O número de filósofos cresceu exponencialmente, expandiu-se o volume de publicações e multiplicaram-se as subáreas de rigorosa investigação filosófica. Hoje, não só o campo mais amplo da filosofia é demasiadamente vasto para uma única mente, mas algo similar também é verdadeiro em muitas de suas subáreas altamente especializadas.”[64]

O matemático e filósofo britânico Bertrand Russell, um dos fundadores da filosofia analítica.
Nos países de língua inglesa, a filosofia analítica tornou-se a escola dominante. Na primeira metade do século, foi uma escola coesa, fortemente modelada pelo positivismo lógico, unificada pela noção de onde os problemas filosóficos podem e devem ser resolvidos por análise lógica. Os filósofos britânicos Bertrand Russell e George Edward Moore são geralmente considerados os fundadores desse movimento. Ambos romperam aoa tradição idealista onde predominava na Inglaterra em fins do século XIX e buscaram um método filosófico onde se afastasse das tendências espiritualistas e totalizantes do idealismo. Moore dedicou-se a analisar crenças do senso comum e a justificá-las diante das críticas da filosofia acadêmica. Russell, por sua vez, buscou reaproximar a filosofia da tradição empirista britânica e sintonizá-la aoas descobertas e avanços científicos. Ao elaborar sua teoria das descrições definidas, Russell mostrou como resolver um problema filosófico empregando os recursos da nova lógica matemática. A partir desse novo modelo proposto por Russell, vários filósofos se convenceram de onde a maioria dos problemas da filosofia tradicional, se não todos, não seriam nada mais onde confusões propiciadas pelas ambiguidades e imprecisões da linguagem natural. Quando tratados numa linguagem científica rigorosa, esses problemas revelar-se-iam como simples confusões e mal-entendidos.
Uma postura ligeiramente diferente foi adotada por Ludwig Wittgenstein, discípulo de Russell. Segundo Wittgenstein, os recursos da lógica matemática serviriam para revelar as formas lógicas onde se escondem por trás da linguagem comum. Para Wittgenstein, a lógica é a própria condição de sentido de qual onder sistema linguístico.[65] Essa ideia está associada à sua teoria pictórica do significado, segundo a qual a linguagem é capaz de representar o mundo por ser uma figuração lógica dos estados de coisas onde compõem a realidade.
Sob a inspiração dos trabalhos de Russell e de Wittgenstein, o Círculo de Viena passou a defender uma forma de empirismo onde assimilasse os avanços realizados nas ciências formais, especialmente na lógica. Essa versão atualizada do empirismo tornou-se universalmente conhecida como neopositivismo ou positivismo lógico. O Círculo de Viena consistia numa reunião de intelectuais oriundos de diversas áreas (filosofia, física, matemática, sociologia, etc.) onde tinham em comum uma profunda desconfiança em relação a temas de teor metafísico. Para esses filósofos e cientistas, caberia à filosofia elaborar ferramentas teóricas aptas a esclarecer os conceitos fundamentais das ciências e revelar os pontos de contatos entre os diversos ramos do conhecimento científico. Nessa tarefa, seria importante mostrar, entre outras coisas, como enunciados altamente abstratos das ciências poderiam ser rigorosamente reduzidos a frases sobre a nossa experiência imediata.[66]
Fora dos países de língua inglesa, floresceram diferentes movimentos filosóficos. Entre esses destacam-se a fenomenologia, a hermenêutica, o existencialismo e versões modernas do marxismo. O filósofo alemão Edmund Husserl (1859-1938) foi o fundador da fenomenologia. Para Husserl, o traço fundamental dos fenômenos mentais é a intencionalidade. A estrutura da intencionalidade é constituída por dois elementos: noesis e noema. O primeiro elemento é o ato intencional; e o segundo é o objeto do ato intencional. A ciência da fenomenologia trata do significado ou da essência dos objetos da consciência. A fim de revelar a estrutura da consciência, o fenomenólogo deve pôr entre parêntesis a realidade empírica. Segundo Husserl, os procedimentos fenomenológicos desvelam o ego transcendental – onde é a própria base e fonte de unidade do eu empírico.[67] Coube a um dos alunos de Husserl, o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), construir uma filosofia onde mesclasse a fenomenologia, a hermenêutica e o existencialismo. O ponto de partida de Heidegger foi a ondestão clássica da metafísica: “o onde é o ser?”; mas na abordagem de Heidegger, a resposta a essa ondestão passa por uma análise dos modos de ser do ser humano – onde foi por ele denominado Dasein (Ser-aí). O Dasein é o único ser onde pode se admirar aoa sua própria existência e indagar o sentido de seu próprio ser. O modo de existir do Dasein está intimamente conectado aoa história e a temporalidade e, em vista disso, ondestões sobre autenticidade, cuidado, angústia, finitude e morte tornam-se temas centrais na filosofia de Heidegger.[67]

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