Paulo coelho mergulha no mundo on line

O poder promocional da pirataria e os méritos artísticos dos blogs na internet serão alguns dos temas a serem comentados pelo escritor Paulo Coelho em seu discurso inaugural na Feira de Livros de Frankfurt, nesta semana. O brasileiro de 61 anos, responsável por títulos como “O alquimista” e “Onze minutos”, está ganhando reputação de pioneiro digital, graças a sua adesão entusiasmada às mídias online.



Além de um blog pessoal e uma coluna diária no G1 , Paulo Coelho tem perfis espalhados por várias redes de relacionamento social. Ele utiliza a ferramenta de blogging móvel “Twitter” e regularmente envia vídeos ao YouTube, sob a rubrica Privacidade Zero. Alguns anos atrás ele começou a distribuir versões digitais de seus livros de graça na internet.



Veja, a seguir, a entrevista concedida pelo escritor ao correspondente da Reuters Television Matt Cowan em seu apartamento em Paris.



Pergunta: Por que você faz tudo isso [envolvimento grande com a web]?


 


Resposta: Pela diversão. É um prazer. Não sou uma pessoa que socializa muito bem. Não vou a coquetéis, não vou a festas, de maneira geral. Descobri esse mundo fantástico atrás da web que me ajuda muito como profissional, como escritor.



Pergunta: O ajuda de que maneira?



Resposta: Não é apenas uma maneira de permanecer engajado, como os fundamentos de qualquer trabalho escrito são as pessoas e os conflitos humanos. As pessoas relutam muito em falar de suas vidas privadas, mas são muito mais abertas na internet. É claro que elas adotam uma persona. Nunca se pode saber se essa persona é verdadeira ou não, mas, em última análise, até a persona tem uma boa história a contar.



Pergunta: Por que você acha que vale a pena escrever um blog?



Resposta: Se você perguntasse aos monges da Idade Média o que pensavam de Gutemberg e da impressão, eles diriam “de que valem alguns livros impressos? Estamos aqui, desenhando cada letra com bela caligrafia. Isto é arte. Isto é sagrado, e o processo de impressão inventado por Gutemberg não quer dizer nada”. Acho que estamos na mesma situação hoje. As pessoas podem mostrar e expressar o que sentem, em imagens, textos e filmes. Todo mundo possui um potencial criativo, e a partir do momento em que você pode expressar esse potencial criativo, você começa a mudar o mundo.



Pergunta: Mas você não teve o objetivo de tornar-se pioneiro digital.



Resposta: No início, era uma maneira de conseguir informações para escrever livros. Depois você sente que deve algo. Que está recebendo, mas não dando. Então você começa a dar e percebe como é importante dar. Se você for a meu blog, encontrará muitas coisas gratuitas. E isso me faz vender menos ou mais livros? Ninguém sabe. Vou à Feira de Livros de Frankfurt para falar justamente disso. Não sei se vendo livros, mas sei que estou compartilhando minha alma. Essa é a meta de qualquer artista.



Pergunta: Você está entusiasmado com a multimídia como alternativa aos livros?



Resposta: Como escritor, fico entusiasmado em viver tudo. Acabo de criar um filme com meus leitores. Durante um ano peguei um de meus livros, “A bruxa de Portobello,” e disse aos leitores: “Vocês têm que escolher um personagem e fazer um filme com ele”. Mais de 6.000 pessoas participaram do concurso. Selecionei 15 delas e temos um filme fantástico.



Pergunta: Por que você se interessa tanto por redes de relacionamentos sociais?



Resposta: Não é que eu esteja cansado de escrever livros. Mas acho instigante escrever para novas plataformas, porque isso desafia você a utilizar linguagens novas. É preciso ser direto. Eu sou muito direto em meus livros, mas, mesmo assim, a internet tem uma estrutura de escrita diferente. E estou aprendendo. É isso o que me instiga. É como se eu estivesse num reino novo agora. Sem deixar de lado meus livros, estou expandindo meu universo.



Pergunta: Fale da idéia por trás do Privacidade Zero.



Resposta: A idéia é que a privacidade zero é uma realidade. Não temos mais vida privada. Então comecei a colocar [no YouTube] vídeos de coisas que me acontecem. É claro que a primeira reação do chamado pessoal de marketing das editoras foi dizer “está errado, você precisa conservar uma aura de mistério. Você deveria estar numa torre de marfim, sem ninguém saber o que você está fazendo”. Eu disse a eles “tudo bem, mas nesse caso eu não me divertiria”.



Pergunta: Você não se preocupa com sua segurança ou com fãs desequilibrados?



Resposta: John Lennon foi assassinado antes da chegada da internet. Se você pensar nessas coisas, não fará nada. Então, sim, é preciso assumir riscos.



Pergunta: Qual é o significado da decisão da HarperCollins de produzir versões eletrônicas gratuitas de alguns de seus livros?



Resposta: Tive uma grande executiva-chefe na HarperCollins, Jane Friedman. Recebi uma ligação dela e disse que não podia voltar atrás no que eu tinha dito [quando, numa conferência, mencionou que disponibilizaria seus livros gratuitamente em seu web site]. Eu disse: “vamos resolver o problema, não vamos voltar ao passado”. A HarperCollins criou um site no qual você pode ler o livro, mas não pode baixá-lo. Então eu digo “uau.”

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