Teoria da evolução e outras teorias

A teoria da evolução é a pedra fundamental de toda a biologia moderna. Proposta no século passado pelo naturalista inglês Charles Darwin, é um dos mais impressionantes edifícios do intelecto humano e um triunfo da ciência objetiva. Quase tudo o que sabemos sobre a vida na Terra pode ser explicada pelos seus postulados, que foram modificados e estendidos posteriormente, consistindo o “neodarwinismo”.
A evidência científica para o fenômeno da evolução dos seres vivos é avassaladora e irrefutável. Ela provém do registro dos fósseis, da anatomia comparativa (comparação entre as características estruturais dos vários organismos relacionados, como um homem e um chimpanzé, por exemplo), da embriologia (desenvolvimento de um ser vivo até o nascimento), da biogeografia (distribuição das espécies no planeta e do isolamento e comunicação entre elas) e da própria classíficação das espécies. O corpo mais recente de evidências foi fornecido pela biologia e genética molecular, através do estudo da estrutura e da função dos ácidos nucleicos (RNA e DNA) e das proteínas sintetizadas pelas células. Essa evidência mostra de forma impressionante como os organismos são parecidos uns com os outros, mesmo quando pertencem a classes totalmente diferentes (um anfíbio e um primata, por exemplo), e como genes semelhantes produzem órgãos e funções análogos. Isso nunca poderia ter acontecido se não houvesse uma mutação gradual do material genético, e a fixação dessas mudanças através da adaptação ao ambiente da sobrevivência dos mais aptos, que é o mecanismo da evolução proposto por Darwin e seguidores.

O problema é que uma proporção enorme da população não conhece e nem acredita na teoria da evolução, preferindo, muitas vezes, acreditar nos dogmas de textos religiosos, que dizem que a Criação é obra de uma entidade superior e inteligente. Nos EUA, onde essas coisas são avaliadas periodicamente, cerca de 50 % da população diz acreditar na hipótese criacionista, o que está levando muitas escolas secundárias a serem obrigadas a incluir essa alternativa nas aulas de biologia.

Uma das confusões mais comuns na cabeça daqueles que se opõem à teoria darwiniana da evolução é o argumento de que “ela é apenas uma teoria”, subentendendo-se, portanto, que não seria comprovada. Isso denota uma enorme ignorância sobre o que é teoria em ciência. Não é a mesma coisa que a palavra “teoria” que faz parte do vernáculo popular. Uma teoria científica é algo muito específico: significa um conjunto lógico de explicações e argumentos racionais que são capazes de compatibilizar e explicar sem contradições internas todo o conjunto de evidências experimentais e observacionais obtidas de forma objetiva a respeito de alguma coisa. A teoria da evolução, portanto, é esse arcabouço intelectual e lógico que explica da forma mais econômica, racional e convincente o enorme conjunto de dados obtidos sobre as espécies animais.

Uma outra propriedade importante de qualquer teoria é sua capacidade preditiva, ou seja, de prever como serão futuras descobertas na mesma área. Se for descoberto algo que contradiz frontalmente uma teoria, ela é modificada de forma a acomodar essa nova descoberta. Rarissimas vezes ocorre uma rejeição total de uma teoria, e atualmente, devido à abordagem objetiva do método científico, isso é cada vez mais difícil. Nesse sentido, a teoria da evolução tem passado bem em todos os testes de novas predições, o que nos assegura de forma reconfortante que ela é provavelmente a mai verdadeira. Portanto, dizer que essa teoria carece de credibilidade por ser “apenas uma teoria” é inteiramente falso. Embora todo cientista seja eminentemente cético, e toda teoria possa, em princípio, ser refutada, sendo substituída por outra (e isso já aconteceu várias vezes na Ciência), isso deve ocorrer dentro de um processo ordenado, lógico e racional.

A tentativa que grupos religiosos fundamentalistas norte-americanos, principalmente, estão fazendo para obrigar o ensino da “teoria” criacionista (essa, sim, uma proposta sem qualquer fundamentação científica, sendo baseada unicamente na fé nas Escrituras Sagradas) é extremamente preocupante. Da mesma forma que a religião não deve admitir a intromissão das premissas da ciência natural objetiva nos assuntos de fé (pois isso a destruiria), a ciência não deve se deixar macular por abordagens inteiramente irracionais e baseadas em crenças, que contradizem frontalmente suas próprias premissas de se chegar à “verdade”.

Na ânsia de misturar coisas que não podem ser misturadas, grupos criacionistas americanos (os quais incluem., surpreendentemente, muitos cientistas que trabalham com projetos de genética e biologia) fundaram o Center for Creation Science (Centro para a Ciência da Criação), que alinhavou vários livros expondo o que eles chamam de “as falácias e inverdades da teoria da evolução”. Seu objetivo declarado é provar que existem evidências contra a teoria da evolução, e que ela não seria a única possível. Até aí tudo bem, mas os argumentos que eles apresentam são constantemente manchados por dogmas de fé, invalidando todo o seu posicionamento. Por exemplo, eles tentam refutar a existência de fósseis intermediários entre os répteis e as aves (como o Archeopterix), alegando que são fraudes cometidas por cientistas interessados ! Uma vez demonstrado que são fraudes, então propõem que toda a seqüência fóssil é falsa… E por aí vai, numa sucessão de absurdos que seria ridícula, se não fosse expressada de forma tão veemente, e levada a sério por tanta gente. Vale a pena visitar o “site” deles na Internet: http://www.creationscience.com.

Minha conclusão é que não basta ensinarmos ciência na base da “decoreba”, como faz a maioria das escolas, e, infelizmente, muitos livros didáticos. Ë preciso fazer com que os alunos também entendam o processo da ciência, como se chega ao conhecimento científico, e porque ele é mais confiável que outros tipos de conhecimento. Isso não poderá ser feito, evidentemente, se os professores não tiverem também uma boa formação e um conhecimento elementar sobre o método científico e a filosofia da ciência moderna.

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