SOUZA, Antônio José de


Um dos nossos maiores compositores Gilberto Gil canta uma belíssima verdade:


“(…) se eu quiser falar com Deus tenho que ficar a sós, apagar a luz, calar a voz e encontrar a paz (…)”.


(Se eu quiser falar com Deus – Compositor: Gilberto Gil)


Para falar com Deus não há mistério, não existe ciência secreta, nem mesmo receita pronta, como aquelas que encontramos no final das revistas femininas. Basta seguir a risca a simples descoberta de Santa Teresinha: voltar-se para o céu em contemplação, como fez Jesus (Jo 17, 1). Ou ainda, descobrindo no outro a possibilidade de orar constantemente no serviço incondicional as suas mazelas. Seja como for, a única certeza, é a de que nos Livros Sagrados encontramos ricos registros de oração e louvores, daqueles que costumamos chamar de Povo de Deus. Exemplo disso são os Salmos:


“Das profundezas clamo a ti, Iahweh: Senhor, ouve o meu grito! Que teus ouvidos estejam atentos ao meu pedido por graça!”


(Salmo 130, 1-2)


Os salmistas cantam suas experiências com Iahweh, derramam-se em louvor e suplica ao Deus que salva dos grilhões da escravidão e sela a promessa de uma nova terra onde corre leite e mel. Diante dos Salmos encontramos ensinamentos contínuos sobre a oração que nos encaminha, a exemplo dos salmistas, a possibilidade de entoar louvores simples e espontâneos atrelando ao nosso contexto histórico, uma vez que os Salmos são atemporais.


A oração de louvor é erguida a Deus por toda a sua grandeza. É o momento de reconhecer os Seus feitos, agradecendo-O por Ser o que É. A oração de louvor é totalmente desinteressada, dirigida a Deus; cantada para Deus; dando-lhe glória, mais do que pelo que Ele faz. É a gratidão rendida mesmo quando tudo está um caos e a vida em intensa desordem nos motiva a praguejar, lamuriar e lamentar. Louvar mesmo quando o nosso clamor parecer esquecido.


“Apesar de tudo isso, Jó não cometeu pecado nem imputou nada de indigno contra Deus.” (Jó 1, 22)


O que temos assistido no tempo presente é a deturpação da oração. Vemos a oração manobrada pelos nossos interesses, comercializada pelo “mercado da fé”, tabelada pelo império (igreja) do sagrado. Anunciam a oração de pouco ou mais poder, numa negociata sem-vergonha e sem pudores. Não entendem o discurso de Paulo sobre a graça: nada precisamos dar. Não galgamos méritos diante de Deus pelas nossas ações, porque Deus não faz acepção de pessoas. (Rm 2, 11).


O Espírito Santo dá a algumas pessoas um carisma especial de cura e libertação dos males para manifestar a força da graça que emana do Ressuscitado, porém as filas quilométricas que se formam defronte a Templos que prometem o fim do sofrimento, a libertação das enfermidades não está em conformidade a esse propósito. Não estou fazendo apologia ao sofrimento e nem diminuindo o poder dos Céus, todavia, acredito que existem situações que mesmo as orações mais intensas não conseguem obter a cura e livramento de todas as moléstias.


Por isso, Paulo diz contundentemente, que os sofrimentos que temos de suportar podem ter como sentido “completar na minha carne o que falta às tribulações de Cristo por seu corpo, que é a Igreja” (Cl 1,24).